Gilles Deleuze: A Imagem-Movimento (aula 1 de 21)

“O cinema inventou uma percepção. A percepção no cinema é diferente da percepção nas condições naturais. O cinema nos propõe uma percepção que as condições naturais não nos podem dar, a saber: a percepção de um movimento puro. E se as condições da reprodução do movimento no cinema são condições artificiais, isso não significa que aquilo que o cinema reproduz seja artificial. Todo o artifício do cinema serve à construção dessa percepção de um movimento puro; ou de um movimento que tende ao puro, ao seu estado puro. O que é o fato da percepção cinematográfica? É que no cinema o movimento não se acrescenta à imagem. O movimento não se adiciona à imagem. Não há a imagem e depois o movimento. O que o cinema apresenta é uma imagem-movimento (com um pequeno traço, com um hífen). É uma imagem-movimento”.

FILME: O Mínimo Gesto (1971) | Fernand Deligny

Por: Nicolas Philibert | Trad.: Rodrigo Lucheta  "Débil mental", dizem os especialistas. Tal como é no mínimo gesto, ele o é na vida cotidiana que levamos juntos há mais de 10 anos.... Tal como é, para nós ele é uma fonte inesgotável de riso o tempo todo, desde que chega. E neste filme como na … Continue lendo FILME: O Mínimo Gesto (1971) | Fernand Deligny

Deleuze de costas e de frente | por Jean-Pierre Faye

Por: Jean-Pierre Faye | Trad.: Rodrigo Lucheta   “Cada combinação frágil é uma potência de vida que se afirma”. É o enigma deleuzeano, aquele do filósofo “sem pulmões” – mas que fôlego... Penso em sua definição, ou antes em seu retrato de Nietzsche: “grand vivant de saúde frágil”. Ele mesmo cita a descrição nietzscheana: “O … Continue lendo Deleuze de costas e de frente | por Jean-Pierre Faye

Deleuze milenar, ou Para além do túmulo.

“A dobra exprime o jogo de uma vida, ou de uma criança, ou de uma obra ao longo da crista ou da costura da imanência, dos “rincões de imanência” (...). Do mesmo modo, Deleuze diz a Parnet n’O Abecedário que a criação funciona fundamentalmente como um modo de resistência. Ele cita Primo Levi a fim de sugerir que o artista é aquele que libera uma vida, uma vida potente, uma vida mais que pessoal, e não somente sua vida (“R” de Resistência). Ora, à objeção de Parnet sobre o suicídio de Levi, indicando que a arte talvez não seja suficiente para realizar tal liberação, Deleuze responde com rigor que sim, Levi suicidou-se “pessoalmente”, incapaz de carregar o fardo de sua vida pessoal; mas as palavras e as obras de Primo Levi restam todavia como aquilo que Deleuze chama de “resistências eternas”, impessoais, para além da instância dos acontecimentos pessoais”.

Michel Foucault: Sobre a justiça popular

(...) a luta contra o aparelho judiciário é uma luta importante − não digo uma luta fundamental, mas é tão importante quanto foi esta justiça na separação que a burguesia introduziu e manteve entre proletariado e plebe. Este aparelho judiciário teve efeitos ideológicos específicos sobre cada uma das classes dominadas. Há em particular uma ideologia do proletariado que se tornou permeável a um certo número de idéias burguesas sobre o justo e o injusto, o roubo, a propriedade, o crime, o criminoso. Isso não quer dizer no entanto que a plebe não proletarizada se manteve tal e qual. PeIo contrário, a esta plebe, durante um século e meio, a burguesia propôs as seguintes escolhas: ou vai para a prisão ou para o exército; ou vai para a prisão ou para as colônias, ou vai para a prisão ou entra para a policia. De modo que a plebe não proletarizada foi racista quando foi colonizadora; foi nacionalista, chauvinista quando foi militar. Foi fascista quando foi policial. Estes efeitos ideológicos sobre a plebe foram reais e profundos. Os efeitos sobre o proletariado são também reais. Este sistema é, em um certo sentido, muito sutil e sustenta−se relativamente muito bem, mesmo se as relações fundamentais e o processo real não são vistos pela burguesia.

O método de dramatização (1967), por Gilles Deleuze

Sob a organização, assim como sob a especificação, encontramos tão-somente dinamismos espaço-temporais: isto é, agitações de espaço, buracos de tempo, puras sínteses de velocidades, de direções e de ritmos. Então, as características mais gerais de ramificação, de ordem e de classe, e até as características genéricas e específicas, já dependem de tais dinamismos ou de tais direções de desenvolvimento. E, simultaneamente, sob os fenômenos partitivos da divisão celular, encontram-se ainda instâncias dinâmicas, migrações celulares, dobramentos, invaginações, estiramentos que constituem uma “dinâmica do ovo”. A esse respeito, o mundo inteiro é um ovo.

Jim Morrison: dor, violência, liberdade.

Entrevista a Lizze James em 1967   Lizze James - Acho que os admiradores dos Doors o encaram como um salvador, um líder messiânico que os libertará. O que você acha? Essa não é uma imensa responsabilidade? Jim Morrison - Isso é um absurdo. Como se pode libertar alguém que não tem coragem para levantar-se … Continue lendo Jim Morrison: dor, violência, liberdade.

O Barco Bêbado, poema de Arthur Rimbaud

“O Barco Bêbado” (1871), poema de Arthur Rimbaud, vivido por Léo Ferré, com tradução de Augusto de Campos.     O Barco Bêbado - Arthur Rimbaud Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis Os espetaram nus em postes multicores. Eu era indiferente à carga que trazia, … Continue lendo O Barco Bêbado, poema de Arthur Rimbaud

“Não somos pessoas, somos acontecimentos” | Aula de Gilles Deleuze

Aula de 03 de junho de 1980 no Centro Universitário de Vincennes. Trecho da aula: “…o segredo da individuação não é a pessoa, pois que a verdadeira individuação é aquela dos acontecimentos. É uma ideia estranha. Vocês me dirão: o que é que se justifica? Demos um salto. Sim, para onde você vai? Isso diz … Continue lendo “Não somos pessoas, somos acontecimentos” | Aula de Gilles Deleuze

Transmutação da tristeza em Kafka, por Maurice Blanchot

por Maurice Blanchot | Trad.: Rodrigo Lucheta O mistério é o seguinte: eu sou infeliz, eu me sento à minha mesa e escrevo “eu sou infeliz”. Como isso é possível? Vemos porquê essa possibilidade é estranha e, até certo ponto, escandalosa. Meu estado de infelicidade significa esgotamento de minhas forças; a expressão da minha infelicidade, aumento de forças. … Continue lendo Transmutação da tristeza em Kafka, por Maurice Blanchot

O Processo – um filme perturbador

"No nível da narrativa, todos representam o seu papel: a acusação, a defesa, a mesa, os advogados, o rito. O Processo controla a todos, envolve e desenvolve a todos em sua passagem. Esse nível da representação, da narrativa, é o mais visível do filme, juntamente, claro, com os gestos dos envolvidos, gestos que escapam ao script e que preenchem o sentido do que se passa: os gestos deixam ver as cordas que movem todos os títeres - ainda que não nos revelem quem seja o titeriteiro. O Processo, como eu disse, é invisível."

“Imagens-Deleuze”, por Roger-Pol Droit

por Roger-Pol Droit | Trad.: Rodrigo Lucheta   Quando eu já não souber amar e admirar pessoas ou coisas (não muitas), me sentirei morto, mortificado. Gilles Deleuze, Conversações.   Sem clichês calculados. Nenhum ponto de vista. De Gilles Deleuze me restam imagens de amador. Não são fotografias. Nada além de esboços mentais, que eu sou o … Continue lendo “Imagens-Deleuze”, por Roger-Pol Droit

“Após a orgia”, por Jean Baudrillard

por Jean Baudrillard | trad.: Estela dos Santos Abreu Se fosse caracterizar o atual estado de coisas, eu diria que é o da pós-orgia. A orgia é o momento explosivo da modernidade, o da liberação em todos os domínios. Liberação política, liberação sexual, liberação das forças produtivas, liberação das forças destrutivas, liberação da mulher, da … Continue lendo “Após a orgia”, por Jean Baudrillard

O Direito à Literatura, por Antônio Cândido

O assunto que me foi confiado nesta série é aparentemente meio desligado dos problemas reais: “Direitos humanos e literatura”. As maneiras de abordá-lo são muitas, mas não posso começar a falar sobre o tema específico sem fazer algumas reflexões prévias a respeito dos próprios direitos humanos. É impressionante como em nosso tempo somos contraditórios neste … Continue lendo O Direito à Literatura, por Antônio Cândido