Filosofia

Tudo é congruente | por Marilena Chauí

Examinando os preceitos da retórica seiscentista, João Adolfo Hansen[i] retoma, seguindo Tesauro, a história da encomenda de uma cabeça de Palas, feita pelos atenienses a dois escultores, Fídias e Alcmena. A escultura deveria ser colocada no topo de uma alta coluna e ser vista de baixo para cima. Quando as obras chegaram, a de Fídias foi objeto de riso, “pois ela parecia apenas grosseiramente esboçada”, enquanto a de Alcmena recebeu aplauso porque “mostrava linhas diligentemente definidas”. No entanto, tendo Fídias “o engenho mais agudo do que o escalpelo”, pediu que ambas fossem colocadas sobre a alta coluna.

Então sua obra, reduzida pela distância à proporção exata, apareceu belíssima, enquanto a de Alcmena, antes tão harmônica, agora era tosca e malformada.[ii]

Essa história, explica Hansen, é empregada por Tesauro para ilustrar o tema da verossimilhança e do decoro nas obras de poesia e prosa, segundo as normas aristotélicas e horacianas, que exigem “um concerto ordenado de partes ordenadas ao seu fim”, isto é, para que possam ensinar (docere), comover (movere) e deleitar (delectare) o destinatário, agindo sobre seu ânimo, ou seja, sobre seus afetos.

A relação de efeito e afeto é um intervalo regrado como maior ou menor congruência das partes da obra ao todo quando a obra é recebida segundo um ponto de observação determinado. Retoricamente, para que os afetos a serem produzidos no destinatário sejam eficazes, é preciso calcular a proporção exata dos efeitos.[iii]

Hansen considera que o tópos da escultura de Fídias relaciona-se com a distinção feita por Platão, no Sofista, entre imagem icástica e imagem fantástica. A primeira, icônica, reproduz com fidelidade as proporções da ideia; a segunda, fantasma e simulacro, é desproporcionada e deformada com relação à ideia e à imagem icástica. É a distância sensível entre a imagem e o observador que determina o caráter icástico ou fantástico dela. No caso da obra, o artista sabe que a distância acarreta distorção visual e por isso altera as proporções reais do modelo, em vez de reproduzi-lo icasticamente.

Ou seja: Fídias produz uma imagem que só aparece deformada e fantástica quando é vista de qualquer lugar, como é o caso dos juízes que riem porque a veem de perto, de um ponto de vista inadequado; mas a escultura parecerá proporcionada à ideia que os juízes têm da deusa quanto for vista de um ponto de observação próprio […]. Sua percepção fantástica da magnitude e da intensidade das grandezas desproporcionadas se tornará percepção icástica da sua magnitude e grandezas relativas.[iv]

Ora, a relação icástico-fantástico é objeto de uma arte especializada, encontrada nos tratados de óptica: a cenografia. Nesta, a relação proporcional-desproporcional, congruente-incongruente não deve ser entendida simplesmente como relação de distância ou proximidade entre o observador e a imagem e sim como “distância correta, matematicamente calculada” e é esse cálculo que reaparece nas práticas retóricas da commensuratio e da proportio do engenho agudo seiscentista.

Ao dizer a Tschirnhaus que “tudo é congruente”, Espinosa lhe pede que examine “com ânimo atento meu parecer”. Ou seja, dirige-se aos seus afetos e pede-lhe que mude de ponto de vista, encontrando o ponto adequado para compreender o que lhe está sendo dito.

Dessa maneira, podemos apanhar o motivo retórico que levou o filósofo a dirigir-se ao ânimo de Tschirnhaus, examinando longamente a força e fraqueza dos afetos, do querer e do não querer. Mas podemos, principalmente, compreender o que o levou a introduzir o argumento do sonho e a expressão “sonhar de olhos abertos”. De fato, Espinosa afirma que embora o sonho possa parecer fantástico (pois aparentemente atestaria a existência de uma liberdade absoluta da vontade para querer e não querer), quando examinado de um ponto de vista adequado, isto é, à luz da experiência e da razão, percebe-se que sua operação não se distingue da vigília, pois se se distinguisse, teríamos que admitir haver dois gêneros de liberdade, a real e a fantástica, e esta última não se distinguiria da loucura, também fantástica. Ora, as suposições tradicionais e as de Tschirnhaus sobre a vontade, a liberdade e a necessidade, que pareceriam tão congruentes e óbvias, quando examinadas do ponto de vista adequado revelam-se um sonho de olhos abertos, isto é, fantásticos, incongruentes. Todavia, é o pensamento de Espinosa que parecia fantástico a Tschirnhaus (assim como a outros correspondentes e leitores) e por esse motivo o filósofo lhe pede que o examine do lugar adequado — isto é, com ânimo atento — de onde verá que “tudo é congruente”.

Marilena Chauí

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Fonte:

CHAUI, Marilena. Nervura do real II: imanência e liberdade em Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. (Nota Complementar nº 7).

Notas


[i]  J. A. Hansen, “A doutrina conceptista do cômico no Tratto de Ridicoli de Emanuele Tesauro”, em conferência proferida no Departamento de Filosofia, maio 1998.

[ii] Ibid., p. 3.

[iii] Ibid., p. 4.

[iv] Ibid., p. 5.

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