Filosofia, Política, Semiologia

Pergunta e resposta | por Elias Canetti

por Elias Canetti | trad.: Sergio Tellaroli

Toda pergunta é uma intromissão. Onde ela é aplicada como um instrumento de poder, a pergunta corta feito faca a carne do interrogado. Sabe-se de antemão o que se pode descobrir, mas quer-se descobri-lo e tocá-lo de fato. Com a segurança de um cirurgião, o inquiridor precipita-se sobre os órgãos do interrogado. Esse cirurgião mantém viva sua vítima para saber mais sobre ela. É uma espécie particular de cirurgião, que atua provocando deliberadamente a dor em certos pontos; estimula certas porções da vítima para saber de outras com maior segurança.

Perguntas visam respostas; aquelas que não se fazem seguir de respostas são como flechas atiradas ao vento. A pergunta mais inocente é aquela que permanece isolada, não trazendo outras consigo. Pergunta-se a um estranho onde fica um determinado edifício. O estranho indica sua localização. O inquiridor contenta-se com a resposta e segue seu caminho. Deteve o estranho por um momento; obrigou-o a pensar. Quanto mais clara e concludente a resposta deste último, tanto mais rapidamente ele se livrará do primeiro. Deu-lhe o que ele esperava e nunca mais precisará revê-lo.

Um inquiridor, porém, poderia não se contentar com a resposta e fazer outras perguntas. Quando estas se acumulam, elas logo despertam a má vontade do inquirido. Que não é detido apenas exteriormente; a cada resposta, ele mostra um pedaço a mais de si. Tal pedaço pode ser desimportante, superficial, mas foi-lhe solicitado por um estranho; ademais, vincula-se a outros, mais ocultos, aos quais ele atribui valor muito maior. A indisposição que sente logo se converte em desconfiança.

E isso porque o efeito das perguntas sobre o inquiridor é o de uma elevação de sua sensação de poder; elas lhe dão vontade de fazer mais e mais perguntas. O inquirido sujeita-se tanto mais quanto mais frequentemente consentir em respondê-las. A liberdade das pessoas reside em boa parte em estar a salvo de perguntas. É a tirania mais vigorosa que se permite as perguntas mais enérgicas.

Uma resposta inteligente é aquela que põe fim às perguntas. Quem pode, responde com outra pergunta; entre iguais, esse é um meio de defesa já comprovado. Aquele a quem a posição do inquiridor não permite nenhuma réplica, esse tem de dar-lhe uma resposta completa, revelando-lhe o que ele quer saber; do contrário, precisará, pela astúcia, retirar-lhe a vontade de seguir inquirindo. Poderá, assim, adulando-o, reconhecer a superioridade real do inquiridor, de modo que este não precise manifestá-la ele próprio. E poderá ainda desviar-lhe a atenção para outros, os quais seria mais interessante ou fecundo inquirir. Se sabe dissimular bem, é possível que apague sua identidade. Quando isso acontece é como se a pergunta tivesse, por assim dizer, sido dirigida a outro, ele próprio não sendo a pessoa competente para responder a ela.

Pretendendo, em última instância, dissecar, a pergunta principia pelo contato. Vai, então, tocando mais pontos, e pontos diversos. Não encontrando resistência, avança. O que colhe não é prontamente desfrutado, mas colocado de lado para utilização posterior. Primeiramente, ela tem de encontrar aquele que é o objeto específico de sua busca. Atrás de cada pergunta há sempre um objetivo deliberado. Perguntas indefinidas — as de uma criança ou de um louco — não possuem força alguma, deixando-se satisfazer com facilidade.

A situação mais perigosa é aquela na qual se exige uma resposta concisa. A dissimulação convincente, a fuga pela metamorfose, torna-se difícil em poucas palavras, se não impossível. A defesa mais crua é fazer-se de surdo ou desentendido. Mas esta só auxilia quando se está entre iguais. Se, pelo contrário, a pergunta parte do mais forte rumo ao mais fraco, ela pode ser feita por escrito ou traduzida. A resposta a uma pergunta assim faz-se, então, muito mais comprometedora. Ela pode ser comprovada, e o inquiridor poderá recorrer a ela.

Aquele que é exteriormente indefeso recolhe-se em sua armadura interior. Tal armadura interior a protegê-lo da pergunta é o segredo. Este jaz no interior de um corpo qual num segundo corpo, mais bem protegido; quem se aproxima demais dele há de estar preparado para surpresas desagradáveis. Na qualidade de algo mais denso, o segredo é apartado de seu entorno e mantido numa escuridão que somente poucos logram iluminar. O que ele possui de perigoso é sempre colocado acima de seu conteúdo propriamente dito. O mais importante, o mais denso — poder-se-ia dizer — no segredo é a defesa eficaz contra toda e qualquer pergunta.

O silêncio diante de uma pergunta é como o ricochetear de uma arma num escudo ou armadura. O calar é uma forma extrema de defesa, cujas vantagens e desvantagens equilibram-se. Aquele que cala, é certo, não se entrega; em compensação, porém, dá a impressão de ser mais perigoso do que é. Supõe-se haver nele mais do que aquilo que ele cala. Silencia apenas porque tem muito o que calar; tanto mais importante faz-se, pois, não libertá-lo. O silêncio obstinado conduz à inquisição penosa, à tortura.

Contudo, mesmo em circunstâncias normais a resposta sempre aprisiona aquele que a deu. Ele não pode mais simplesmente abandoná-la. Ela o obriga a posicionar-se num determinado lugar e a permanecer ali, tendo o inquiridor a alvejá-lo de todas as direções. Este o circunda, por assim dizer, escolhendo a posição que lhe convém. Pode rodeá-lo, surpreendê-lo e confundi-lo. A mudança de posição confere-lhe uma espécie de liberdade da qual o inquirido não pode desfrutar. Com sua pergunta, o inquiridor lança-se sobre ele e, se logra tocá-lo com ela — ou seja, se logra obrigá-lo a responder —, ele o capturou, aprisionando-o num determinado lugar. “Quem é você?” “Sou fulano de tal.” Este já não pode mais ser outra pessoa; do contrário, sua mentira enredá-lo-á em dificuldades. Subtraiu-se-lhe já a possibilidade de escapar valendo-se da metamorfose. Se se prolonga por algum tempo, esse processo pode ser encarado como uma espécie de acorrentamento.

A primeira pergunta tem por objeto a identidade; a segunda, o lugar. Como ambas têm a língua por pressuposto, é de se perguntar se seria concebível uma situação arcaica, existente em palavras já anteriormente à pergunta e a ela correspondente. Nela, identidade e lugar coincidiriam ainda: uma não teria sentido sem o outro. Essa situação arcaica se verifica no contato hesitante com a presa. Quem é você? Você é comestível? O animal, em sua busca incessante por alimento, toca e cheira tudo quanto encontra. Mete seu focinho em toda parte: você é comestível? Que gosto você tem? A resposta é um odor, uma reação, uma rigidez inanimada. O corpo estranho é também seu próprio lugar; cheirando-o e tocando-o é que é conhecido ou — traduzindo para nossos costumes humanos — é nomeado.

Na educação da criança ainda pequena, dois processos que se entrecruzam parecem desproporcionalmente intensificados; embora pareçam desproporcionais, vinculam-se intimamente um ao outro. Ordens ininterruptas, de natureza vigorosa e enfática, partem dos pais; da criança, por sua vez, parte uma infinidade de perguntas. Essas primeiras perguntas da criança são como um grito por alimento, já em sua segunda e mais elevada forma. São inofensivas, uma vez que absolutamente não transmitem à criança o saber pleno dos pais; a superioridade destes permanece gigantesca.

Quais as primeiras perguntas que a criança faz? Dentre elas encontram-se aquelas relacionadas a um lugar: “Onde é…?”. “O quê?” e “Quem?” figuram também entre essas primeiras perguntas. Vê-se, pois, que papel, lugar e identidade desempenham desde cedo. Constituem as primeiras coisas acerca das quais a criança busca informar-se. Somente mais tarde, ao final do terceiro ano de vida, ela começa a perguntar “por quê?”, e, mais tarde ainda, “quando?” e “quanto tempo?” — as perguntas relativas ao tempo. Um longo período se passa até que a criança adquira ideias precisas acerca do tempo.

A pergunta que principia com o contato hesitante busca, como já se disse, avançar mais. Há algo nela que busca cindir, assemelhando-se a uma faca. Pode-se percebê-lo em função da resistência que crianças bem pequenas opõem a perguntas duplas. “O que você prefere? Uma maçã ou uma pera?” A criança não responderá, ou dirá “pera”, simplesmente por ter sido esta a última alternativa mencionada. Uma decisão de fato, que constituísse uma cisão entre pera e maçã, é-lhe, porém, difícil: no fundo, ela quer ambas.

Seu verdadeiro poder de corte, a cisão atinge quando possíveis são somente as duas respostas mais simples que existem: sim ou não. Sendo opostas e excluindo tudo o mais que há entre elas, a decisão por uma ou outra implica um comprometimento e alcance particulares.

Antes que a pergunta seja feita, em geral não se sabe o que se pensa. É ela quem obriga à separação dos prós e contras. Se gentil e não aflitiva para com o inquirido, ela deixa a seu cargo a decisão.

Nos diálogos platônicos, Sócrates é coroado uma espécie de rei da inquirição. Ele despreza as formas comuns de poder e evita zelosamente tudo quanto possa lembrá-las. Qualquer um que o queira pode desfrutar da sabedoria que constitui sua superioridade. Nem sempre, porém, ele a transmite num discurso coeso, mas antes lançando suas perguntas. Nos diálogos, cuida-se para que seja ele a fazer a maioria das perguntas, e as mais importantes dentre elas. Assim, Sócrates não larga mais de seus ouvintes, obrigando-os a cisões das mais variadas naturezas. Seu domínio sobre eles, ele o obtém exclusivamente mediante a inquirição.

As formas da civilidade que restringem a inquirição são importantes. A um estranho, não é admissível que se façam certas perguntas. Quem as fizer estará se aproximando demasiado dele, invadindo-o, e o estranho terá motivo para sentir-se ofendido. A reserva, pelo contrário, convencê-lo-á do quanto ele é respeitado. O estranho é tratado como se fosse alguém mais forte — uma forma de adulação que provoca nele atitude semelhante. Somente dessa maneira, a uma certa distância um do outro e não ameaçados por perguntas, qual fossem todos fortes e iguais nessa sua força, os homens se sentem seguros e convivem em paz.

Uma pergunta colossal é aquela que diz respeito ao futuro. Poder-se-ia chamá-la a pergunta suprema; é também a mais intensa de todas. Os deuses, aos quais ela é dirigida, não são obrigados a dar uma resposta. A pergunta que se faz ao mais forte é uma pergunta desesperada. Os deuses jamais se deixam aprisionar; não se pode penetrá-los. Suas manifestações são ambíguas; não se deixam decompor. Toda inquirição que se lhes faça não vai além de uma primeira pergunta, para a qual é dada uma única resposta. Com bastante frequência, tal resposta consiste meramente em sinais, os quais são reunidos em grandes sistemas pelos sacerdotes de muitos povos. Dos babilônios, a tradição transmitiu-nos milhares desses sinais. Chama a atenção o fato de cada um deles apresentar-se isolado dos demais. Não decorrem uns dos outros, nem possuem coerência interna alguma. Não são mais que listas de sinais; mesmo quem os conhece a todos só é capaz de inferir de cada um deles em particular um aspecto também particular do futuro.

Em contraposição a isso, o interrogatório restabelece o passado, e, aliás, em sua totalidade. Ele é dirigido contra o mais fraco. Antes, porém, de nos voltarmos aqui para sua interpretação, convém dedicarmos algumas palavras a um procedimento que hoje já se impôs na maioria dos países: trata-se do registro policial. Desenvolveu-se um grupo de perguntas que são as mesmas por toda parte e que, em essência, estão a serviço da segurança e da ordem. Quer-se saber quão perigoso alguém poderia tornar-se, e, tendo esse alguém se tornado de fato perigoso, poder capturá-lo de imediato. A primeira pergunta que se faz oficialmente a um homem diz respeito ao seu nome; a segunda, a seu domicílio, seu endereço. Têm-se aí, como já se sabe, as duas perguntas mais antigas que existem: aquelas que têm por objeto a identidade e o lugar. A profissão, a pergunta seguinte, revela o que o indivíduo faz; disso, e de sua idade, infere-se a influência que exerce e o prestígio que tem — ou seja, como se deve abordá-lo. O estado civil informa acerca de suas relações humanas mais íntimas, homens, mulheres ou crianças. A origem e a nacionalidade dão uma indicação de como ele possivelmente pensa — em épocas de nacionalismos fanáticos como a atual, dados mais importantes do que a crença religiosa, que perdeu importância. Com tudo isso — mais fotografia e assinatura —, estabeleceu-se já muita coisa a seu respeito.

As respostas a tais perguntas são aceitas. No momento em que são dadas, elas não estão sob suspeita. Somente no interrogatório voltado para um determinado fim é que a pergunta faz-se carregada de desconfiança. Constrói-se, então, um sistema de perguntas que se presta ao controle sobre as respostas; em si, estas poderiam agora ser, todas elas, falsas. O interrogado encontra-se numa relação de hostilidade para com o interrogador. Sendo muito mais fraco que este, ele somente escapa se o faz crer que não é um inimigo.

Nos interrogatórios judiciais, a inquirição produz uma onisciência a posteriori do inquiridor, o poderoso. Os caminhos que uma pessoa percorreu, os lugares em que esteve, as horas que viveu e que outrora lhe pareceram livres, sem ninguém a persegui-la, passam subitamente a sofrer perseguição. Todos os caminhos precisam ser novamente percorridos, todos os lugares revisitados, até que reste o mínimo possível daquela liberdade passada. Antes de proferir a sentença, o juiz deve ter conhecimento de uma grande quantidade de fatos. Seu poder, em especial, baseia-se na onisciência. A fim de adquiri-la, ele tem o direito de formular qualquer pergunta: “Onde você esteve? Quando esteve lá? O que você fez?”. Nas respostas que servem à construção de seu álibi, o interrogado contrapõe identidades e locais. “A essa hora eu estava em outro lugar. Não fui eu quem fez tal coisa.”

“Certa vez”, conta uma lenda vende, “por volta do meio-dia, uma jovem camponesa, deitada na relva nas proximidades de Dehsa, adormeceu. Seu noivo encontrava-se sentado a seu lado. Pensava numa maneira de livrar se da noiva. Veio, então, a mulher do meio-dia e pôs-se a lhe fazer perguntas. Por mais que respondesse, ela sempre fazia novas perguntas. Quando o sino deu uma hora, o coração dele parou. A mulher do meio-dia o havia interrogado até a morte.”

Extrato do livro Massa e Poder.

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