Por Jean-François Laé | Trad.: Rodrigo Lucheta

Por que a filosofia de Gilles Deleuze fala imediatamente ao não-filósofo? Abramos seu último artigo publicado na revista Philosophie[i]: “A imanência: uma vida…”. Ele nos fala não d’a vida, mas de uma vida, feita de potência e de possíveis, uma vida como singularidade carregando acontecimentos, uma experiência consistindo em transformar o acaso. Não os acidentes que não param de nos chegar; mas um virtual que se empenha num processo de atualização e num estado de coisas que faz com que um acontecimento aconteça. “Minha ferida existia antes de mim”, ele gostava de repetir com Joe Bousquet (e eu não faço mais do que a atualizar), não importava como, esposando essa ferida de uma certa maneira, transformando ou carregando-a sobre um outro campo de experiência. É disso que ele nos fala sem cessar em Lógica do Sentido ou em Diferença e Repetição. Minha ferida existia antes de mim, mas ao invés de dobrá-la sobre si mesma num universo miserável e de autodestruição, eu derrubo o sentido dando-lhe uma força sobre um fora que a recarrega de outra maneira.

Gilles Deleuze é um filósofo da efetuação do acontecimento, de seu prolongamento que não para jamais, que não cessa de advir, a interminável instantaneidade engatada no futuro. Ele toma o homem por uma matéria-energia na superfície das coisas, um composto de ações e paixões, de intensidades e de insistências, como um super-jecto, para retomar uma de suas belas expressões, emprestada de Whitehead, essa capacidade de receber golpes enquanto busca forças fora, absolutamente fora para sair de si mesmo. É urgente sair de si mesmo e “colocar abaixo a identidade do Eu e a semelhança do eu”. Pois Deleuze não cessa de pensar sobre um solo antropológico em que corpo e órgão, costas e abdominais fazem de nós reptilianos, larvas capazes de sofrer os mais terríveis movimentos: rotações, contrações, estiramentos, torções. Toda sua filosofia mergulha na ferida o entusiasmo e as cenas de família, os humores e os afetos que forçam a pensar.

Pois sua atenção mergulha sem cessar nessa matéria não-humana do humano, tal como ele a deduz de Nietzsche, mas também de Leibniz, Hume, Foucault: essa plena potência prática na qual a imediatidade do corpo se ergue como um jato: potência do gesto, execução da viagem, explosão de acontecimentos, dedilhado da dobra, ativação da carne, força do grito que, juntos, brotam no centro do pensamento. Se, por um lado, o vivo está inflado de devir, inervado de redes, pleno de possíveis, por outro lado ele é também lacerado e rasgado como um outro de onde correria não sangue e vinho, mas um pensamento plissado, dobrado e desdobrado ao infinito.

Jamais filósofo algum havia se instalado tão firmemente na violência e nas forças da natureza, esse modo que temos de esbarrar contra as coisas, de sermos desviados, esse modo de destruir uma diferença para construir uma outra e assim transformar energia em acontecimento. Jamais filósofo algum alojou tanta força e violência nas singularidades pelas quais a potência esburaca o instante presente do ver, do ouvir, do sentir e do falar – entre o ver cinematográfico, o ouvir musical, o sentir pictural, o falar da ciência – , esses quatro modos de ser aberto ao mundo por tão ínfimos orifícios: o olho, o ouvido, as narinas e a boca.

E é aí que se detém o segundo procedimento deleuzeano. Para que tão pequenos orifícios abram-se ao mundo é absolutamente necessário dilatá-los – droga, amor ou álcool – a fim de abolir a linha e provar o fora. Deleuze nos propõe plenamente uma filosofia encharcada de antropologia, uma vez que o fora se arremessa sobre o ser que se abre para deformá-lo, desviá-lo até formar uma cãibra na perna. Ora, ele se pergunta sem parar, como provar plenamente através do orifício-mundo sem se deixar institucionalizar por ele? Como impedir que a sensação degole aquele que a sente, já que é preciso caçar as formas institucionalizadas, o rosto que santifica, o organismo que equilibra, a paisagem que representa. É preciso então, ao mesmo tempo em que se investe seus orifícios, fazer fugir suas formas e considerar o sujeito como um embrulho de predicados, um agenciamento do fora, uma disposição de singularidades que se metamorfoseiam, a fim de nos desfazer do ser-substância que se nos cola nos olhos como a toxoplasmose. A virada filosófica que ele nos sugere consiste em seguir a verdade de um corpo inteligente, a lucidez de uma percepção, a tendência da physis a devenir verbo. E de sublinhar a ligação necessária entre abstração e experiência, enunciado e entusiasmo, teoria e dramaturgia, um fundamento corporal, portanto, que nos faz pegar o mundo entre os dentes e não mais na ponta de lábios ligeiramente pinçados.

Deleuze reservou à filosofia a tarefa de se chocar violentamente contra a experiência prática. “O empirismo trata o conceito como o objeto de um encontro, como um aqui-agora ou antes como um Erewhon de onde saem, inesgotáveis, os “aqui” e os “agora” sempre novos, diversamente distribuídos”. É à natureza e às ciências da natureza que ele apela sem cessar para descrever a experiência e para seguir as consequências disso com o mais extremo rigor. Em suma, uma louca criação muito afastada dos calmos modelos do sujeito ativo dotado de projetos, estratégias, intenções, razões, vontade. Uma visão a-centrada na qual o vivo prolifera por diferença e conversão de diferenças, visão da qual Deleuze percebe o eco ensurdecido através de uma natureza ora criadora, ora destruidora. Com essa questão que lhe atormenta e que ele procura resolver absolutamente, uma das tarefas maiores da filosofia: como fazer movimento?, como, com sua ferida, atravessar o muro?

 

Jean-François Laé

 

[i] Nº. 47, 1995.

Fonte do texto original: Revue Esprit.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s