Filosofia, Política

A ordem: fuga e aguilhão | por Elias Canetti

por Elias Canetti | trad.: Sergio Tellaroli

“Ordem é ordem.” É possível que o caráter definitivo e indiscutível atrelado à ordem seja a causa da pouca reflexão a seu respeito. Aceita-se a ordem como algo que sempre existiu; ela parece tão natural quanto imprescindível. Desde pequeno, o homem acostuma-se às ordens; nelas consiste, em boa parte, aquilo a que se chama educação; e mesmo a totalidade da vida adulta encontra-se impregnada delas, seja na esfera do trabalho, da luta ou da fé. Pouquíssimas vezes o homem se perguntou o que, de fato, é a ordem: se ela é tão simples quanto parece; se, a despeito da prontidão e facilidade com a qual produz o efeito esperado, ela não deixaria outras marcas, mais profundas e talvez até hostis, naquele que obedece a ela.

A ordem é mais antiga que a fala, pois, se assim não fosse, os cães não a entenderiam. O adestramento de animais repousa justamente no fato de eles, sem conhecer uma língua, aprenderem a compreender o que se quer deles. A vontade do domador é-lhes transmitida por meio de ordens breves e bastante claras, as quais, em princípio, em nada diferem daquelas transmitidas ao homem. Eles obedecem ao domador, do mesmo modo como acatam as proibições. Está-se, portanto, inteiramente certo em buscar raízes bastante antigas para a ordem; no mínimo, está claro que, sob alguma forma, ela existe também fora da sociedade humana.

A mais antiga forma de atuação da ordem é a fuga. Ela é ditada ao animal por algo mais forte, por uma criatura exterior a ele. A fuga é espontânea somente em aparência; o perigo sempre possui uma forma, e, sem que a tenha vislumbrado, animal algum foge. A ordem de fuga é tão forte e direta quanto o olhar.

Da essência da fuga faz parte, desde o início, a diversidade de ambas as criaturas a confrontar-se. O mais forte apenas informa que quer devorar o outro, daí a seriedade mortal da fuga. A “ordem” obriga o animal mais fraco a pôr-se em movimento, sendo indiferente que este venha ou não a ser realmente perseguido. O que importa é tão somente a força da ameaça — do olhar, da voz, da figura aterradora.

Assim, a ordem tem sua origem na ordem de fuga; em sua forma mais primitiva, ela acontece entre dois animais de espécies distintas, um dos quais ameaça o outro. A grande diferença de poder entre ambos; o fato de que um está acostumado, poder-se-ia dizer, a servir de presa para o outro; o caráter inabalável dessa relação, que parece estabelecida desde sempre — a soma, enfim, de tudo isso confere ao acontecimento algo de absoluto e irrevogável. A fuga é a única e última instância à qual se pode apelar contra uma tal pena de morte. O rugido de um leão que sai à caça de uma presa é, na realidade, uma sentença de morte: trata-se do único som de sua língua, o qual todas as suas vítimas compreendem, sendo mesmo possível que tal ameaça seja a única coisa que elas, tão diferentes entre si, têm em comum. A mais antiga das ordens — uma ordem transmitida muito antes da existência dos homens — é a sentença de morte, obrigando a vítima a fugir. Haveremos de nos lembrar disso quando tratarmos aqui da ordem entre seres humanos. Por baixo de toda e qualquer ordem reluzem a sentença de morte e seu caráter medonho. Entre os homens, o sistema das ordens encontra-se organizado de tal forma que usualmente escapa-se da morte; mas o pavor diante desta, a ameaça, está sempre contido nelas; a manutenção e o efetivo cumprimento de sentenças de morte mantêm desperto o pavor diante de toda e qualquer ordem, e de ordens de uma maneira geral.

Esqueçamos, porém, por um momento, o que descobrimos acerca da origem da ordem e a examinemos imparcialmente, qual constituísse ela pela primeira vez objeto de contemplação.

A primeira coisa que chama a atenção na ordem é que ela desencadeia uma ação. Um dedo esticado, apontando para uma direção, pode surtir o efeito de uma ordem: todos os olhos que o avistam voltam-se para aquela mesma direção. A impressão que se tem é a de que a ação desencadeada, dotada de uma direção definida, é tudo quanto interessa à ordem. A direção determinada é particularmente importante: sua inversão é tão inadmissível quanto sua alteração.

É próprio da ordem que ela não admita nenhuma resistência. Não se pode discuti-la, explicá-la ou colocá-la em dúvida. Ela é concisa e clara, pois precisa ser entendida de imediato. Uma hesitação qualquer em sua recepção prejudica-lhe a força. A cada vez que sua repetição não se faz acompanhar de seu cumprimento, ela perde algo de sua vida; passado algum tempo, jazerá no chão, esgotada e impotente, e, sob tais circunstâncias, o melhor é não reanimá-la. Isso porque a ação que a ordem desencadeia está atrelada a seu momento. Pode-se fixá-lo para o futuro, mas tem-se de defini-lo, ou expressamente ou pela natureza clara da própria ordem.

A ação que é executada sob uma ordem é diferente de todas as demais ações. Ela é percebida como algo alheio; sua lembrança é como um roçar — algo que não é parte de nós e que sopra feito um vento estranho, seguindo rapidamente adiante. É possível que a pressa que uma ordem demanda para o seu cumprimento contribua para essa estranheza com que ela é lembrada; somente isso, porém, não basta como explicação. É importante para a ordem que ela provenha de fora. Por si só, ela não ocorreria a ninguém, mas faz parte daqueles componentes da vida que são impostos; ninguém a desenvolve em si próprio. Mesmo nas ocasiões em que homens solitários subitamente aparecem, munidos de um gigantesco amontoado de ordens e tentando fundar uma nova fé ou renovar outra antiga, a aparência de uma carga estranha e imposta é sempre rigorosamente mantida. Eles jamais falarão em seu próprio nome. O que exigem dos outros é o que lhes foi ordenado, e, por mais que mintam em muitas coisas, em um ponto serão sempre honestos: acreditam que foram enviados.

A ordem provém, pois, de algo estranho àquele que a recebe, mas algo que tem também de ser reconhecido como mais forte. Obedece-se porque uma luta não teria nenhuma perspectiva de êxito; o vencedor seria aquele que deu a ordem. O poder desta tem de ser inquestionável; se ele esmorece, precisa estar pronto a impor-se novamente pela força. De um modo geral, é reconhecido por um longo tempo. É espantosa a raridade com que novas decisões são exigidas: os efeitos das antigas são suficientes. Combates vitoriosos seguem vivendo através das ordens: a cada ordem seguida renova-se uma antiga vitória.

Visto de fora, o poder daquele que dá a ordem cresce incessantemente. A mais ínfima ordem contribui já para esse crescimento. O que ocorre não é apenas que ela é habitualmente útil àquele que a transmite; há também, na própria natureza da ordem, no reconhecimento que ela encontra, no espaço que ela percorre, em sua cortante pontualidade — em tudo isso, enfim, há algo que garante ao poder a segurança e o crescimento de sua esfera. O poder dispara ordens qual uma nuvem de flechas mágicas: as vítimas por elas atingidas oferecem-se elas próprias ao poderoso, convocadas, tocadas e guiadas pelas flechas.

Não obstante, a simplicidade e a unicidade da ordem, afigurando-se absolutas e inquestionáveis à primeira vista, revelam-se aparentes quando examinadas mais de perto. A ordem deixa-se decompor. E decompô-la é necessário, ou jamais se aprenderá a compreendê-la.

Toda ordem compõe-se de um impulso e de um aguilhão. O impulso obriga o receptor ao seu cumprimento, e, aliás, da forma como convém ao conteúdo da ordem. O aguilhão, por sua vez, permanece naquele que a executa. Quando o funcionamento das ordens é o normal, em conformidade com o que se espera delas, nada se vê desse aguilhão. Ele permanece oculto, e não se imagina que exista; antes do cumprimento da ordem ele talvez, quase imperceptivelmente, se manifeste numa ligeira resistência.

Mas esse aguilhão penetra fundo no ser humano que cumpriu uma ordem, e permanece imutavelmente cravado ali. Dentre todas as construções psíquicas, nada há que seja mais imutável. O conteúdo da ordem preserva-se no aguilhão; sua força, seu alcance, sua delimitação — tudo isso foi já definitivamente prefigurado no momento em que a ordem foi transmitida. Pode levar anos, décadas, até que aquela porção fincada e armazenada da ordem — sua imagem exata em pequena escala — ressurja. Mas é importante saber que ordem alguma jamais se perde; ela nunca se esgota realmente em seu cumprimento, mas permanece armazenada para sempre.

Os destinatários mais afetados pelas ordens são as crianças. Parece um milagre que não sucumbam ao peso delas, que sobrevivam aos atos de seus educadores. Que, mais tarde, e com crueldade em nada menor do que a destes últimos, elas façam o mesmo com seus próprios filhos, é algo tão natural quanto o comer e o falar. Sempre surpreendente permanece, contudo, a integridade com que as ordens se preservam desde a mais tenra infância: quando a geração seguinte fornece suas vítimas, elas estão já a postos. Não se alteram um milímetro sequer; poderiam ter sido transmitidas uma hora antes, mas, na realidade, o foram vinte, trinta anos atrás, ou até mais. A força com que as ordens chegam às crianças, a tenacidade e fidelidade com que ela as preserva não constituem um mérito pessoal. Nem a inteligência nem dom especial algum têm algo a ver com isso. Criança alguma, nem mesmo a mais comum dentre elas, esquece ou perdoa qualquer das ordens com as quais a destrataram.

Mais fácil é que se modifique a aparência de um homem, aquilo em função do qual os outros o reconhecem — a postura de sua cabeça, a expressão de sua boca, seu jeito de olhar —, do que a forma da ordem que, na qualidade de um aguilhão, nele permaneceu armazenada e inalterada. E, igualmente inalterada, essa ordem é expelida, bastando que se apresente a oportunidade para tanto; a nova situação, na qual ela se desprende, há de ser idêntica à antiga, na qual ela foi recebida. A reprodução invertida de tais situações antigas constitui uma das grandes fontes de energia psíquica na vida do homem. A “espora”, por assim dizer, que faz com que as pessoas busquem atingir uma coisa ou outra é a profunda necessidade de livrar-se das ordens um dia recebidas.

Somente a ordem cumprida crava seu aguilhão naquele que a ela obedeceu. Quem se esquiva das ordens não precisa armazená-las. “Livre” é apenas o homem que soube esquivar-se das ordens, e não aquele que delas se liberta somente a posteriori. Aquele, porém, que necessita de mais tempo para essa libertação, ou que jamais logra atingi-la, este é indubitavelmente o menos livre de todos.

Nenhuma pessoa normal entende que seguir seus próprios instintos constitua uma falta de liberdade. Mesmo quando estes se fazem vigorosos ao extremo, de modo que sua satisfação conduz às mais perigosas complicações, a pessoa em questão terá a sensação de estar agindo por conta própria. Em seu íntimo, no entanto, todos se voltam contra a ordem que lhes foi transmitida de fora e que têm de cumprir: quando isso ocorre, falam em pressão, e reservam-se o direito de inverter a situação e rebelar-se.

A DOMESTICAÇÃO DA ORDEM

A ordem de fuga, contendo uma ameaça de morte, pressupõe uma grande diferença de poder entre os envolvidos. Aquele que obriga o outro a fugir poderia matá-lo. Essa situação básica encontrada na natureza resulta do fato de que muitas espécies de animais alimentam-se de outros animais. Mas são outras as espécies de que vivem. Assim, a maioria dos animais sente-se ameaçada por outras espécies estranhas e inimigas, destas recebendo a ordem de fuga.

Aquilo, porém, a que chamamos ordem na vida cotidiana verifica-se entre homens: o senhor dá ordens a seu escravo; a mãe, a seus filhos. Em seu desenvolvimento, essa ordem que conhecemos distanciou-se bastante de sua origem biológica: a ordem de fuga. Ela se domesticou. É aplicada nas relações sociais em geral, mas também nos relacionamentos íntimos da convivência humana; o papel que ela desempenha no Estado não é menor do que aquele que desempenha na família. Seu aspecto é bastante diverso daquele aqui descrito como ordem de fuga. O senhor chama seu escravo e ele vem, embora saiba que vai receber uma ordem. A mãe chama o filho, e nem sempre ele sai correndo. Embora ela o inunde de ordens de toda sorte, ele, de um modo geral, conserva a confiança que tem na mãe. Permanece junto dela ou vai correndo ao seu encontro. O mesmo acontece com o cão: ele permanece ao lado de seu dono, atendendo de imediato quando este assobia.

Como se deu essa domesticação da ordem? O que tornou inofensiva a ameaça de morte? A explicação para esse desenvolvimento reside no fato de, em cada um desses casos, se praticar uma espécie de suborno. O senhor dá de comer a seu escravo ou a seu cão; a mãe alimenta seu filho. A criatura que se encontra numa situação de submissão acostuma-se a receber seu alimento de uma só mão. Tanto o escravo quanto o cão recebem seu alimento tão somente das mãos de seu senhor; ninguém mais tem a obrigação de lhes dar qualquer outro alimento — e, na verdade, a ninguém mais é permitido fazê-lo. A relação de posse consiste em parte em que todo alimento lhes chegue unicamente pela mão de seu senhor. A criança, por sua vez, não é capaz de alimentar-se a si própria; desde o princípio, ela depende do peito da mãe.

Criou-se, assim, um estreito vínculo entre a concessão do alimento e a ordem. Tal vínculo se verifica muito nitidamente na prática do amestramento de animais. Quando o animal faz o que deve fazer, ele recebe seu petisco da mão do amestrador. A domesticação da ordem faz desta última uma promessa de alimentação. Em vez de se ameaçar com a morte e obrigar à fuga, promete-se o que, antes de mais nada, toda criatura deseja, e cumpre-se rigorosamente essa promessa. Em vez de servir de alimento a seu senhor; em vez de ser devorada, a criatura que recebe uma ordem desse tipo obtém ela própria algo para comer.

Essa desnaturalização da ordem biológica de fuga educa homens e animais para uma espécie de prisão voluntária, existente em todos os níveis e gradações possíveis. Mas não altera completamente a essência da ordem. A ameaça é sempre preservada. Ela é abrandada, mas há sanções expressas para a não obediência, e tais sanções podem ser bastante rigorosas. A mais rigorosa delas é a sanção original: a morte.

O CONTRAGOLPE E O MEDO DA ORDEM

Uma ordem é como uma flecha: é disparada e atinge seu alvo. Antes de atirá-la, o mandante faz mira. Com sua ordem, ele pretende atingir uma pessoa específica; a flecha tem sempre uma direção escolhida. E permanece cravada naquele que atingiu; este tem de arrancá-la e passá-la adiante, a fim de libertar-se de sua ameaça. Na realidade, esse processo de transmissão da ordem adiante desenrola-se como se seu receptor a arrancasse de si próprio e, a seguir, distendendo seu próprio arco, arremessasse a mesma flecha adiante. O ferimento em seu corpo se fecha, mas deixa para trás uma cicatriz. Toda cicatriz possui uma história: ela é a marca deixada por uma determinada flecha.

O mandante, que disparou a flecha, sente, porém, um leve contragolpe. O verdadeiro contragolpe — o contragolpe psíquico, poder-se-ia dizer —, ele sentirá apenas quando vir que a flecha atingiu seu alvo. Termina aqui a analogia com a flecha física. Tanto mais importante faz-se, contudo, examinar as marcas que o disparo bem-sucedido deixa no feliz atirador.

A satisfação pelas ordens cumpridas — isto é, por aquelas transmitidas com sucesso — dissimula muito do que se passa no atirador. A sensação de algo como um contragolpe está sempre presente nele; o que ele fez fica estampado não apenas na vítima, mas também nele próprio. Uma grande quantidade de tais contragolpes acumula-se, transformando-se em medo. Trata-se de um tipo especial de medo, resultante da repetição frequente de ordens. Por essa razão, chamo-o o medo da ordem. Naquele que apenas transmite as ordens adiante, esse medo é reduzido; mas faz-se maior quanto mais próximo o mandante estiver da verdadeira fonte das ordens.

Não é difícil compreender como ocorre esse medo da ordem. Um tiro que mata um ser isolado não resulta em perigo algum. O morto não pode mais fazer nenhum mal àquele que o matou. Uma ordem que, embora ameaçando com a morte, acaba por não matar, deixa para trás a lembrança da ameaça. Algumas ameaças erram o alvo; outras, porém, o atingem, e são estas que jamais são esquecidas. Aquele que fugiu da ameaça ou cedeu a ela, este irá certamente vingar-se. Chegado o momento, ele sempre se vinga, e aquele de quem a ameaça partiu tem consciência disso: ele tem de fazer de tudo para tornar impossível uma tal inversão.

A sensação do perigo — a de que todos aqueles aos quais se deu ordens, todos os ameaçados de morte, estão vivos e se lembram —, um perigo ao qual se estaria exposto se todos os ameaçados de morte se juntassem contra aquele que os ameaçou; esse sentimento profundo, mas que permanece indefinido, porque não se sabe quando os ameaçados passarão da lembrança à ação; esse sentimento torturante, inexaurível e ilimitado do perigo é, pois, o que eu chamo de medo da ordem.

Ele é maior naquele que se encontra no topo. Na fonte da ordem, naquele que extrai de si as ordens que dá e que não as recebe de ninguém; naquele, pois, que as gera ele próprio, por assim dizer, aí a concentração do medo da ordem é a maior que há. Nos detentores de poder, esse medo pode permanecer longamente reprimido e oculto. No curso da vida de um soberano, ele pode intensificar-se, manifestando-se, então, sob a forma do furor dos césares.

Extrato do livro Massa e Poder.

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