Experimentação, Filosofia, Política

A coerência do estoicismo: uma alface por um óbolo

Por Maël Goarzin | Trad.: Rodrigo Lucheta

Na Antiguidade, a coisa era simples: o filósofo vive como filósofo. A prova de sua essência? Sua existência. Vê-se, por seus hábitos alimentares, pelo corte rente de seus cabelos ou por seus pelos hirsutos, por seu bastão, sua tigela, sua veste de linho branco ou seus andrajos, que se está diante de um pitagórico, um estoico ou um cínico. Porque, nessa época, o termo filósofo designa o indivíduo que põe em prática uma teoria que lhe permite alcançar a sabedoria – um estado de beatitude entre ele e ele, entre ele e os outros, entre ele e o mundo.

Michel Onfray – citado pelo tradutor

Um dos três princípios fundamentais do estoicismo é a coerência da Natureza consigo mesma – da mesma maneira que um ser vivo vive, desde os primeiros instantes de sua vida, em coerência consigo mesmo, coerência que se manifesta, por exemplo, pelo instinto de conservação – assim o Universo em sua totalidade é coerente consigo mesmo. Com efeito, para os estoicos, o Universo obedece a um certo número de leis racionais que excluem de fato toda contradição interna. Ora, há uma única e mesma Razão em nós e no Universo, donde a necessidade, para os estoicos, de viver conforme a natureza. O bem do universo e do indivíduo reside então numa vida una e harmoniosa que segue a ordem natural, quer dizer, a ordem da Razão Universal.

O que podemos tirar desse princípio estoico? O que quer dizer, concretamente, viver de maneira harmoniosa? No plano individual, isso significa que é preciso viver segundo uma regra de vida coerente, e que aqueles que vivem na incoerência são infelizes. É esse o ponto que eu gostaria de desenvolver agora, relembrando a importância de uma vida coerente.

No capítulo 25 do Manual de Epicteto, Arriano, discípulo graças ao qual o pensamento do filósofo estoico nos chegou, nos lembra que o filósofo não pode pretender obter ao mesmo tempo as vantagens da filosofia e as vantagens da vida mundana. Para obter vantagens, é preciso pagar o preço. Esse preço é uma escolha de vida que tem por consequência certas renúncias:

“Serias injusto e insaciável se, não pagando o preço pelo qual aquelas coisas são vendidas, desejasses obtê-las gratuitamente. Por quanto é vendida uma alface? Que custe um óbolo! Então quem dispensa o óbolo toma a alface, e tu, que não o dispensaste, não a tomas. Não penses ter menos do que quem a tomou, pois do mesmo modo que ele possui a alface, tu possuis o óbolo que não entregaste”

Manual de Epicteto, Capítulo 25, tradução de Aldo Dinucci.

O raciocínio proposto aqui nos lembra de maneira bastante lógica a diferença fundamental entre aquele que possui uma alface e aquele que não a possui: o primeiro pagou por ela, contrariamente ao segundo. O segundo, inversamente, possui o óbolo que o primeiro dispensou ao comprar sua alface. Nada de extraordinário nesta observação, dirão vocês, e com razão: Epicteto não faz aqui mais do que afirmar alguma coisa de completamente lógica e coerente. Mas o que interessa ao estoico e que vai igualmente nos interessar é a aplicação desse raciocínio à escolha de vida que cada um é chamado a fazer. A partir de um raciocínio lógico aceito por todos, o Manual de Epicteto nos propõe uma conclusão que toca o coração de nossa existência.

Essa escolha que nos é oferecida, e que depende de nós, é aquela que tem, por um lado, uma vida filosófica e, por outro lado, uma vida voltada para as coisas exteriores. Tanto num caso quanto no outro, há um preço a pagar para se obter as vantagens ligadas a cada escolha de vida. Da mesma maneira que o filósofo deve renunciar a certos desejos que não dependem dele e que assim o fariam infeliz; aquele que procura a todo custo a posse de bens materiais ou de honras deve pagar o preço forte. Neste novo trecho do capítulo 25, o Manual nos lembra o preço a ser pago por aquele que deseja ser convidado por alguém:

“Não foste convidado para o banquete de alguém, pois não deste ao anfitrião a quantia pela qual ele vende a refeição. Ele a vende por elogios, por obséquios. Se te é vantajoso, paga o preço pelo qual ela é vendida. Mas se queres não pagar por ela e obtê-la, és insaciável e estúpido. Então nada tens no lugar do repasto? Com certeza! Não terás que elogiar quem não queres, nem aturar os que estão diante da porta dele.”

Manual de Epicteto, Capítulo 25, tradução de Aldo Dinucci

Para Epicteto, não podemos ao mesmo tempo estar inquietos por bens exteriores, fortuna, fama (simbolizados aqui pelo convite a um banquete), e mantermo-nos numa escolha de vida conforme a natureza, ou seja, uma escolha de vida filosófica. E mesmo que o filósofo se passe por tolo aos olhos dos não-filósofos quando ele renuncia a certos bens materiais que podem parecer bem agradáveis, não está aí sua verdadeira tolice. A verdadeira tolice é quando o filósofo deseja bens exteriores pelos quais ele não pagou. Nada tem para lamentar, entretanto, o filósofo que, para atingir a ataraxia e experimentar as alegrias da tranquilidade da alma, precisou renunciar aos desejos vãos de riqueza e fama! Não se pode ter, ao mesmo tempo, as vantagens do filósofo e aquelas do não-filósofo. Não podemos nos apropriar da alface guardando o óbolo! Entre a riqueza exterior e a riqueza interior, é preciso escolher, decidir qual é a realmente vantajosa e renunciar àquela que, para os estoicos, não o é.

Se escolhi essa passagem do Manual de Epicteto, não foi para incitá-los a sopesar as vantagens de uma vida mundana e de uma vida filosófica, mas para colocar em evidência a coerência à qual o texto apela, uma vez efetuada a escolha de vida. Certamente, a escolha de vida preconizada pelos estoicos é a escolha de vida filosófica, e escolher voltar-se para os bens materiais é para eles uma estupidez. Mas aquele que, tendo escolhido a vida filosófica, deseja todavia os bens materiais (que são a recompensa de um outro gênero de vida), este não é menos “tolo e insaciável”. Há um preço a pagar por cada coisa. Cada escolha requer, de maneira mais ou menos visível, um sacrifício. Não se pode ter tudo gratuitamente. Mais ainda, não podemos ter nada gratuitamente, como o lembra o capítulo 12:

“Derrama-se um pouco de azeite? É roubado um pouco de vinho? Diz: “Por esse preço é vendida a ausência de sofrimento”; “Esse é o preço da tranquilidade”.

Manual de Epicteto, Capítulo 12, tradução de Aldo Dinucci

Se queremos verdadeiramente o que consideramos ser um privilégio, é preciso pagar-lhe o preço: ou então renunciar à sua escolha de vida e se submeter aos constrangimentos exigidos pela obtenção das vantagens materiais, ou então renunciar a estas e restar livre. Mas qualquer que seja a escolha de vida efetuada, não podemos reclamar uma alface pela qual não pagamos…

A boa escolha de vida não basta, como vimos, para garantir a felicidade. Pelo contrário, será bastante infeliz aquele que, por falta de coerência consigo mesmo, desejar o que sua própria escolha de vida não pode lhe conceder. A coerência entre nossa escolha de vida e nossos desejos: eis aí o que tornará o filósofo feliz!

O que podem nos ensinar essas reflexões estoicas? Em primeiro lugar, parece-me que encontramos nas reflexões acima uma resposta à tendência atual de querer tudo, imediatamente, sem que nada nos seja pedido em troca. E a multiplicação das amostras grátis, das degustações gratuitas e dos presentinhos que a publicidade nos oferece não podem senão nos confirmar nessa tendência. Há nos estoicos ao contrário uma noção de sacrifício tornado necessário para se obter os verdadeiros privilégios, os verdadeiros bens. Ao entusiasmo atual com tudo o que é dado gratuitamente opõe-se a sabedoria estoica que reestabelece um preço ao que importa verdadeiramente. Como acreditar que podemos nos oferecer gratuitamente a paz da alma? A expressão “vender felicidade” não estaria desse modo tão distante da realidade, uma vez que ela restitui um preço à felicidade, um valor que a gratuidade lhe retira habitualmente. Mas o preço da felicidade seria aquele desses “vendedores de sonhos”? À felicidade material proposta pela publicidade se opõe o realismo estoico, que nos lembra o justo preço a pagar pelo que importa verdadeiramente. Esse preço é uma coerência interna, uma certa adequação entre nossa escolha de vida e nossos desejos. Somos coerentes com nós mesmos? Nossos desejos não vão às vezes na direção oposta do que queríamos verdadeiramente? Nossas escolhas cotidianas estão em coerência com o que queremos fazer de nossas vidas? Essa coerência que os estoicos procuram não é sempre evidente, pois o homem é frequentemente dirigido por suas contradições. Mas se a felicidade está a esse preço, saberemos nós pagar o óbolo?

Maël Goarzin

* Texto publicado originalmente em francês no site iPhilo.

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