Por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo

1. Indagamos hoje não qual a natureza do poder, mas antes, assim como Foucault, como ele se exerce, em que lugar se forma e por que ele está em toda parte.

Comecemos por um pequeníssimo exemplo, o titeriteiro. Ele tem um certo poder de agir sobre as marionetes e que se exerce sobre as crianças. Acerca disso, Kleist escreveu um texto admirável[i]. Poderíamos dizer que existem três linhas. O titeriteiro não age segundo movimentos que já representariam as figuras a serem obtidas. Ele faz com que sua marionete se mova segundo uma linha vertical onde se desloca o centro de gravidade, ou, antes, de leveza da marionete. É uma linha perfeitamente abstrata, não figurativa, e não mais simbólica que figurativa. Ela é mutante, porque comporta tantas singularidades quanto posições de parada, que, no entanto, não recortam a linha. Nunca há entrelaçamento binário, nem relações biunívocas entre essa linha vertical abstrata, porém tanto mais real, e os movimentos concretos da marionete.

Em segundo lugar, existem movimentos, de um tipo totalmente outro: curvos, sensíveis, representativos, um braço que se arredonda, uma cabeça que pende. Essa linha não é mais marcada por singularidades, mas antes por segmentos muito suaves – um gesto, depois outro gesto. Enfim, terceira linha, de uma segmentaridade muito mais dura, que corresponde aos momentos da história, representados pelo jogo das marionetes. Os entrelaçamentos binários e as relações biunívocas, de que nos falam os estruturalistas, formam-se talvez nas linhas segmentarizáveis, e entre elas duas. Porém, o poder do titeriteiro se constitui antes no ponto de conversão entre a linha abstrata não figurativa, de um lado, e as duas linhas de segmentaridade, de outro.

Um banqueiro, o poder bancário no capitalismo, é um pouco a mesma coisa. É bem conhecido que existem duas formas do dinheiro, mas elas às vezes são mal situadas. Existe o dinheiro como estrutura de financiamento, ou até mesmo criação e destruição monetárias: quantidade não realizável, linha abstrata ou mutante, com suas singularidades. E depois, uma segunda linha completamente diferente, concreta, feita de curvas sensíveis: o dinheiro como meio de pagamento, segmentarizável, afetado pelos salários, pelo lucro, pelos juros, etc. E esse dinheiro como meio de pagamento vai implicar, por sua vez, uma terceira linha segmentarizada, o conjunto dos bens produzidos numa dada época, de equipamento e de consumo (estudos de Bernard Schmitt, Suzanne de Brunhoff[ii], etc.). O poder bancário está no nível de conversão entre a linha abstrata, estrutura de financiamento, e as linhas concretas, meios de pagamento-bens produzidos. A conversão se opera no nível dos bancos centrais, do estalão-ouro, do papel atual do dólar etc.

Mais um exemplo. Clausewitz fala de uma espécie de fluxo que ele chama de guerra absoluta, que nunca teria existido no estado puro, mas que ainda assim atravessaria a história, indecomponível, singular, mutante, abstrato[iii]. Talvez esse fluxo de guerra tenha de fato existido, como a invenção própria dos nômades, máquina guerreira independente de Estados. Com efeito, é espantoso que os grandes Estados, os grandes aparelhos despóticos pareçam não ter instaurado seu poder sobre uma máquina de guerra, mas antes sobre a burocracia e a polícia. A máquina de guerra é sempre algo que vem de fora e de origem nômade: grande linha abstrata de mutações. Porém, por razões fáceis de compreender, os Estados deverão se apropriar dessa máquina. Farão exércitos, empreenderão guerras, guerras submetidas à sua política. A guerra deixa de ser absoluta (linha abstrata), para devir algo que não é mais divertido, seja guerra limitada, seja guerra total etc. (segunda linha, dessa vez segmentarizável). E esses guerras tomam tal ou qual forma segundo as exigências políticas e a natureza dos Estados que as empreendem e impõem a elas seus objetivos e seus limites (terceira linha segmentarizável). Ainda aí, o que se chama poder da guerra está na conversão dessas linhas.

Seria preciso multiplicar os exemplos. As linhas não têm a mesma marcha, nem as mesmas velocidades, nem as mesmas territorialidades, nem as mesmas desterritorializações. Um dos principais objetivos da esquizoanálise seria buscar em cada um de nós quais linhas nos atravessam, que são as do próprio desejo: linhas não figurativas abstratas, de fuga, ou de desterritorialização; linhas de segmentaridades, brandas ou duras, nas quais cada um se atravanca ou se move no horizonte de sua linha abstrata; e como são feitas as conversões de uma linha às outras.

2. Guattari está em vias de traçar um quadro de regimes semióticos; eu gostaria de dar um exemplo que pode ser qualificado tanto como patológico quanto histórico. Um caso importante de dois regimes de signos apresentou-se na psiquiatria no fim do século XIX, mas que também transborda a psiquiatria para concernir a toda semiótica. Concebe-se um primeiro regime de signos, que funciona de maneira muito complexa, porém fácil de compreender: um signo remete a outros signos, estes a outros, ao infinito (irradiação, circularidade sempre em extensão). Alguém sai na rua, descobre que o porteiro olha para ele com um olhar maldoso, escorrega, uma criancinha lhe mostra a língua etc. Finalmente, é a mesma coisa dizer que cada signo é duplamente articulado, que um signo remete sempre a um outro signo, indefinidamente, e que o próprio conjunto supostamente infinito dos signos remete a um significante maior. Este é o regime paranoico do signo, mas também se poderia chamá-lo despótico ou imperial.

E então há um regime completamente diferente. Dessa vez, um signo ou um pequeno grupo, um pequeno pacote de signos, põe-se em fila, começa a seguir uma linha. Não há mais, de modo algum, formação de uma vasta formação circular em extensão perpétua, mas de uma rede linear. Em vez de signos que se rementem uns aos outros, há um signo que remete a um sujeito: o delírio se constrói de um jeito localizado, é mais um delírio de ação do que de ideia, uma linha deve ser levada até o fim antes que uma outra linha seja encetada (o delírio processualista, aquilo que os alemães chamavam de delírio de querulência). Um psiquiatra como Clérambault distinguia, nesse sentido, dois grandes grupos de delírio: paranoico e passional[iv].

Pode ser que uma das grandes razões da crise da psiquiatria tenha sido tal cruzamento entre estes regimes de signos completamente diferentes. É sempre possível confinar o homem do delírio paranoico, ele apresenta todos os signos da loucura, mas, por outro lado, ele não é de modo algum louco, seu raciocínio é impecável. O homem do desejo passional não apresenta signo algum de loucura, exceto sobre este ou aquele ponto dificilmente detectável, e, contudo, ele é louco, sua loucura se manifesta em bruscas passagens ao ato (por exemplo, o assassinato). Ainda nisto, Foucault definiu profundamente essa diferença e essa complementaridade entre os dois casos. Eu os cito para dar uma ideia da pluralidade das semióticas, ou seja, dos conjuntos onde os signos não têm o mesmo regime, nem o mesmo funcionamento.

3. Pouco importa que um regime de signos receba um nome clínico ou histórico. Não que seja a mesma coisa, mas os regimes de signos atravessam “estratificações” muito diferentes. Eu falava há pouco do regime paranoico e do regime passional em termos clínicos. Falemos agora das formações sociais. Não se trata de dizer que os imperadores são paranoicos, tampouco o inverso. Porém, nas grandes formações imperiais, arcaicas, ou mesmo antigas, há o grande significante como significante do déspota; e abaixo, a infinita rede de signos que se rementem uns aos outros. Mas é preciso também toda sorte de categorias de gente especializada que tem por tarefa propagar esses signos, dizer o que eles querem dizer, interpretá-los, fixar o seu significado: padres, burocratas, mensageiros etc. É o par da significância e da interpretação. Enfim, há ainda outra coisa: é preciso ainda que haja sujeitos que recebam a mensagem, escutem a interpretação, obedeçam à corveia – como diz Kafka em A Muralha da China e Uma mensagem imperial[v]. E a cada vez seria dito que, tendo chegado ao seu limite, o significado novamente dá a significância, sempre permitindo que o círculo se amplie.

Uma formação social qualquer tem sempre o ar de estar dando certo. Não há razão para que não dê certo, para que isso não funcione. E, no entanto, há sempre um lado pelo qual isso foge e se desfaz. Nunca se sabe se o mensageiro vai chegar. E, quanto mais se aproxima da periferia do sistema, mais os sujeitos se encontram tomados numa espécie de tentação: ou submeter-se aos significantes, obedecer às ordens do burocrata e seguir a interpretação do grande padre – ou então ser arrastado alhures, para além, vetor louco, tangente de desterritorialização –, seguir uma linha de fuga, pôr-se a nomadizar, emitir o que Guattari há pouco chamava de partículas a-significantes. Eis um exemplo tardio como o do Império Romano: os germânicos foram certamente tomados na dupla tentação de afundar-se no império, integrar-se nele – mas foram também pressionados pelos hunos, que formavam uma linha de fuga nômade, um novo gênero de máquina de guerra, marginal e não integrável.

Estamos considerando um regime de signos totalmente outro, o capitalismo. Ele também parece funcionar muito bem, não há razão para que não dê certo. Ele corresponderia antes àquilo que há pouco chamávamos de delírio passional. Contrariamente ao que se passa nas formações imperiais paranoicas, pequenos pacotes de signos, grandes pacotes de signos começam a seguir linhas, e, sobre tais linhas, acontecem coisas de toda sorte: movimento do capital-dinheiro; elevação dos sujeitos em agentes do capital e do trabalho; distribuição desigual de bens e meios de pagamento a esses agentes. Explica-se para o sujeito que quanto mais ele obedecer, mais irá comandar, pois é somente a si próprio que ele obedece. Perpetuamente haverá assentamento do sujeito de comando sobre o sujeito de obediência, em nome da lei do capital. E esse sistema de signos é, sem dúvida, muito diferente do sistema imperial: ele até mesmo tem a vantagem de tapar suas brechas, sempre reconduzindo para o centro o sujeito periférico e bloqueando o nomadismo. Por exemplo, na história da filosofia, é conhecida a célebre revolução que fez com que o discurso do estágio imperial, onde o signo remetia perpetuamente ao signo, passasse ao estágio da subjetividade como delírio propriamente passional, que sempre assentava o sujeito sobre o sujeito. E, no entanto, aí também, quanto melhor isso funciona, mais foge por todo canto. As linhas de subjetivação do capital-dinheiro não param de emitir ramificações, oblíquas, transversais, subjetividades marginais, linhas de desterritorialização que ameaçam os seus planos. Um nomadismo interno, um novo tipo de fluxos desterritorializados, de partículas a-significantes vêm comprometer tal detalhe, e o próprio conjunto. Caso Watergate, inflação mundial.

Gilles Deleuze.


Conferência pronunciada em maio de 1974, num colóquio ocorrido em Milão, sob a direção de Armando Verdiglione. A intervenção de Deleuze sucede imediatamente à de Guattari, que tinha por título “Semiologias significantes e semiologias assignificantes”. A comunicação de Deleuze foi publicada em Psychanalyse et sémiotique, organizada por Armando Verdiglione: Paris, 10-18, 1975, pp. 165-70. Edição brasileira: DELEUZE, Gilles. Dois regimes de loucos: textos e entrevistas (1975 – 1995). Tradução de Guilherme Ivo. São Paulo: 34, 2016.

Notas:

[i] “Sur le théatre de marionetes”, in Anecdotes et petis écrits, Paris, Payot, 1981, pp. 101-9.

[ii] Bernard Schmitt, Monnaie, salaires et profis, Paris, PUF, 1966. Suzanne Brunhoff, L’Offre de monnaie (critique d’un concept), Paris, Maspero, 1971, e La Monnaie chez Marx, Paris, Éd. Sociales, 1973.

[iii] De la guerre, livro VIII, capítulo II, Paris, Éditions de Minuit, 1955.

[iv] In Oeuvres psychiatriques, reed,. Paris, PUF, 1942 <reed., Paris, Frénésie, 1987>, 2 vols.

[v] In La Muraille de Chine, Paris, Gallimard, 1950, col. “Du monde entire”, pp. 110-5.

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