Experimentação, História, Política

Poder e Velocidade | por Elias Canetti

por Elias Canetti | trad.: Sergio Tellaroli

Toda velocidade, na medida em que se vincula à esfera do poder, traduz-se numa velocidade de perseguição ou de agarramento. Para ambas, o homem teve por modelo os animais. A perseguição, ele a aprendeu com os animais de rapina, especialmente o lobo. O agarramento pelo bote súbito foi-lhe mostrado pelos felinos, dos quais os mestres mais invejados e admirados foram o leão, o leopardo e o tigre. As aves de rapina juntam ambas as coisas, o perseguir e o agarrar. Na ave de rapina que se pode ver voando sozinha para um ataque a grande distância, o fenômeno manifesta-se em sua totalidade. Ela deu ao homem a flecha — durante muito tempo, a maior velocidade de que ele dispôs: com suas flechas, o homem voava rumo a sua presa.

Assim, esses animais são também, desde muito tempo, símbolos do poder, representando ora os deuses ora os ancestrais do detentor de poder. Gêngis Khan teve por antepassado um lobo. O falcão Horus é o deus do faraó egípcio. Nos reinos africanos, o leão e o leopardo são os animais sagrados do clã do rei. Das chamas nas quais ardia o corpo do imperador romano, sua alma voava para o céu sob a forma de uma águia.

O que há, porém, de mais rápido continua sendo o que sempre foi: o raio. O medo supersticioso do raio, do qual o homem não tem como se proteger, é algo bastante difundido. Os mongóis — conta o monge franciscano Rubruk, que os visitou como enviado de são Luís — temiam o trovão e o raio mais do que qualquer outra coisa. À sua presença, eles tocam os estranhos de suas iurtas, envolvem-se em feltro preto e ali permanecem escondidos até que tudo tenha passado. — Evitam comer a carne de um animal atingido por um raio, relata o historiador persa Rachid, que esteve a seu serviço, e não ousam nem mesmo aproximar-se dele. Todas as proibições possíveis que vigoram entre os mongóis têm por objetivo obter as graças do raio. Deve-se evitar tudo quanto possa atraí-lo. O raio é, frequentemente, a arma principal do deus mais poderoso.

Seu súbito brilhar na escuridão possui o caráter de uma revelação. O raio persegue e ilumina. A partir de seu comportamento, procura-se tirar conclusões acerca da vontade dos deuses. Sob que forma ele brilha e em que parte do céu? De onde vem? Para onde vai? Entre os etruscos, tal decifração é tarefa de uma classe particular de sacerdotes, classe esta que os romanos adotaram na figura dos “fulguratores”.

“O poder do soberano”, afirma um antigo texto chinês, “assemelha-se ao do raio, ainda que lhe seja inferior em pujança.” É espantosa a frequência com que os poderosos são atingidos por raios. As histórias a respeito podem nem sempre ser verdadeiras, mas o estabelecimento dessa vinculação é já, em si, significativo. Relatos desse tipo são numerosos entre os romanos e os mongóis. Ambos esse povos acreditam num deus celestial supremo, e ambos apresentam um senso de poder bastante desenvolvido. O raio é aí entendido como uma ordem sobrenatural. Quando ele atinge alguém é porque deve atingi-lo. Se atinge um poderoso, enviou-o alguém mais poderoso ainda. Cumpre, pois, a função do mais veloz e repentino dos castigos, e do mais visível também.

Imitado pelos homens, o raio foi transformado numa espécie de arma: a arma de fogo. O clarão e o estrondo do tiro, o fuzil e particularmente os canhões sempre provocaram o medo dos povos que não os possuíam: estes os percebiam como o raio.

Ainda antes, porém, os esforços do homem caminhavam já na direção de torná-lo um animal mais veloz. A domesticação do cavalo e o desenvolvimento dos exércitos de cavaleiros, em sua forma mais completa, conduziram às grandes invasões históricas provenientes do Oriente. Todos os relatos da época acerca dos mongóis destacam quão velozes eles eram. Sua aparição era sempre inesperada: eles surgiam tão repentinamente quanto desapareciam, e reapareciam de maneira ainda mais abrupta. Sabiam converter em ataque até mesmo a pressa da fuga: mal se começava a crer que haviam fugido, estava-se já novamente cercado por eles.

Desde sempre, a velocidade física, como característica do poder, intensificou-se de todas as formas. Desnecessário faz-se abordar seus efeitos sobre nossa era tecnológica.

À esfera da captura pertence também uma outra espécie bastante diversa de velocidade — a do desmascaramento. Está-se diante de um ser inofensivo ou submisso; arrancasse-lhe a máscara e, por trás dela, encontra-se um inimigo. A fim de ser eficaz, o desmascaramento deve ocorrer subitamente. A essa espécie de velocidade pode-se caracterizar como dramática. A perseguição limita-se aí a um espaço bem reduzido; ela se concentra. A troca de máscaras como instrumento de dissimulação é antiquíssima; seu negativo é o desmascaramento. Passando-se de uma máscara a outra, alcançam-se alterações decisivas das relações de poder. A dissimulação inimiga é combatida com a própria. Um soberano convida notáveis civis ou militares para um banquete. De repente, quando menos esperavam hostilidade, são todos mortos. A mudança de uma postura para outra corresponde exatamente a uma troca de máscaras. A velocidade do acontecimento é intensificada ao máximo; dela, e apenas dela, depende o sucesso da empreitada. O detentor de poder, consciente de suas próprias e constantes dissimulações, só pode esperar dos outros o mesmo comportamento. A velocidade com que se antecipa a eles parece-lhe lícita e imprescindível. Pouco o comoverá apanhar por equívoco um inocente: na complexidade das máscaras, o engano é possível. Mas se irritará profundamente se, pela falta de velocidade, um inimigo lhe escapar.

Extrato do livro Massa e Poder.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s