Filosofia, Política

A ordem: fuga e aguilhão | por Elias Canetti

"Toda ordem compõe-se de um impulso e de um aguilhão. O impulso obriga o receptor ao seu cumprimento, e, aliás, da forma como convém ao conteúdo da ordem. O aguilhão, por sua vez, permanece naquele que a executa. Quando o funcionamento das ordens é o normal, em conformidade com o que se espera delas, nada se vê desse aguilhão. Ele permanece oculto, e não se imagina que exista; antes do cumprimento da ordem ele talvez, quase imperceptivelmente, se manifeste numa ligeira resistência. Mas esse aguilhão penetra fundo no ser humano que cumpriu uma ordem, e permanece imutavelmente cravado ali. Dentre todas as construções psíquicas, nada há que seja mais imutável. O conteúdo da ordem preserva-se no aguilhão; sua força, seu alcance, sua delimitação — tudo isso foi já definitivamente prefigurado no momento em que a ordem foi transmitida. Pode levar anos, décadas, até que aquela porção fincada e armazenada da ordem — sua imagem exata em pequena escala — ressurja. Mas é importante saber que ordem alguma jamais se perde; ela nunca se esgota realmente em seu cumprimento, mas permanece armazenada para sempre."

Experimentação, História, Política

Poder e Velocidade | por Elias Canetti

"Imitado pelos homens, o raio foi transformado numa espécie de arma: a arma de fogo. O clarão e o estrondo do tiro, o fuzil e particularmente os canhões sempre provocaram o medo dos povos que não os possuíam: estes os percebiam como o raio. (...) Ainda antes, porém, os esforços do homem caminhavam já na direção de torná-lo um animal mais veloz. A domesticação do cavalo e o desenvolvimento dos exércitos de cavaleiros, em sua forma mais completa, conduziram às grandes invasões históricas provenientes do Oriente. Todos os relatos da época acerca dos mongóis destacam quão velozes eles eram. Sua aparição era sempre inesperada: eles surgiam tão repentinamente quanto desapareciam, e reapareciam de maneira ainda mais abrupta. Sabiam converter em ataque até mesmo a pressa da fuga: mal se começava a crer que haviam fugido, estava-se já novamente cercado por eles. Desde sempre, a velocidade física, como característica do poder, intensificou-se de todas as formas. Desnecessário faz-se abordar seus efeitos sobre nossa era tecnológica."

Experimentação, Filosofia, História, Política, Semiologia

“Fuck”, “Sex”, “Tech” e “Gênero”: quando a América afunda.

"(...) Com “cis-gênero” as coisas se embaralham: uns dizem que a pessoa cis gênero é aquela que aceita o sexo que lhe destinou o nascimento; outras dizem que é aquele que aceita o gênero destinado no nascimento; outras que são “os indivíduos dos quais o gênero de nascimento, o corpo e a identidade pessoal coincidem” (entenda quem puder); outras falam de cissexual para descrever “as pessoas que não são transsexuais e que sempre conceberam seus sexos físico e mental alinhados”. Enfim, ser cis gênero é ser singularmente demarcado, sexista, normativo e normalizado. E será ainda mais se se insurgir contra a ideia (aberrante de um ponto de vista biológico) de que o sexo possa ser “destinado” no nascimento, e se se persiste em pensar – é o meu caso – que o sexo é constatado no nascimento, da mesma maneira que constatamos que o recém-nascido tem dois olhos, um nariz, etc.".

Filosofia, Política, Semiologia

Pergunta e resposta | por Elias Canetti

Toda pergunta é uma intromissão. Onde ela é aplicada como um instrumento de poder, a pergunta corta feito faca a carne do interrogado. Sabe-se de antemão o que se pode descobrir, mas quer-se descobri-lo e tocá-lo de fato. Com a segurança de um cirurgião, o inquiridor precipita-se sobre os órgãos do interrogado. Esse cirurgião mantém viva sua vítima para saber mais sobre ela. É uma espécie particular de cirurgião, que atua provocando deliberadamente a dor em certos pontos; estimula certas porções da vítima para saber de outras com maior segurança.

Experimentação, Filosofia, Política

A coerência do estoicismo: uma alface por um óbolo

O que podem nos ensinar essas reflexões estoicas? Em primeiro lugar, parece-me que encontramos nas reflexões acima uma resposta à tendência atual de querer tudo, imediatamente, sem que nada nos seja pedido em troca. E a multiplicação das amostras grátis, das degustações gratuitas e dos presentinhos que a publicidade nos oferece não podem senão nos confirmar nessa tendência. Há nos estoicos ao contrário uma noção de sacrifício tornado necessário para se obter os verdadeiros privilégios, os verdadeiros bens. Ao entusiasmo atual com tudo o que é dado gratuitamente opõe-se a sabedoria estoica que reestabelece um preço ao que importa verdadeiramente.

Arte, Filosofia, História, Política

“A Morte de Empédocles”, filme de Jean-Marie Straub & Danièle Huillet.

Link para baixar o torrent e a legenda: https://goo.gl/KMR3Hd Uma pedagogia para a grandeza, para o excepcional, para o desmedido. Um olhar para a altivez do criminoso, para o desgraçado sem remorso... e também para o outro lado, para a baixeza organizada e sustentada pelo poder. Um filme que desdobra o verso de Leminski: “não… Continuar lendo “A Morte de Empédocles”, filme de Jean-Marie Straub & Danièle Huillet.

Filosofia, Política

Democracia finita e infinita | por Jean-Luc Nancy

A política jamais chega a fins. Ela conduz a níveis de equilíbrios transitórios. A arte, o amor ou o pensamento estão a cada instante, seria possível dizer, a cada ocorrência, no direito de se declarar cumpridos. Mas, ao mesmo tempo, esses cumprimentos só valem em sua esfera própria e não podem pretender fazer direito nem política. Assim, seria possível dizer que esses registros estão na ordem de um "findar do infinito", enquanto a política depende da indefinição.

Filosofia, Política

Como se pode ser deleuzeano? | por Arnaud Villani

Se eu tivesse que responder em uma frase à questão “Como se pode ser deleuzeano?”, eu responderia sem hesitar: por paixão, porque se trata de um dos únicos filósofos que gosta tanto da vida que ele a deslizou por trás de todas as suas palavras. Como ele, eu amo a vida como conjunto dos processos que se opõem à morte, mas processos que não faltam ao inorgânico. A vida é resistência. E nós somos responsáveis por ela em cada um de nossos gestos.

Filosofia, História, Política

Foucault, a COVID e o combate dos saberes | por Jean Zaganiaris

É preciso romper com a ideia de que os contrários possam se opor de maneira radical. (...) Entre março e outubro de 2020, as relações de força em torno do uso recomendado ou não da cloroquina ilustram isso. (...) Nesse contexto de pandemia que conhecemos atualmente, Foucault não se concentraria na luta entre as fake news e os discursos científicos, mas na luta que os saberes possuidores de uma legitimidade científica travam entre si.

História, Política

Primo Levi: Carta para Adolf Eichmann

Para Adolf Eichmann Corre livre o vento por nossas planícies, Eterno pulsa o mar vivo em nossas praias. O homem semeia a terra, a terra lhe dá flores e frutos: Vive em ânsia e alegria, espera e teme, procria ternos filhos. … E você chegou, nosso precioso inimigo, Você, criatura deserta, homem cercado de morte.… Continuar lendo Primo Levi: Carta para Adolf Eichmann

Arte, Experimentação, Política

FILME: O Mínimo Gesto (1971) | Fernand Deligny

Por: Nicolas Philibert | Trad.: Rodrigo Lucheta  "Débil mental", dizem os especialistas. Tal como é no mínimo gesto, ele o é na vida cotidiana que levamos juntos há mais de 10 anos.... Tal como é, para nós ele é uma fonte inesgotável de riso o tempo todo, desde que chega. E neste filme como na… Continuar lendo FILME: O Mínimo Gesto (1971) | Fernand Deligny

Arte, Experimentação, Política

Jim Morrison: dor, violência, liberdade.

Entrevista a Lizze James em 1967   Lizze James - Acho que os admiradores dos Doors o encaram como um salvador, um líder messiânico que os libertará. O que você acha? Essa não é uma imensa responsabilidade? Jim Morrison - Isso é um absurdo. Como se pode libertar alguém que não tem coragem para levantar-se… Continuar lendo Jim Morrison: dor, violência, liberdade.

Arte, Política

O Processo – um filme perturbador

"No nível da narrativa, todos representam o seu papel: a acusação, a defesa, a mesa, os advogados, o rito. O Processo controla a todos, envolve e desenvolve a todos em sua passagem.

Esse nível da representação, da narrativa, é o mais visível do filme, juntamente, claro, com os gestos dos envolvidos, gestos que escapam ao script e que preenchem o sentido do que se passa: os gestos deixam ver as cordas que movem todos os títeres - ainda que não nos revelem quem seja o titeriteiro. O Processo, como eu disse, é invisível."

Filosofia, História, Política

“Após a orgia”, por Jean Baudrillard

por Jean Baudrillard | trad.: Estela dos Santos Abreu Se fosse caracterizar o atual estado de coisas, eu diria que é o da pós-orgia. A orgia é o momento explosivo da modernidade, o da liberação em todos os domínios. Liberação política, liberação sexual, liberação das forças produtivas, liberação das forças destrutivas, liberação da mulher, da… Continuar lendo “Após a orgia”, por Jean Baudrillard

Arte, Política

O Direito à Literatura, por Antônio Cândido

O assunto que me foi confiado nesta série é aparentemente meio desligado dos problemas reais: “Direitos humanos e literatura”. As maneiras de abordá-lo são muitas, mas não posso começar a falar sobre o tema específico sem fazer algumas reflexões prévias a respeito dos próprios direitos humanos. É impressionante como em nosso tempo somos contraditórios neste… Continuar lendo O Direito à Literatura, por Antônio Cândido