Deleuze milenar, ou Para além do túmulo.

“A dobra exprime o jogo de uma vida, ou de uma criança, ou de uma obra ao longo da crista ou da costura da imanência, dos “rincões de imanência” (...). Do mesmo modo, Deleuze diz a Parnet n’O Abecedário que a criação funciona fundamentalmente como um modo de resistência. Ele cita Primo Levi a fim de sugerir que o artista é aquele que libera uma vida, uma vida potente, uma vida mais que pessoal, e não somente sua vida (“R” de Resistência). Ora, à objeção de Parnet sobre o suicídio de Levi, indicando que a arte talvez não seja suficiente para realizar tal liberação, Deleuze responde com rigor que sim, Levi suicidou-se “pessoalmente”, incapaz de carregar o fardo de sua vida pessoal; mas as palavras e as obras de Primo Levi restam todavia como aquilo que Deleuze chama de “resistências eternas”, impessoais, para além da instância dos acontecimentos pessoais”.

Michel Foucault: Sobre a justiça popular

(...) a luta contra o aparelho judiciário é uma luta importante − não digo uma luta fundamental, mas é tão importante quanto foi esta justiça na separação que a burguesia introduziu e manteve entre proletariado e plebe. Este aparelho judiciário teve efeitos ideológicos específicos sobre cada uma das classes dominadas. Há em particular uma ideologia do proletariado que se tornou permeável a um certo número de idéias burguesas sobre o justo e o injusto, o roubo, a propriedade, o crime, o criminoso. Isso não quer dizer no entanto que a plebe não proletarizada se manteve tal e qual. PeIo contrário, a esta plebe, durante um século e meio, a burguesia propôs as seguintes escolhas: ou vai para a prisão ou para o exército; ou vai para a prisão ou para as colônias, ou vai para a prisão ou entra para a policia. De modo que a plebe não proletarizada foi racista quando foi colonizadora; foi nacionalista, chauvinista quando foi militar. Foi fascista quando foi policial. Estes efeitos ideológicos sobre a plebe foram reais e profundos. Os efeitos sobre o proletariado são também reais. Este sistema é, em um certo sentido, muito sutil e sustenta−se relativamente muito bem, mesmo se as relações fundamentais e o processo real não são vistos pela burguesia.

Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze, por François Dosse

Os Engajamentos Políticos de Gilles Deleuze[i] por François Dosse[ii] | Trad.: Germaine Mandelsaft O horizonte político, no sentido amplo do termo, atravessa o pensamento de Gilles Deleuze e seu trajeto intelectual é pontuado por engajamentos. No entanto, sua posição difere daquela do intelectual engajado, porta-voz da justiça, frente à razão de Estado, à maneira de Sartre, durante … Continue lendo Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze, por François Dosse

Entrevista com o filósofo mascarado.

Permita-me, em primeiro lugar, perguntar-lhe porque escolhe o anonimato. Imagino que você conheça a história daqueles psicólogos que apresentaram breve filme numa localidade no coração da África profunda. Pedem aos espectadores que narrem a história da forma como a entenderam. Pois bem, de um drama com três personagens, só uma coisa os havia interessado: a … Continue lendo Entrevista com o filósofo mascarado.

Sennett & Foucault: Sexualidade e Solidão

por Richard Sennett e Michel Foucault | Trad.: Lígia Melo da Costa, Maria Beatriz Chagas Lucca e Sérgio Augusto Chagas de Laia Richard Sennett: Há poucos anos atrás, Michel Foucault e eu descobrimos que estávamos interessados no mesmo problema, em períodos históricos bem diferentes. O problema é por que a sexualidade se tornou tão importante para … Continue lendo Sennett & Foucault: Sexualidade e Solidão

Michel Foucault: “A Escrita de Si”

por Michel Foucault | trad.: Elisa Monteiro & Inês Autran Dourado Barbosa   A Vita Antonii de Atanásio apresenta a anotação escrita das ações e dos pensamentos como um elemento indispensável à vida ascética: "Eis uma coisa a ser observada para nos assegurarmos de não pecar. Consideremos e escrevamos, cada um, as ações e os … Continue lendo Michel Foucault: “A Escrita de Si”

Existe uma inteligência do virtual?, por John Rajchman

Por John Rajchman | Trad.: Maria Cristina Franco Ferraz 1. O Virtual... O virtual é um conceito bem antigo. A palavra, que vem de virtus (a força) é ligada a actualis (o ato que a torna efetiva); esse par corresponde à dynamis-energeia, que alguns consideram ser o próprio cerne da filosofia de Aristóteles. No entanto, mais perto … Continue lendo Existe uma inteligência do virtual?, por John Rajchman

É inútil revoltar-se?, por Michel Foucault

Por Michel Foucault | Trad.: Vera Lúcia Avellar Ribeiro   "Para que o xá se vá, estamos prontos para morrer aos milhares", diziam os iranianos no verão passado. E o aiatolá, recentemente: "Que o Irã sangre, para que a revolução se fortaleça." Estranho eco entre essas frases que parecem se encadear. O horror da segunda condena a embriaguez … Continue lendo É inútil revoltar-se?, por Michel Foucault

Paul Veyne: O último Foucault e sua moral

Por: Paul Veyne  |  Trad.: Wanderson Flor do Nascimento       Foucault acabou experimentando, pela antiguidade greco-romana, uma atração tão viva como a que teve seu mestre Nietzsche. A admiração implica uma sinceridade e uma assimetria que repugnam comumente os intelectuais, esta casta de ressentidos; assim, um dia me surpreendi ao ver Foucault abandonar sua mesa de … Continue lendo Paul Veyne: O último Foucault e sua moral