Filosofia, Política

Democracia finita e infinita | por Jean-Luc Nancy

A política jamais chega a fins. Ela conduz a níveis de equilíbrios transitórios. A arte, o amor ou o pensamento estão a cada instante, seria possível dizer, a cada ocorrência, no direito de se declarar cumpridos. Mas, ao mesmo tempo, esses cumprimentos só valem em sua esfera própria e não podem pretender fazer direito nem política. Assim, seria possível dizer que esses registros estão na ordem de um "findar do infinito", enquanto a política depende da indefinição.

Filosofia, Política

Como se pode ser deleuzeano? | por Arnaud Villani

Se eu tivesse que responder em uma frase à questão “Como se pode ser deleuzeano?”, eu responderia sem hesitar: por paixão, porque se trata de um dos únicos filósofos que gosta tanto da vida que ele a deslizou por trás de todas as suas palavras. Como ele, eu amo a vida como conjunto dos processos que se opõem à morte, mas processos que não faltam ao inorgânico. A vida é resistência. E nós somos responsáveis por ela em cada um de nossos gestos.

Arte, Experimentação, Semiologia

Jean-Luc Godard: Aprendisagem do Descontínuo

por Ruy Gardnier Jean-Luc Godard: Aprendisagem do Descontínuo A nuca de Jean Seberg. Ou de Patricia Franchini, pois é ela a personagem, filmada de trás, flagrada no assento do carona de um conversível passeando pelas ruas de Paris. Enquanto ela conversa com o namorado-motorista, que permanece fora de quadro, a imagem salta diversas vezes, cortando… Continuar lendo Jean-Luc Godard: Aprendisagem do Descontínuo

Arte, Filosofia

Uma felicidade estranha

Composição de relações ao som de uma música de Rodolphe Burger & Olivier Cadiot ("Je nage" / "Eu nado"), com trechos falados de uma aula de Gilles Deleuze: "Espinosa: Imortalidade e Eternidade", de 1981.   Clique aqui para ler a aula de Deleuze em francês. Clique aqui para ler a aula de Deleuze em português.… Continuar lendo Uma felicidade estranha

Filosofia

O Abecedário de Gilles Deleuze | Transcrição Completa

Você escolheu um abecedário, me preveniu sobre os temas, não conheço bem as questões, mas pude refletir um pouco sobre os temas... Responder a uma questão, sem ter refletido, é para mim algo inconcebível. O que nos salva é a cláusula. A cláusula é que isso só será utilizado, se for utilizável, só será utilizado após minha morte. Então, já me sinto reduzido ao estado de puro arquivo de Pierre-André Boutang, de folha de papel, e isso me anima muito, me consola muito, e quase no estado de puro espírito, eu falo, falo ...após minha morte... e, como se sabe, um puro espírito, basta ter feito a experiência da mesa girante [do espiritismo], para saber que um puro espírito não dá respostas muito profundas, nem muito inteligentes, é um pouco vago, então está tudo certo, tudo certo para mim, vamos começar: A, B, C, D... o que você quiser.

Filosofia, História, Política

Foucault, a COVID e o combate dos saberes | por Jean Zaganiaris

É preciso romper com a ideia de que os contrários possam se opor de maneira radical. (...) Entre março e outubro de 2020, as relações de força em torno do uso recomendado ou não da cloroquina ilustram isso. (...) Nesse contexto de pandemia que conhecemos atualmente, Foucault não se concentraria na luta entre as fake news e os discursos científicos, mas na luta que os saberes possuidores de uma legitimidade científica travam entre si.

Experimentação, Filosofia

Gilles Deleuze: um misticismo ateu | por René Schérer

Ora, esse misticismo, ele é possível; o problema é bem colocado, e central – Fourier teria escrito pivotal, ou ocupado um lugar privilegiado – dessa aliança entre o empirismo e o misticismo; entre a ordem dos fatos e o que Kant chamava, no seu opúsculo sobre Os sonhos de um visionário, a perda no transcendente. Obstáculo a contornar, ou melhor, pedra de toque de uma reviravolta paradoxal. Posta assim em evidência, logo à entrada, essa pedra é advertência e signo de reconhecimento. Não entre aqui quem não seja místico.

História, Política

Primo Levi: Carta para Adolf Eichmann

Para Adolf Eichmann Corre livre o vento por nossas planícies, Eterno pulsa o mar vivo em nossas praias. O homem semeia a terra, a terra lhe dá flores e frutos: Vive em ânsia e alegria, espera e teme, procria ternos filhos. … E você chegou, nosso precioso inimigo, Você, criatura deserta, homem cercado de morte.… Continuar lendo Primo Levi: Carta para Adolf Eichmann

Filosofia

Tudo é congruente | por Marilena Chauí

Examinando os preceitos da retórica seiscentista, João Adolfo Hansen[i] retoma, seguindo Tesauro, a história da encomenda de uma cabeça de Palas, feita pelos atenienses a dois escultores, Fídias e Alcmena. A escultura deveria ser colocada no topo de uma alta coluna e ser vista de baixo para cima. Quando as obras chegaram, a de Fídias… Continuar lendo Tudo é congruente | por Marilena Chauí

Filosofia

Baruch Espinosa: Carta sobre o Infinito

"Compor a duração com momentos é o mesmo que compor o número apenas pela adição de zeros. (...) O número, a medida e o tempo, por serem auxiliares da imaginação, não podem ser infinitos, pois senão o número não seria mais número, a medida, medida, e o tempo, tempo. Por isso se vê claramente por que muitos, que confundem esses três entes de imaginação com entes reais, porque ignoram a verdadeira natureza das coisas, negam o infinito em ato".

Arte, Experimentação

Deus é tsunami. Deus é geleira despencando. | Elke Maravilha

"Deus é tsunami. Deus é geleira despencando, deus é tempestade de neve, deus é tempestade de areia. As religiões nos atrapalharam muito. O que essas religiões fizeram? Fora o budismo. O cristianismo, eu adoro Cristo, mas Cristo só trata do homem. E a floresta, que é nossa irmã? E a pedra, que é nossa irmã? E o cavalo? E o rato? E o vírus da Aids? E o tubarão? São todos nossos irmãos."

Filosofia

Gilles Deleuze, uma filosofia de nossas feridas

Por Jean-François Laé | Trad.: Rodrigo Lucheta Por que a filosofia de Gilles Deleuze fala imediatamente ao não-filósofo? Abramos seu último artigo publicado na revista Philosophie[i]: “A imanência: uma vida...”. Ele nos fala não d’a vida, mas de uma vida, feita de potência e de possíveis, uma vida como singularidade carregando acontecimentos, uma experiência consistindo… Continuar lendo Gilles Deleuze, uma filosofia de nossas feridas

Arte, Experimentação, Filosofia

Gilles Deleuze: A Imagem-Movimento (aula 1 de 21)

“O cinema inventou uma percepção. A percepção no cinema é diferente da percepção nas condições naturais. O cinema nos propõe uma percepção que as condições naturais não nos podem dar, a saber: a percepção de um movimento puro. E se as condições da reprodução do movimento no cinema são condições artificiais, isso não significa que aquilo que o cinema reproduz seja artificial. Todo o artifício do cinema serve à construção dessa percepção de um movimento puro; ou de um movimento que tende ao puro, ao seu estado puro. O que é o fato da percepção cinematográfica? É que no cinema o movimento não se acrescenta à imagem. O movimento não se adiciona à imagem. Não há a imagem e depois o movimento. O que o cinema apresenta é uma imagem-movimento (com um pequeno traço, com um hífen). É uma imagem-movimento”.

Arte, Experimentação, Política

FILME: O Mínimo Gesto (1971) | Fernand Deligny

Por: Nicolas Philibert | Trad.: Rodrigo Lucheta  "Débil mental", dizem os especialistas. Tal como é no mínimo gesto, ele o é na vida cotidiana que levamos juntos há mais de 10 anos.... Tal como é, para nós ele é uma fonte inesgotável de riso o tempo todo, desde que chega. E neste filme como na… Continuar lendo FILME: O Mínimo Gesto (1971) | Fernand Deligny

Filosofia

Deleuze de costas e de frente | por Jean-Pierre Faye

Por: Jean-Pierre Faye | Trad.: Rodrigo Lucheta   “Cada combinação frágil é uma potência de vida que se afirma”. É o enigma deleuzeano, aquele do filósofo “sem pulmões” – mas que fôlego... Penso em sua definição, ou antes em seu retrato de Nietzsche: “grand vivant de saúde frágil”. Ele mesmo cita a descrição nietzscheana: “O… Continuar lendo Deleuze de costas e de frente | por Jean-Pierre Faye