Filosofia, História, Política

Foucault, a COVID e o combate dos saberes | por Jean Zaganiaris

Por Jean Zaganiaris | trad.: Rodrigo Lucheta

“A genealogia dos saberes tem de desmantelar o que no século XVIII (e aliás no XIX e ainda no XX) foi descrito como sendo a luta do conhecimento contra a ignorância, da razão contra as quimeras, da experiência contra os preconceitos, dos raciocínios contra o erro, etc. Tudo isso, que foi descrito e simbolizado como a marcha do dia dissipando a noite, é disso que é preciso, penso eu, desembaraçar-se: [é preciso, ao contrário], perceber ao longo do século XVIII, no lugar dessa relação entre dia e noite, entre conhecimento e ignorância, alguma coisa de bem diferente: um imenso e múltiplo combate; não, pois, entre conhecimento e ignorância, mas um imenso e múltiplo combate dos saberes uns contra os outros – saberes se opondo entre eles por sua morfologia própria, por seus detentores inimigos uns dos outros, e por seus efeitos de poder intrínsecos”.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: Curso no Collège de France (1975-1976), (trad. de. Maria Ermantina Galvão). São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Em 28 de outubro de 2020, numa emissão da Franceinfo, o professor Éric Caumes, chefe do serviço de doenças infecciosas e tropicais no hospital de Pitié Salpêntrière, disse que o professor Didier Raoul “nos deu uma bela lição de utilização perniciosa das redes sociais e das mídias” e lamentou que uma minoria de pesquisadores fosse “tão midiatizada quanto 99% dos cientistas, que concordam entre si”.

Essa intervenção midiática, mostrando os desacordos no seio do corpo médico é uma bela ilustração da luta dos saberes de que fala Michel Foucault, notadamente na obra Em defesa da sociedade: Curso no Collège de France, publicado em 1976. Ele mostra ali que os saberes não devem ser descritos por oposições binárias (conhecimento/ignorância, razão/quimera), mas através da luta que eles fazem entre si: é preciso romper radicalmente com esse primeiro tipo de representação e admitir a existência de um gigantesco combate entre saberes possuídos por diferentes atores.

Por que será que Foucault distingue essa ruptura no modo de representar os saberes? Será que falar de uma luta entre os saberes suporia que o autor de Em defesa da sociedade cai numa espécie de ceticismo; ou que isso antes significaria que ele experimentou pensar um outro modo de buscar atingir a verdade? Neste artigo, que toma voluntariamente a forma de um comentário do texto colocado acima como citação, nós veremos o modo pelo qual Foucault recoloca em causa as oposições binárias (linhas 1 a 6), depois, se se pode falar de ceticismo (linhas 7 a 9). Examinaremos, enfim, a relação complexa que Foucault estabelece entre saber, verdade e poder (linhas 10 e 11).

A superação das oposições binárias

Na primeira parte do texto [linhas 1 a 6], Foucault repõe em causa as representações do saber operante através das oposições binárias: conhecimento / ignorância; razão / quimera; experiência / preconceitos; raciocínio / erro. Estes são reunidos sob a designação irônica de “noite / dia”, remetendo implicitamente à alegoria da caverna de Platão. Por que é que a natureza dessas oposições admitidas até o presente como sendo o modo mais adequado de representar os saberes põe problema a Foucault? Pareceria que a luta de uma entidade monista (conhecimento, razão) contra outra (ignorância, quimeras) daria uma visão petrificada, quase maniqueísta do conhecimento. Sobre esse ponto, Foucault retoma por sua conta a abordagem de Nietzsche, que convidava em sua obra a se desfazer das oposições entre o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o bem e o mal, e a levar em conta a pluralidade, as multiplicidades constitutivas da realidade humana. O termo “genealogia” é aliás uma referência à condução adotada por Nietzsche na Genealogia da moral, onde é questão não pensar nossos valores morais a partir da oposição entre o bem e o mal, mas procurar no seio da História de que modo eles apareceram e como eles se impuseram a nós. A genealogia parte do presente e se esforça em reconstituir todos os acidentes, os acontecimentos fortuitos, as mentiras, as relações de força que permitiram a certas formas de saber ou a certas práticas de poder de se impor a nós[i].

Foucault transpõe a abordagem de Nietzsche a respeito dos valores em direção à descrição dos saberes. Segundo ele, é preciso romper com a ideia de que os contrários possam se opor de maneira radical. A luta entre o conhecimento (supondo um saber exato que se deve possuir) e a ignorância (remetendo ao fato de não conhecer o que deveria ser conhecido) é ao mesmo tempo artificial e normativa. Essa artificialidade pode ser ilustrada pela unilateralidade do combate que a filosofia das Luzes, encarnada pelos conhecimentos da Enciclopédia ou do Dicionário de Filosofia de Voltaire, pretendia empreender contra o “fanatismo” e a “superstição”, sem levar em conta a diversidade da forma de saberes. Além disso, a luta entre conhecimento e ignorância possui uma dimensão normativa, pois ela supõe que é bom conhecer e que é ruim ignorar. Entretanto, os critérios que afirmam que ou possuímos os conhecimentos ou que somos ignorantes não contém algo de arbitrário?

A abordagem de Foucault mostra que essas oposições binárias, a partir das quais nos representamos o saber, não correspondem à realidade das coisas. Reagrupando todas essas oposições sob a imagem simbólica do “dia” dissipando a “noite”, percebemos a ruptura com o pensamento de Platão.  Na célebre alegoria da caverna (A República, livro VII), Platão opõe o mundo sensível, o mundo dos sentidos, o mundo das ilusões (das quimeras), e o mundo inteligível, o mundo do intelecto (da razão), o mundo do conhecimento. O mundo das ilusões, das quimeras, é um mundo onde se está habituado a ver representações sobre a parede da caverna e a crer que essas representações são verdadeiras. O mundo inteligível é o mundo de fora da caverna, no seio do qual nós não percebemos com os nossos sentidos, mas com nosso intelecto e onde as coisas nos aparecem tais como são e não como as imaginamos. Essa representação binária – mundo sensível e mundo inteligível – é recolocada em questão pois ela não leva em conta a diversidade dos saberes e dos diferentes modos de produzir um discurso de verdade, notadamente através das relações de força.

O mesmo acontece na oposição experiência / preconceito ou raciocínio / erro. A oposição experiência / preconceito remete à busca da verdade no domínio científico. Se para Platão os sentidos são enganadores, os empiristas, tais como Hume ou Locke, consideravam que é possível adquirir saber a partir do que se vê, do que se ouve, etc. As experiências vividas permitem adquirir saberes que são provavelmente verdadeiros. Todavia, mesmo aqui, Foucault rejeita essa concepção binária, pois nossos sentidos podem levar a diferentes representações do que se afirma como sendo verdadeiro. Seriam então as diferentes interpretações das experiências que seria preciso levar em consideração, e não a oposição experiência / preconceito para descrever os saberes.   Entre março e outubro de 2020, as relações de força em torno do uso recomendado ou não da cloroquina ilustram isso.

Dá-se o mesmo na oposição raciocínio /erro, parecendo remeter implicitamente a Descartes. Esse modo de descrever os saberes supõe que uma demonstração exata conduzida pelo espírito pode nos levar às verdades primeiras, ou seja, às verdades de que não se pode duvidar e que as possuiríamos de maneira exata, pois Deus as pôs em nós. O erro seria o que não aparece de maneira clara e distinta ao nosso espírito, o que duvidamos. Foucault contesta esse modo de descrever o saber pois ele opõe esquematicamente aqueles que possuiriam uma verdade uniforme graças ao bom uso de sua razão, e aqueles que não a possuiriam pois que fariam um mau uso de sua razão.

Será que essa recolocação em questão do pensamento de Platão, dos empiristas, de Descartes, suporia que Foucault seria um cético, quer dizer, que ele pensaria que não se pode atingir a verdade e que seria preciso suspender o juízo? Vejamos justamente de que modo Foucault opõe pontos de vista opostos, a exemplo de Sexto Empírico em Hipóteses Pirrônicas, sem entretanto afirmar que ele se vincula às conclusões do ceticismo.

O ceticismo foucaultiano

Na segunda parte do texto [linhas 7 a 9], Foucault convida a nos desembaraçarmos das representações do saber em termos de oposições binárias e a levar em conta o que ele chama de um “imenso” e “múltiplo” combate que os saberes fazem entre eles. Poderíamos supor que Foucault considera “saberes” e “conhecimentos” como sinônimos – o que é o caso na linguagem corrente. Todavia, o conhecimento está situado [na linguagem corrente] ao lado de uma descrição do saber que supõe a existência de uma verdade escondida que seria preciso desvendar, de uma verdade de correspondência implicando que existiria uma adequação entre o enunciado e o real, ou de uma verdade-coerência, subentendendo-se que um enunciado é verdadeiro se ele não se contradiz, se ele é fruto de uma demonstração lógica? Diferenciar o saber e o conhecimento supõe romper com essas concepções da verdade. Descrever o saber supõe não representa-lo através da oposição binária conhecimento / ignorância, mas atentar para o combate que os diferentes discursos pretendentes ao conhecimento, à razão, à experiência, ao raciocínio travam entre eles e levar em consideração diferentes pretensões de possuir a verdade.

“Foucault jamais escreveu: “minhas preferências políticas ou sociais são as verdadeiras e as boas” (o que quer dizer o mesmo, se concedermos a Heidegger): ele também não escreveu: “as preferências de meus adversários são as falsas”; todos seus livros supõem antes isso: “as razões pelas quais meus adversários pretendem que sua posição seja verdadeira, repousam genealogicamente sobre nada”, Foucault não atacava as escolhas dos outros, mas as racionalizações que os outros incorporavam às suas escolhas. Uma crítica genealógica não diz “eu tenho razão e os outros estão enganados”, mas somente: “os outros não têm razão ao pretender que tenham razão”. Um autêntico guerreiro conhece a falta da indignação, a cólera, o thumos; Foucault não se inquietava por ter que fundamentar suas convicções, bastava-lhe o valor; mas racionalizá-las teria sido humilhar-se, sem nenhum proveito para sua causa”.

Por Paul Veyne, em O último Foucault e sua moral. [citação do tradutor]

Trata-se de compreender o que Foucault subentende por “combate”. Este não são [os] debates construtivos e respeitosos, mas relações de força às vezes violentos entre diferentes protagonistas. Foucault se opõe às concepções deliberativas de Jürgen Habermas, que sugerem em seu livro sobre o Espaço público (1962) que é pelo debate, pelo intercâmbio de argumentos e pela recolocação em causa de suas ideias pelo confronto com as ideias dos outros que se pode chegar a conhecimentos exatos sobre questões científicas, filosóficas ou políticas. Para Foucault, o saber está ligado antes de tudo ao poder e a um combate impiedoso que os saberes travam entre si. É o que ilustram as passagens sobre a doença em A ordem do discurso[ii]. Foucault mostra que toda ciência está confrontada com a sua exterioridade, ou seja, a saberes exteriores à disciplina que pretende possuir a verdade sobre tal ou tal domínio do conhecimento. Não são apenas os médicos que produzem um saber sobre a saúde, mas também os políticos, os curandeiros, os ativistas, os escritores, os filósofos das ciências.

Foucault fala de um “imenso” combate pois seu alcance concerne a toda a sociedade e não simplesmente ao domínio médico, político ou moral. Esse combate é igualmente “múltiplo” pois ele inclui diversas categorias de atores pertencentes a diferentes domínios que se afrontam de maneira virulenta. Podemos ilustrar esse aspecto imenso e múltiplo dos combates dos saberes entre si com a aparição do vírus da AIDS nos anos 1980. Ao lado dos saberes médicos que se afrontavam entre si, notadamente sobre a eficácia dos primeiros medicamentos, outros tipos de saberes não científicos sobre a AIDS apareceram. Durante os anos 1990, saberes políticos, saberes morais e saberes militantes afrontaram-se violentamente. O filme 120 Batimentos por minuto (2017) mostra a natureza das ações tocadas pelo Act’up, uma associação militante de luta contra a AIDS: a produção de saberes através de seus discursos se opunha aos saberes morais de certas associações católicas, aos saberes do Estado regulando o que se pode mostrar ou não quanto aos modos de prevenção, e mesmo aos saberes médicos quanto aos protocolos de experimentação e de difusão de novos medicamentos. Entre os anos 1980 e 2020, esses saberes, assim como as relações de força que os caracterizam, evoluíram, mas eles restam  todavia presentes. A luta que os diferentes saberes travam entre si mostra que a relação com a verdade é uma questão de luta, o fruto de uma relação de força.

Contrariamente à primeira representação dos saberes, aquela que recorre às oposições dos saberes, a segunda maneira que descreve estes a partir da luta que eles travam entre si suporia que existiria não uma, mas diversas verdades? As palavras de Foucault implicariam que se possa dizer “a cada um a sua verdade”? A resposta de Foucault a essa segunda questão é negativa, pois Foucault, como Bachelard, dissocia o saber da opinião. Não são as simples opiniões subjetivas, mas as pretensões argumentadas de possuir a verdade que lutam entre elas. Podemos, portanto, deduzir que Foucault é cético? Isso significaria que ele supõe que deveríamos nos contentar com o equilíbrio entre as coisas, quer dizer, o que existe e os pontos de vista adversários que pretendem possuir a verdade e que se afrontam entre si. Os céticos se recusam a dar crédito a tal ponto de vista em detrimento de outro e suspendem seu julgamento. Esse é o caso de Foucault? À primeira vista poderíamos concluí-lo. Entretanto, a última frase do texto nos convida à prudência e a questionar um Foucault que adere às conclusões do ceticismo. Com efeito, o que se passa quando um desses adversários ganha esse “imenso” e “múltiplo” combate?

Saber, verdade e poder

Nossa terceira parte [linhas 10 e 11] retorna ao alcance da última frase do texto e mostrará que seria preciso ligar as palavras foucaultianas com o que o filósofo Olivier Dekens chama de “verdade-expressão”[iii], ao invés de ligá-las ao ceticismo. A verdade expressão supõe que um discurso é verdadeiro graças ao poder de afirmação que ele liberta e que lhe permite se impor em detrimento de outros saberes correntes.

Quando Foucault descreve essa luta entre os saberes, insistindo sobre a sua forma exterior, sobre as características de seus possuidores e os efeitos de poder que eles emanam, podemos supor que haveria aí uma consequência nesse combate: alguém poderia conquistá-lo e se impor face a seus concorrentes como vencedor. Para tomar o exemplo da luta dos saberes em torno do uso da cloroquina como medicamento susceptível de curar a COVID-19, certos saberes em seu favor se impuseram como verdade no combate midiático travado pelos cientistas. Eles lograram até mesmo efeitos de realidade, pois certos países decidiram reter esse medicamento e prescrevê-lo aos pacientes. Todavia, em maio de 2020, a OMS decidiu suspender seus testes com esse medicamento por medida de segurança, e em outubro de 2020 a revista científica The New England Journal of Medicine publica um artigo indicando que a cloroquina não seria um medicamento eficaz contra a COVID-19 e que não reduzia a mortalidade[iv]. Para Foucault, a verdade não consiste em desvelar o que estaria escondido, mas encarnação do ponto de vista da forma do discurso que se impôs no seio do combate. É por isso que ele insiste sobre a forma desses saberes, a natureza de seus detentores e os efeitos de poderes que são próprios deles.

Nesse contexto de pandemia que conhecemos atualmente, Foucault não se concentraria na luta entre as fake news e os discursos científicos, mas na luta que os saberes possuidores de uma legitimidade científica travam entre si. A morfologia de um saber remete à sua forma exterior. Esta não terá o mesmo efeito no combate conforme seja oral (intervenção midiática) ou escrita. O escrito não terá o mesmo alcance conforme seja publicado numa mídia on-line (mesmo quando não se trate de vulgarização) ou numa revista científica com comitê de leitura que possua uma certa notoriedade. Foucault insiste igualmente sobre a natureza dos detentores desses saberes. Com efeito, estes não existem unicamente no dito mundo das Ideias platônicas, independentemente dos atores que produzem esses saberes a partir da posição que é a sua no campo de luta e da abordagem que é a sua para vencer o combate. Desse ponto de vista, a posição de Foucault a respeito do “imenso” e “múltiplo” combate se aproxima paradoxalmente muito mais da abordagem de Pierre Bourdieu do que dos céticos. Para Bourdieu, os agentes são dotados de certos capitais culturais, econômicos, relacionais que lhes permitem lutar no campo e de se impor como dominantes ou de restar dominados. A descrição dos saberes não pode, segundo Foucault, prescindir de considerar a multiplicidade que os caracteriza, a sua forma, a natureza daqueles que os detêm e os efeitos de poder que eles exercem numa luta que não é sem consequências. O saber que se impõe como verdade é aquele que possui o maior poder.

Nesse trecho, Foucault mostra então que não se trata de descrever o saber de maneira uniforme, mas antes de restituir a luta que os diferentes saberes travam entre si em tal ou tal época histórica ou em nosso tempo presente, a fim de pretender à verdade. A abordagem genealógica convida a desbaratar oposições binárias e a considerar a multiplicidade desses saberes sem forçosamente cair no ceticismo.

 


Notas:

[i] H. Dreyfus, P. Rabinow, Michel Foucault, un parcours philosophique, Éd. Gallimard, Paris, 1984, pp.160-161.

[ii] FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola,. 1996.

[iii] Cf. Olivier Dekens, «Foucault ou le courage de la vérité».

[iv] Sobre este ponto, ver o artigo da redação do Média 24. Ler igualmente a tribuna exprimindo um discurso contrário.

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