Por: Jean-Pierre Faye | Trad.: Rodrigo Lucheta

 

“Cada combinação frágil é uma potência de vida que se afirma”. É o enigma deleuzeano, aquele do filósofo “sem pulmões” – mas que fôlego…

Penso em sua definição, ou antes em seu retrato de Nietzsche: grand vivant de saúde frágil”. Ele mesmo cita a descrição nietzscheana: “O artista, o filósofo… À sua aparição a natureza dá seu salto único, e é um salto de alegria”.

Afetar-se de alegria. Eis aqui os afetos que exprimem o máximo de afirmação.

Eis-nos aqui, espinosanos, não pelo começo, pela substância única, mas pelo meio, percorrido pelo encontro das afecções. Ou com Henry James: “um daqueles que mais profundamente penetraram no devir-mulher da escrita”, pomba das asas perdidas, mas da qual o corpo espera ser esposado inteiramente, algo como um telegrama cifrado, ali onde “não restava senão uma luz crua”.  Espinosa sabe que “a morte não é a meta e nem o fim” – mas que se trata ao contrário de passar sua vida a outro. É o múltiplo de vida que conta. É isso que é dito – uma vez que as ideias não são “nada mais” do que narrações mentais da natureza: notação espinosana que Deleuze entretanto, pelo que eu sei, não notou, mas que reencontrou em sua descrição do romance (inglês). Para que “o encontro com relações… mine o ser, faça-o balançar”.

Eis aqui Deleuze face à grande balança heideggeriana. Sabemos que na balança havia colocado, de um lado, o ser. Mas a publicação da “edição integral”, essa Gesamtausgabe desejada e programada por seu autor, acabou por nos ensinar que, no outro prato da balança, ele havia colocado o “jorro da experiência do ser, […] o pensamento völkisch”…

Deleuze havia, de início, quase o único em seu tempo, esquivado a balança. A um jovem filósofo que escrevia um mestrado onde intervinha, a respeito da poesia, esse nome filosófico, ele havia feito apenas esta observação, junto a uma aprovação toda socrática: “Ah, sim! o druida nazi…”. Mas ao é, ele opunha o e. “O E como extra-ser, inter-ser”. Pois “o múltiplo não cessa de habitar cada coisa”.

*

Em face da altaneira “experiência do ser”, que caiu heideggerianamente na primeira grosseria vinda: “o pensamento da raça”, o Rassegedanke, exatamente aquele que Nietzsche havia nomeado como plump Geschwätz, a “gorda tagarelice”. Em face disso, o individuo deleuzeano “não é de modo algum indivisível, ele não cessa de se dividir, mudando de natureza”[1].  Na beira da fenda formigam as “transformações de pontos”. Precisão extra: “é preciso devenir o que Nietzsche chama nobre: ele emprega a linguagem do físico da energia, ele chama nobre a energia que é capaz de se transformar”[2]. Mas eu prestaria atenção ao termo que as traduções francesas tentaram traduzir pela palavra nobre: é vornehm. Deleuze logo a percebeu: “Esse tipo de anarquia coroada, essa hierarquia reversa”, quando a Vornehmheit é a suprema elegância de seis figuras nietzscheanas do “tchandala” […] – “os blasfemos, os imoralistas, os migrantes, os artistas, os judeus, os ciganos saltimbancos”: nós, ele insiste, “nós somos os porta-vozes da vida”.

Essa dissimulação, Deleuze a vê sem dúvida como uma teatralização pela diáspora estoica. Sinto uma tensão, senão uma contradição aberta, na proximidade deleuzo-estoica, frequentemente sublinhada, notadamente junto de Claire Parnet. Pois a distância crescente e finalmente a rejeição de todo manuseio do “significante” em Deleuze o oporia àquilo que é o aporte e o coração mesmo da fonte estoica a partir de Crisipo: o sémainon ou lexis, “o ar marcado” – distinto do lekton, semainomenon ou semantema: o significado.

A ruptura com Lacan, que Deleuze me anuncia certo dia como uma gaia sabedoria, carrega com ela o surgimento do rizoma. Por sua vez, este vai dizer a exclusão da árvore chomskyana, concebida por ele como uma árvore genealógica. Talvez um deslizamento lateral não deixe lugar para a piscada de olhos que faz perceber “a árvore” das gramáticas transformacionais como uma vidente pela qual são percebidas com acuidade as ambiguidades. Nesse sentido, as árvores transformacionais permitem a respiração entre os venenos ambíguos das linguagens. Eu as percebo nos instantes narrativos os mais violentos, aqueles em que a história fende mais depressa do que o próprio tempo. Elas permitem perceber como Robespierre é preso em pinças no Thermidor. Ou como Bonaparte, por seu lado, escapa por pouco de ser banido, deixado de lado por 45 minutos durante os quais se desenrola sua votação, expondo-o a uma dupla interpretação no mesmo momento: ao mesmo tempo em perigo pelo Terror e acusado do mesmo modo que Robespierre. Quando Artaud interpreta Marat no filme de Gance, seu rosto expressa ao mesmo tempo ferocidade e fragilidade: Deleuze encontrava aí sua conta.

Mas a diáspora estoica é como que análoga ao plano de imanência deleuzeano. Ela se parece com aquele templo de Hércules em Selinunte, na Sicília, em que as colunas parecem ter sido enfiadas no solo por mãos invisíveis. Mas essas tais colunas, pianos horizontais, são também respiração de árvores: estas respiram as linguagens pelas jazidas de ambiguidades que elas recebem e deixam revelar, e que fazem mexer a história, que fazem vacilar as jornadas e as noites. O ser-para-o-mundo deleuzeano joga nesse chacoalho de folhagens narrativas e de penugem de raízes. O para-o-mundo é uma floresta em funcionamento e esta pode tanto devir perigosa como salvaguarda, liberação, projeção: um rizoma, e que brota à escala da taiga siberiana ou da grande floresta amazônica, raízes aéreas e respirantes, produtoras de seiva e copiosas de oxigênio, derramando a cada instante os dados da economia animal. Respiramos pela narração, que em cada instante está em conexão com a ação, mas que, reportando-a, a transforma.

O “puro acontecimento” deleuzeano? O conceito é um, brotado do retorno narrativo, nascido de um encontro, mas o fantasma é um outro. E o que dizer dos “conceitos fantasmáticos”, alguns dos quais invadiram a filosofia a partir da zona turva do Reich monstro, que parcialmente tomou a filosofia como refém e exige ainda hoje o resgate? Nós os discutimos longamente ao telefone, nos anos e nos meses em que respirar era problema, e onde era difícil nos vermos.

Aqui sobrevém o pseudos para o qual Deleuze empresta a definição nietzscheana: “a mais alta potência do falso”. A feliz virtude do falso, colorindo a sexualidade, é um belo ensinamento de Nietzsche. A contrario, o falso infectado pode trabalhar sobre um tempo longo de falsificação e de sufocação. Mas seguir e clarificar os entroncamentos aéreos e subterrâneos dos grandes fantasmáticos, é aí uma liberdade não leibniziana: ela muda o movimento dos “espetos”, ela transforma as transformações.

Nós começávamos, com Deleuze, a discutir o transformativo.

 

Jean-Pierre Faye

 


Texto publicado originalmente em: Deleuze Épars, dir. André Bernold & Richard Pinhas. Paris, Hermann Éditeurs, 2005.


Notas

[1] G. Deleuze, Différence et répétition, Paris, PUF, 1968, p. 331.

[2] Ibid., p. 60.

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