Por: Charles J. Stivale | Trad.: Rodrigo Lucheta

 

Neste estudo eu me proponho considerar a dobra e suas conexões com a amizade nos escritos de Deleuze. Um dos aspectos importantes desta reflexão será reunir elementos para definir a dobra enquanto conceito; um segundo aspecto será explorar as perspectivas deleuzeanas sobre a amizade. Para isso, eu proponho de início uma consideração geral do conceito particular da amizade deleuzeana, traçando sua trajetória através de diversos escritos e entrevistas sobre a criação, a amizade e as conexões intelectuais que ele compartilhou com Félix Guattari. Em seguida, detenho-me no conceito de dobra a partir de certos textos exemplares que me autorizam o jogo de palavras em “Para além do túmulo”, subtítulo desta reflexão, com seu duplo sentido de para além do sepulcro e também para além da homenagem (o “túmulo” enquanto gênero de poema póstumo e elogioso). Os textos que apresento aqui permitem-me colocar em relevo diversos aspectos da dobra com respeito à amizade, e desenvolver essas perspectivas pelo meio, ou seja, no ambiente ao mesmo tempo do humor deleuzeano e do desdobramento de uma conjuntura conceitual precisa.

 

Fazer filosofia, com a amizade

A concepção de amizade que Deleuze propõe em O Abecedário é mais geralmente ligada a outras reflexões em seus escritos. Bem cedo em sua carreira, Deleuze seguiu Proust, afirmando, de um lado, que “a amizade não estabelece senão falsas comunicações, fundadas sobre mal-entendidos”, e, por outro lado, “que não há intersubjetividade que não seja artística. Só a arte nos dá o que em vão esperamos de um amado” (Proust et les signes, 54-55). Essa compreensão iconoclasta nos ajuda a situar melhor  as propostas de Deleuze em O Abecedário sobre o papel fundamental que desempenham os “encontros” fundamentais na vida – tanto na experiência das intensidades e das multiplicidades, através da arte e da literatura, como na geração do pensamento e do movimento para além da filosofia pela filosofia. Ora, nos Diálogos com Claire Parnet, publicados em 1977, uma década antes da produção de O Abecedário, Deleuze coloca a questão fundamental nestes termos:

Entre os gritos de dor física e os cantos do sofrimento metafísico, como traçar seu estreito caminho estoico, que consiste em ser digno do que acontece, em liberar alguma coisa de alegre e de apaixonante no que acontece, um clarão, um encontro, um acontecimento, uma velocidade, um devir? (Dialogues, 80)

As perspectivas de Deleuze sobre a amizade estão diretamente ligadas à definição particular que ele dá a seu projeto intelectual desde o início de sua carreira, definição que nos mostra ao mesmo tempo sua modéstia e seu espírito cortante, assim como o revela sua carta de 1973 a Michel Cressole:

Eu sou de uma geração, uma das últimas gerações que foram mais ou menos assassinadas com a história da filosofia. A história da filosofia exerce em filosofia uma função repressiva evidente. […] Na minha geração muitos não escaparam disso, outros sim, inventando seus próprios métodos e novas regras, um novo tom. Quanto a mim, “fiz” por muito tempo história da filosofia, li livros sobre tal ou qual autor. Mas eu me dava compensações de várias maneiras. (Pourparlers, 14).

Essas compensações consistiam no exame dos autores que ele julgava terem fortemente colocado em questão a tradição racionalista, notadamente Lucrécio, Hume, Espinosa e Nietzsche, tanto quanto Kant, que Deleuze trata por “inimigo”, mas autor que exige todavia um esforço de discernimento e de compreensão[1]. Segundo sua compreensão desse projeto, Deleuze era obrigado a recorrer a estratagemas de sobrevivência particularmente rigorosos:

Mas principalmente, minha maneira de me furtar a essa época era, penso eu, a de conceber a história da filosofia como uma espécie de enrabada, ou então, o que dá no mesmo, uma imaculada concepção. Eu me imaginava chegando pelas costas de um autor e lhe fazendo um filho, que seria seu e que todavia seria monstruoso. Que fosse seu era muito importante, porque o autor precisava efetivamente ter dito tudo aquilo que eu lhe fazia dizer. Mas que o filho fosse monstruoso era necessário também, porque era preciso passar por toda sorte de descentramentos, deslizamentos, quebras, emissões secretas que me deram muito prazer. (Pourparlers, 15)

Para os autores que correspondem a esse modo de “fazer” história da filosofia, Deleuze se refere à sua obra de 1962 sobre Nietzsche e àquela de 1966 sobre Bergson. Nietzsche em particular, diz Deleuze,

… me tirou de tudo isso, [já que] filhos pelas costas, é [Nietzsche] quem lhe faz. Ele dá um gosto perverso para cada um dizer coisas simples em seu próprio nome, de falar afetos, intensidades, experiências, experimentações. (Pourparlers, 15).

Graças a Nietzsche, Deleuze é aberto “às multiplicidades que atravessam [o indivíduo] de ponta a ponta, às intensidades que o percorrem” (Pourparlers, 16), quer dizer, a uma despersonalização, “o oposto da despersonalização operada pela história da filosofia, uma despersonalização de amor e não de submissão” (Pourparlers, 16). Essa abertura sobre a despersonalização e o amor leva Deleuze, no fim dos anos 1960, a dois projetos: Diferença e Repetição e Lógica do Sentido, aos quais podemos juntar seu primeiro livro sobre Espinosa. Guardando muito do “aparelho universitário”, segundo Deleuze, esses livros mostram apesar de tudo que “há alguma coisa que eu tento sacudir, de fazer mexer em mim mesmo, tratar a escritura como um fluxo, não como um código” (Pourparlers, 16). Um tal modo de leitura, Deleuze insiste, é

… [uma] maneira de ler em intensidade, em conexão com o fora, fluxo contra fluxo, máquinas com máquinas, experimentações, acontecimentos para cada um que não tem nada a ver com um livro, fragmentação do livro, colocado em funcionamento com outras coisas, não importa o que… etc., é uma maneira amorosa. (Pourparlers, 18)

Esse processo, certamente, não é fácil, pois ele situa a “pessoa” ao lado, ou em conexão com, a “linha do fora”: “O que é mais longínquo do que todo mundo exterior. Por conseguinte, é da mesma maneira o que é mais próximo do que todo mundo interior” (Pourparlers, 150), “chegando a dobrar a linha, para constituir uma zona vivível onde seja possível alojar-se, enfrentar, apoiar-se, respirar – em suma, pensar. Vergar a linha para chegar a viver sobre ela, com ela: caso de vida e morte” (Pourparlers, 151). Esse caso de vida e de morte não é menos importante do que aquilo que concerne às amizades, malgrado suas dificuldades e os riscos de decepção que elas envolvem.

Deleuze fala de um encontro crucial que tem lugar nesse momento da sua vida filosófica, por volta do fim dos anos 1960: “E depois, houve meu encontro com Félix Guattari” (Pourparlers, 16), descrito mais tarde como “um homem de grupos, de bandos ou de tribos, e entretanto um homem só, deserto povoado por todos esses grupos e por todos os seus amigos, por todos os seus devires” (Dialogues, 23). Deleuze fala da importância, para o seu trabalho, dessa colaboração e dessa amizade em diversos textos, e todos sublinham os laços significativos que Guattari pôde provocar no processo criador de Deleuze, e vice-versa, bem entendido. Por exemplo, na entrevista a Robert Maggiori, que segue a publicação, em 1991, de O que é a filosofia?, pouco antes da morte de Guattari, Deleuze diz:

Eu acredito que o que me mais me afetou, é que ele não seja filósofo de formação, que ele toma portanto, a respeito dessas coisas, muitas precauções; que ele seja quase mais filósofo do que ele seria se fosse filósofo de formação; e que ele encarna a filosofia em seu estado de criatividade (Maggiori, 1991, 17-18).

 

Salut, Deleuze!

Esse ângulo de aproximação a partir da amizade nos ajuda a ligá-la diretamente à dobra, mas, para fazê-lo, eu escolho um texto pouco ortodoxo, que entretanto corresponde plenamente ao humor deleuzeano: ou seja, que, a fim de deslocar essa discussão para além do túmulo[2], eu prefiro me apoiar numa revista em quadrinhos relatando a narrativa da viagem final de Deleuze atravessando o Aqueronte para reencontrar seus amigos do outro lado do rio. Publicado na Alemanha (primeiramente no diário Frankfurter Allgemeine Zeitung, depois como livro), Salut, Deleuze! de Martin tom Dieck e Jens Balzer mostra esse pensador sob uma luz totalmente nova. Os autores resumem Salut, Deleuze! no início do volume publicado seis anos mais tarde como continuação daquele primeiro texto:

Na primeira narrativa, o filósofo Gilles Deleuze, depois da sua morte, é levado pelo [rio] Lete[3] por Caronte, o barqueiro dos mortos. Mas na outra margem Deleuze reconhece seus amigos Michel Foucault, Roland Barthes e Jacques Lacan. Depois disso, Caronte reconduz sua embarcação para a margem dos vivos, onde Deleuze é novamente acolhido. A viagem se repete cinco vezes. Cinco vezes Caronte e Deleuze disputam para determinar se a repetição é a repetição do mesmo ou se ela é a condição possível da metamorfose de si. É a vida? É a morte? No fim do livro Caronte saúda pela última vez seu estimado passageiro, crendo tratar-se da última travessia. “A morte e a diferença não caminham juntas”, grita ainda o filósofo e desaparece na noite (Nouvelles Aventures, 4).

Salut Deleuze! By Martin Tom Dieck and Jens BlazerA primeira cena começa no campo, e o primeiro quadro anuncia o título Salut, Deleuze! por cima de uma estrada que continua no segundo quadro, onde se encontra um homem de pé sobre a relva; ele usa um chapéu e um casacão, e murmura simplesmente: “É bom aqui”. Em cima do terceiro e do quarto quadro, como palavras inscritas no céu, lemos: “Gilles Deleuze” (quadro 3), “filósofo, 1925 – 1995” (quadro 4), enquanto o homem passeia pela relva em direção ao rio, dizendo: “É melhor do que eu pensava”.  Depois ele bate à porta de uma casinha perto do rio atrás da qual se encontram o cais e um barco. No quinto quadro vemos de costas o homem na entrada da porta sempre fechada enquanto do interior ouve-se uma voz que diz: “Você deseja?”. O homem responde: “Meu nome é Deleuze”, e depois: “Eu sou esperado”; e com a porta aberta, um rosto e um corpo se revelam, dizendo: “É tarde”, frase à qual Deleuze responde: “Tive dificuldade de encontrar”. A única resposta é: “Ponha o dinheiro na mesa”. O quadro 8 mostra uma lâmpada acima de uma pequena mesa circular, uma garrafa e um copo postos ao lado de um livro intitulado (em inglês) As novas aventuras do incrível Orfeu (Salut, 5-7).

Eis os quadros pelos quais se abre a primeira sequencia de 36, que nos mostram a viagem de Deleuze atravessando à noite o sombrio rio em um barco conduzido por um barqueiro bastante descontraído. Notamos, por exemplo, que tendo remado um pouco, o barqueiro estende os remos a Deleuze para poder abrir uma cerveja enquanto eles continuam a conversar. O barqueiro diz: “Aqui embaixo o tempo se apaga diante da eternidade. Não tem tanto problema. Há quanto tempo você acha que eu faço isso?”. Deleuze o olha sem responder, os braços apoiados sobre os remos imóveis, enquanto o barqueiro pergunta: “E você? O que você pensava antes?”. A essa questão, Deleuze tem a oportunidade de oferecer ao barqueiro um exemplar de Diferença e Repetição (Salut, 8-10). Entretanto, o barqueiro se interessa por outra coisa inteiramente diferente, e pergunta ao filósofo: “Mas por acaso que você não teria uma última frase para mim?” (quadro 26). “Eu coleciono as últimas frases dos homens ilustres que deixaram o palco da vida”. E completa: “Você certamente é célebre, não?”. (quadro 27, Salut, II).

Antes de poder responder, Deleuze ouve a saudação: “Olá, Deleuze!” [Salut, Deleuze!] vinda do cais onde ele reconhece Barthes, que segura uma lâmpada, seguido por Foucault e Lacan. Barthes diz: “Veja só, nós não te esquecemos, caro Deleuze. Que bom que você veio” (quadro 30). “Pensamos em duas ou três coisas! Precisamos te contar! Precisamos conversar!” (quadro 31). Mas antes que a discussão comece, as palavras do barqueiro intervêm: “Diga! E vossa frase?”. Rodeado por Barthes, Foucault e Lacan, Deleuze olha para o barqueiro e responde: “Ah, sim! A frase! O que dizer…? O que você diz de me trazer na próxima vez algumas ervas?”. Enquanto o barqueiro deixa o cais remando em direção à obscuridade, a conversação recomeça no cais. Remando, o barqueiro olha por cima de seu ombro para a margem dos vivos, enquanto a silhueta longínqua dos quatro amigos é visível sob suas luzes. Enfim, sem dizer uma palavra, o barqueiro chega ao cais, deixa o barco segurando sua lâmpada e depois, no último quadro, senta-se à sua mesa para ler, quando ele ouve novamente o “ding-dong” da campainha (Salut, 12-13).

Em seguida a essa sequência inicial de 36 quadros, a narrativa ilustrada continua com quatro sequências ulteriores e, em cada uma, os autores exprimem uma homenagem singularmente retorcida, mas também uma crítica fascinante de Diferença e Repetição, sobre os planos formal e substancial[4]. Primeiro, que Martin tom Dieck e Jens Balzer dirijam-se ao mesmo tempo seriamente e de um modo lúdico nesta obra de uma dificuldade notória, isso constitui um gesto de audácia intelectual tanto quanto de amizade comprometida [5]. Além disso, a seção de conclusão em cada sequência (os quadros 28-33) põe em cena a amizade de vários pensadores que mantiveram sem dúvida relações de simpatia na vida, mas que acabaram ficando distintamente muito afastados uns dos outros. A imagem dos três que esperam com impaciência a chegada de Deleuze na outra margem é ainda um modo de zombar gentilmente desses célebres intelectuais franceses[6].

Sublinhamos por fim alguns outros elementos importantes: por um lado, as dobras em Salut, Deleuze! são complicadas pelo pormenor do título de um livro que reaparece sobre a mesa do barqueiro na primeira e na última sequência, a saber, na continuação de Salut, Deleuze!, Les nouvelles aventures de l’incroyable Orphée[7]. Além disso, os detalhes criativos e biográficos em Salut, Deleuze! sublinham uma aproximação fortemente valorizada por Deleuze, a da possibilidade e da necessidade de criar a filosofia por práticas que saiam da filosofia, quer dizer, a filosofia por outros meios (ver O Abecedário, “C de Cultura”). Martin tom Dieck exprime bem essa aproximação: “Sua filosofia funcionou então como uma nascente de inspiração para construir discursos. Todavia, como desenhista, tornei-me assim deleuzeano sem querer e sem saber” (tom Dieck, s.p.). Esse tipo de criatividade me conduz novamente ao deslocamento do ângulo de aproximação a fim de considerar como poderemos traduzir essa visão em termos de amizade e de rede de vínculos filosóficos nos livros de Deleuze, sobretudo em termos de dobra, como a entende Deleuze em seu livros sobre Leibniz e o barroco.

 

A dobra e o túmulo

Um momento ao mesmo tempo divertido e revelador se apresenta em O Abecedário, justamente na seção “C de Cultura”, quando Deleuze fala da possibilidade de sair da filosofia pela própria filosofia. Ele se refere ao seu livro A dobra: Leibniz e o barroco como um exemplo desse processo de fazer filosofia de outra maneira. Em seguida à publicação do livro, Deleuze começou a receber cartas de diferentes leitores, não limitados à comunidade filosófica ou acadêmica. Uma carta vinda de um representante de um grupo de 400 dobradores de cartas lhe dizia: “Sua história da dobra, somos nós!”. Depois uma outra carta chegava, de um grupo de surfistas que lhe diziam que jamais paravam de se inserir nas dobras da natureza, nas dobras da onda (a vida ali dentro como a própria tarefa de sua existência). Para Deleuze, tais intercâmbios não apenas ofereciam o movimento que ele constantemente perseguiu para além da filosofia pela filosofia, mas ofereciam também o gênero de encontros que ele buscava em todas as suas atividades ligadas à cultura – no teatro, nas exposições de arte, no cinema e na literatura – a fim de engajar-se na possibilidade mesma do pensamento e da criação.

A dobra é de uma importância primeira para Deleuze, não somente como conceito filosófico, mas também como meio prático para desenvolver, manter e apreciar toda sorte de empilhamentos entre as ideias e as práticas culturais e existenciais. Podemos seguir uma trajetória segundo a qual as ligações-chave entre a dobra e a amizade se revelam plenamente, por exemplo, através da observação feita por Deleuze acerca da sensibilidade barroca, ao mesmo tempo nas obras de Mallarmé e de Leibniz. Trata-se de um jogo do verbal e do visual que Deleuze resume como “um novo tipo de correspondência ou de expressão mútua, ‘entr’expressão’, dobra conforme dobra” (Le pli, 44). Para Deleuze, essa dobra conforme dobra serve como costura ao longo da qual podem-se fazer novos franzidos, notadamente, com o livro de Henri Michaux La vie dans les plis, com a composição de Pierre Boulez Pli selon pli, inspirada por Mallarmé, e com a pintura de Hantaï, isto é, com seu método de construir por plissagens (Le pli, 47-48)[8].

Eu me proponho recolocar a costura que Deleuze estabelece a partir da prática mallarmeana de diversas expressões poéticas da amizade. Embora o “túmulo” seja um gênero de peças de circunstância que deu a Mallarmé um certo renome, nos “leques” (poemas escritos em leques e oferecidos como presente) inscrevem-se palavras poéticas para os vivos, palavras que se dobram e desdobram, abrem e fecham materialmente, agitam-se como texto, aparecem e desaparecem nos leques,  as expressões ondulam entre a dobra do mundo e a dobra da alma. Algumas outras formas de peças de circunstância (relançando a “poesia de ocasião” como diz Marian Sugano) são os agradecimentos de Mallarmé escritos em cartões de visita, as quadras escritas em cartões postais e construídas após o nome e o endereço do destinatário sob forma poética, inscrições poéticas sobre calhaus, jarras, ovos de páscoa e outros presentes. Que a reflexão de Deleuze sobre o barroco e a dobra ponha em jogo tão diretamente essas diversas formas de texto poético sugere, ao meu modo de ver, que Deleuze compreende muito bem as numerosas nuances da dobra da e na amizade, através da prática de tais intercâmbios.

A fim de seguir a linha de reflexão sobre a dobra que Deleuze traça, podemos sublinhar suas próprias práticas de camaradagem intelectual. Essas práticas, certamente, não se parecem com os modos de expressão adotados por Mallarmé, mas, estando dados os meios de que dispõe, Deleuze produz outros tipos de leques, por exemplo, em O Abecedário, nas Conversações, e nos textos e entrevistas recolhidos por David Lapoujade em A Ilha Deserta e outros textos (2002) e Dois regimes de loucos e outros textos (2003)[9].  Um escrito em particular, “Os rincões de imanência” (1985), corresponde à prática bem conhecida e bem estabelecida dos perfis de obras de escritores contemporâneos. Publicado em um volume de “Mélanges” [Misturas] em homenagem ao filósofo, historiador e tradutor Maurice de Gandillac, um dos professores de Deleuze na Sorbonne durante os anos 1940 e um amigo durante sua vida inteira, essas poucas páginas são publicadas no momento em que Deleuze prepara ao mesmo tempo Foucault e A Dobra: Leibniz e o barroco. Os quatro parágrafos desse elogio são notáveis sobretudo em sua maneira de valorizar as dobras da amizade – ao mesmo tempo reenviando o leitor à reflexão de Gandillac sobre esse mesmo tema.

A ótica de Deleuze nesse breve escrito se desloca de reflexões sobre Leibniz para observações a respeito de seu antigo professor, “a maneira pela qual ele valoriza esse jogo da imanência e da transcendência, essas incitações de imanência da Terra através das hierarquias celestes” (Deux régimes, 245). Para Deleuze, os textos de Gandillac abrem sobre “um conjunto de conceitos, lógicos e ontológicos, que caracterizarão a filosofia dita moderna através de Leibniz e dos românticos alemães” (Deux régimes, 245). Depois de ter citado um bom número de obras e de conceitos fundamentais que ele atribui à pesquisa de Gandillac, Deleuze invoca a importância geral, “o estranho teor e riqueza” do trabalho de seu mestre:

Reconhecer o mundo das hierarquias, mas ao mesmo tempo fazer passar nisso esses rincões de imanência que o abalam bem mais do que numa intervenção direta, essa é uma imagem de vida inseparável de Maurice de Gandillac… É uma arte de viver e de pensar que Gandillac sempre exerceu e reinventou. E que é seu sentido concreto da amizade (Deux régimes, 245-246).

A referência que Deleuze faz aqui da amizade – num texto tão obscuro  de Gandillac, “Approches de l’amitié” (1945) – nos oferece uma dobradura na dobra da amizade. O desenvolvimento de Gandillac sobre as diversas distinções filosóficas entre amor e amizade estabelece ressonâncias implícitas com as reflexões ulteriores de Deleuze sobre a amizade, sobretudo em Diálogos e n’O Abecedário. “A amizade pura, diz Gandillac, não existe mais do que o amor puro”, mas em contraste com o amor, a amizade resta “a forma ideal da relação especificamente humana” (Approches, 57). Gandillac persegue o paradoxo da amizade quando sugere:

Tenho direito à amizade do primeiro vindo, como ele merece a minha, e passamos um após o outro sem que nos vejamos… Para além de uma simpatia presente, para além de uma emoção comum, ela exige um tipo de atenção da qual poucos homens são capazes… As ligações verdadeiras se amarram quase sem nossa consciência, levando-nos a consolidá-las (Approches, 59).

Ao passo que a amizade não apague forçosamente o peso dessa ausência opressora, “ela nos provoca a ultrapassar nossa solidão sem nos perder no anonimato de uma falsa comunidade” (Approches, 62). Essa atitude nos permite então “acolher simplesmente a ‘familiaridade’ do amigo sem mise en scène, sem programa fechado… Deixar lugar ao acaso, ao silêncio, à inspiração, à ausência mesmo, tal é talvez o segredo de um acordo que define toda técnica (Approches, 64). O encontro fundamental na base da amizade, árduo ao mesmo tempo que benfazejo, permite compreender que não há garantia alguma, estado de coisas completamente normal, uma vez que “a amizade perderia sem dúvida o que faz sua verdadeira recompensa se conhecêssemos métodos infalíveis para fazê-la vingar” (Approches, 67). Esses “riscos mortais” são precisamente aqueles, diz Gandillac, que a espécie humana deve aceitar “livremente, lucidamente, simplesmente”, a fim de que a existência humana mantenha sua substância fundamental (Approches, 67).

É evidente que Deleuze inflecte essas ideias, esses diversos princípios sobre a amizade segundo as suas próprias experiências e encavalamentos, tanto quanto contradições se revelam entre seu pensamento e o de Gandillac a esse respeito. Por exemplo, como mencionado acima, Deleuze diz a Parnet n’O Abecedário que, segundo ele mesmo, a amizade não tem nada a ver com a fidelidade, e tudo a ver com a percepção do charme que os indivíduos emitem. Deleuze concorda então com a compreensão proustiana da amizade, mantendo que nos tornamos sensíveis a um certo tipo de emissão de signos e, queiramos recebê-los ou não, podemos apesar de tudo abrirmo-nos para acolhê-los (F de Fidelidade).  Além disso, Deleuze dá provas de uma compreensão bem particular da amizade quando diz a Parnet que uma pessoa tende a revelar seu charme através de um certo tipo de demência: segundo ele, o lado das pessoas “em que elas perdem as estribeiras”, onde elas não sabem muito bem onde estão, por isso um pequeno “ponto de demência” (F de Fidelidade). Entretanto, essas emissões consistem em numerosos vetores, ou linhas, que Deleuze descreve em Diálogos como “toda uma geografia nas pessoas, com linhas duras, linhas flexíveis, linhas-de-fuga, etc.”, e ele pergunta:

Mas o que é precisamente um encontro com alguém que se ama? É um encontro com alguém, ou com animais que nos vêm povoar, ou com ideias que nos invadem, com movimentos que nos comovem, sons que nos atravessam? E como separar essas coisas? (Dialogues, 17).

Um último encavalamento se situa na distinção entre a amizade pura e o tipo humano, distinção que constitui novamente uma estratégia de entre-dois que tanto Gandillac como Deleuze exploram cada qual a seu modo (como o fez alhures Mallarmé com seus leques e seus túmulos), quer dizer, pelos encontros nos quais não recebemos garantia alguma. A esse respeito, o percurso seguido acima, que recolhe um feixe de textos e de referências, reorienta-se sobre a concepção deleuzeana do encontro e sobre as respostas ao seu livro sobre Leibniz; depois, no livro sobre Leibniz, sobre como a dobra se desenvolve a partir das perspectivas leibnizianas e barrocas; depois, na obra de Mallarmé, sobre seu desdobramento das dobras e da amizade; nos escritos de Deleuze, sobre sua extensão particular da amizade ao domínio das relações colegiais, notadamente na sua homenagem a Gandillac; no capítulo deste sobre a amizade; depois, sobre o modo pelo qual essas perspectivas enunciadas durante os anos 1940 transformam-se quarenta anos mais tarde no pensamento de Deleuze, sobretudo no que concerne ao encontro com respeito à amizade.

 

Deleuze milenar

Uma maneira de abordar as diversas práticas textuais ligadas à expressão “Deleuze milenar”, sobretudo em conexão com as dobras e com a amizade, é evocar a frase apócrifa de Michel Foucault: “Mas um dia, talvez, o século será deleuzeano” (Dits et écrits, 2:76). Como o assinalei em outro lugar, apropria-se e compreende-se mal a frase de Foucault como uma homenagem a Deleuze desprovida de ambiguidade (ver Stivale, 236). Felizmente, nem Foucault e nem Deleuze se enganaram acerca do valor real dessa enunciação pseudo profética. Para Deleuze, tratava-se de uma manifestação do “sentido de humor diabólico” de Foucault, mas também da sugestão explícita de que Deleuze era “o mais ingênuo entre os filósofos de nossa geração,… não o mais profundo, mas o mais inocente” (Maggiori, 1995, 9). Para Foucault, a explicação é mais complexa: essa frase do artigo consagrado a Diferença e Repetição e à Lógica do Sentido de 1970, “Theatrum philosophicum” (Dits et écrits, 2:75-99), era dirigida aos iniciados parisienses na obra de Deleuze como uma espécie de piscada de olhos. Mas por essa frase ele queria também sugerir que “o século”, quer dizer, a opinião secular e mesmo popular, reconhecer-se-ia um dia como deleuzeana, um desenvolvimento do qual o valor, no seu modo de ver, seria talvez benéfico ou nocivo (Dits et écrits, 3:589). Coisa curiosa, entretanto: tendo escrito essa frase assim, apesar da ironia implícita para o uso dos iniciados, Foucault forneceu involuntariamente aos especialistas de marketing das editoras exatamente aquilo de que eles tinham necessidade para tornar a obra de Deleuze também “secular”, conforme eles queriam[10].

Referindo-me a esse acontecimento particular de citação e meta-citação, e também a seu jogo entre Foucault e Deleuze e além, tenho a intenção de prosseguir a discussão em três sentidos: de início com uma justaposição necessária de A Dobra: Leibniz e o barroco e o volume-gêmeo, Foucault. À parte o cruzamento temporal e conceitual entre esses dois textos, cada um deles revela a extrema generosidade de Deleuze; e isso não seria assim senão em função de seu desenvolvimento inicial e recíproco dentro do contexto pedagógico dos seminários de Deleuze, antes de sofrer o processo rigoroso de remodelação, de destilação e de redação. Ora, como por um tipo de efeito ondulatório, essa complexidade de desenvolvimento me obriga a seguir um segundo sentido, ou seja, a considerar a questão persistente e necessária sobre o que Deleuze queria dizer justamente por “a dobra”. A resposta mais simples é que esse conceito não pode corresponder a um único sentido. Ele pode querer dizer dobra conforme dobra, o movimento de dobra em dobra que implica ainda um movimento em, no interior de e através do envolvimento da desdobra em direção à redobra seguinte. Ele pode querer dizer entr’expressão que manifesta esse movimento ondulatório e criativo, tanto quanto a expressão contínua e constante do atual emanando do virtual, o estado nascente do virtual que se destina ao atual. Nessa perspectiva, toda tentativa de limitar uma individuação como a representante singular da “dobra” trairia, evidentemente, o sentido de heterogeneidade dos movimentos e da continuidade dos devires que caracterizam o conceito.

Esse movimento heterogêneo me ajuda a redobrar essa discussão em direção ao que foi dito mais acima a respeito de Salut, Deleuze! a fim de seguir um terceiro sentido. Pois a homenagem a Deleuze na revista em quadrinhos, como também a frase de Foucault já evocada, partilham do duplo gesto, de modo complexo e profundo, de generosidade e de humor. Esses gestos me parecem indicar a via para refletir sobre o devir secular de Deleuze, por assim dizer, na virada do século, e sobretudo sobre a maneira pela qual esse devir se liga às dobras da amizade. Assim como Salut, Deleuze! reproduz com humor a complexidade das diversas facetas do pensamento de Deleuze à guisa de pano de fundo para ultrapassar o túmulo, nos seus dois sentidos, a frase de Foucault constitui uma verdade possível (e talvez profunda), mas de um modo que não nos oferece uma explicação simples ou complexa, e que compreende o humor foucauldiano que Deleuze tinha tanto apreciado.

À luz dessas dobras e desdobras, podemos melhor considerar uma contradição, ou ao menos um paradoxo, na perspectiva deleuzeana sobre a amizade. Já me debrucei em outros lugares sobre as conexões complexas entre Deleuze, Derrida e Foucault, às quais a apreciação coletiva da obra de Maurice Blanchot serviu de base comum (ver Stivale, Fold of Friendship). A relativa raridade de textos nos quais Deleuze desenvolve em detalhe suas perspectivas sobre Blanchot sugere a necessidade de considerar plenamente, e com um olho crítico, a compreensão deleuzeana ao mesmo tempo da amizade e do conceito de impessoal. Esses limites introduzem todavia dobras curiosas no modo como os autores, próximos e distantes, engajam-se um ao avesso do outro; e eu ligo essas perspectivas novamente a Salut, Deleuze!, já que essas críticas e essas homenagens de dupla-face, ao mesmo tempo cômicas e sérias, sugerem o paradoxo assinalado acima: malgrado o desejo de ultrapassar o túmulo venerado a fim de atingir a potência do impessoal, sente-se apesar de tudo a atração, de alguma maneira inexorável, do pessoal, sobretudo no modo pelo qual ele penetra nas dobras da amizade.

Entretanto, podemos também compreender essas expressões na perspectiva que Deleuze enunciou em seu último escrito, A imanência: uma vida (ver Deux régimes, 359-363), onde ele considera a singularidade expressa pelo artigo indefinido. A dobra exprime o jogo de uma vida, ou de uma criança, ou de uma obra ao longo da crista ou da costura da imanência, dos “rincões de imanência”, para retomar a fórmula de Deleuze falando de seu professor e amigo, Maurice de Gandillac. Nesse sentido, podemos compreender melhor os diversos gestos poéticos e lúdicos de amizade manifestados por Mallarmé nos seus leques, nos ovos, nos cartões postais… Nenhum desses modos de expressão representa, por si mesmo, as dobras da amizade, mas todos contribuem para uma obra que se dobra deliberadamente naquilo que o poeta concebeu como O Livro, mas que era, com efeito, um Livro, no sentido da imanência que compreende tudo aquilo que ele exprimiu poeticamente. Do mesmo modo, Deleuze diz a Parnet n’O Abecedário que a criação funciona fundamentalmente como um modo de resistência. Ele cita Primo Levi a fim de sugerir que o artista é aquele que libera uma vida, uma vida potente, uma vida mais que pessoal, e não somente sua vida (“R” de Resistência). Ora, à objeção de Parnet sobre o suicídio de Levi, indicando que a arte talvez não seja suficiente para realizar tal liberação, Deleuze responde com rigor que sim, Levi suicidou-se “pessoalmente”, incapaz de carregar o fardo de sua vida pessoal; mas as palavras e as obras de Primo Levi restam todavia como aquilo que Deleuze chama de “resistências eternas”, impessoais, para além da instância dos acontecimentos pessoais.

Enfim, as dobras da amizade, em Deleuze, colocam em relevo toda uma trama de elementos entrecruzados em seus escritos, as relações das dobras da amizade oferecendo um meio de conceitualizar o entre-dois, a entr’expressão no pensamento de Deleuze. Parece-me que o conceito de dobra, ponderado e desenvolvido por volta do final da vida de Deleuze, ajuda-nos a compreender os conceitos enunciados em suas obras mais antigas. Mas a dobra como conceito tem também o mérito de valorizar o jogo específico desses outros conceitos, enquanto suscita o processo de “dobra conforme dobra”; o movimento ondulatório, dinâmico e recorrente de uma dobra após um outra, jamais melhor expresso do que nas dobras da amizade.


Texto publicado originalmente em: Deleuze Épars, dir. André Bernold & Richard Pinhas. Paris, Hermann Éditeurs, 2005.

Imagem destacada do post: Simon HantaÏ, 1976 © Edouard Boubat.


Bibliografia

Yannick BEAUBATIE (dir.), Tombeau de Gilles Deleuze. Tulle, Mille Sources, 2000.

Haroldo de CAMPOS, “Barroco-ludisme deleuzien”, in Gilles Deleuze, Une vie philosophique, dir. Éric Alliez. Les Plessis-Robinson, Institut Synthélabo, 1998.

Gilles DELEUZE, Nietzsche et la philosophie. Paris, Presses universitaires de France, 1962.

Gilles DELEUZE, Le Bergsonisme. Paris, Paris, Presses universitaires de France, 1966.

Gilles DELEUZE, Différence et répétition. Paris, Presses universitaires de France, 1968.

Gilles DELEUZE, Spinoza et le problème de l’expression. Paris, Éditions de Minuit, 1968.

Gilles DELEUZE, Logique du Sens. Paris, Éditions de Minuit, 1969.

Gilles DELEUZE, Proust et les signes. Paris, Presses universitaires de France, 1976.

Gilles DELEUZE, “Les plages d’immanence”, in L’art des confins. Mélanges offerts à Maurice de Gandillac, dir. Anne Cazenave & Jean-François Lyotard. Paris, Presses universitaires de France, 1985 (repris en Deux régimes de fous et autres textes).

Gilles DELEUZE, Foucault. Paris, Éditions de Minuit, 1986.

Gilles DELEUZE, Le pli. Leibniz et le barroque. Paris, Éditions de Minuit, 1988.

Gilles DELEUZE, Pourparlers. Paris, Éditions de Minuit, 1990.

Gilles DELEUZE, L’Ile déserte et autres textes, éd. David Lapoujade. Paris, Éditions de Minuit, 2002.

Gilles DELEUZE, Deux régimes de fous et autres textes, éd. David Lapoujade. Paris, Éditions de Minuit, 2003.

Gilles DELEUZE & Félix GUATTARI, L’Anti-Oedipe. Capitalisme et schizophrénie. Paris, Éditions de Minuit, 1972.

Gilles DELEUZE & Félix GUATTARI, Kafka. Pour une littérature mineure. Paris, Éditions de Minuit, 1975.

Gilles DELEUZE & Félix GUATTARI, Mille plateaux. Capitalisme et schizophrénie. Paris, Éditions de Minuit, 1980.

Gilles DELEUZE & Félix GUATTARI, Qu’est-ce que la philosophie?. Paris, Éditions de Minuit, 1991.

Gilles DELEUZE & Claire PARNET. Dialogues. Paris, Flammarion, 1977 (rééd. 1996).

Gilles DELEUZE & Claire PARNET. L’Abécédaire de Gilles Deleuze, dir. Pierre-André Boutang. Paris, Video Éditions-Montparnasse, 1966.

Michel FOUCAULT, Dits et écrits. Paris, Gallimard, 1994 (4 vol.).

Maurice de GANDILLAC, “Approches de l’amitié”, in L’Éxistence, éd. A. de Waehlens. Paris, Gallimard, 1945.

Félix GUATTARI, Les années d’hiver, 1980-1985. Paris, Barrault, 1986.

Robert MAGGIORI, “Deleuze-Guattari: Nous-Deux”, dans Libération, 12 septembre 1991.

Robert MAGGIORI, “Un ‘courant d’air’ dans la pensée du siècle”, in Libération, 6 novembre 1995.

Jean-Luc NANCY, “Le pli deleuzien de la pensée”, in Gilles Deleuze. Une vie philosophique, dir. Éric Alliez. Le Plessis-Robinson, Institut Synthélabo, 1998.

Charles J. STIVALE, The Twofold Thought of Deleuze and Guattari: Intersections and Animations. New York, Guilford, 1998.

Charles J. STIVALE, “The folds of friendship: Derrida-Deleuze-Foucault”, in Angelaki, 5.2, 2000.

Marian Zwerling SUGANO, The poetics of the Occasion. Mallarmé and the Poetry of Circumstance. Standford, Standford University Press, 1992.

Martin tom DIECK & Jens BALZER, Salut, Deleuze! Bruxelles, Fréon Édition, 1997.

Martin tom DIECK & Jens BALZER, Nouvelles Aventures de l’Incroyable Orphée. Bruxelles, Fréon Édition, 2002.

Martin tom DIECK & Jens BALZER, “Entretien avec Martin tom Dieck”, sur http://www.fremok.org/entretiens/tomdiecknouvelles.htm (20 juillet 2004)

Arnaud VILLANI, “Mallarmé selon le pli deleuzien”, in Tombeau de Gilles Deleuze. Tulle, Mille Sources, 2000.


Notas

[1] Ver igualmente Dialogues para as reflexões sobre essa formação (Dialogues, 18-26). [N. do A.]

[2] Notar que “tombeau”, em francês, designa tanto “túmulo” como “composição poética ou obra musical composta em honra de alguém”. [N. do T.]

[3] Em grego, Léthe, rio do esquecimento. [N. do T.]

[4] Sobre o plano formal, os autores brincam com a sequência de diálogos e de quadros repetindo sempre a mesma ilustração no mesmo quadro em cada sequência, com exceções aparentemente menores que juntam pouco a pouco nuances a essas ilustrações e criam assim diferenças formais graças às repetições. No plano substancial, a narrativa de desenrola segundo as repetições sucessivas da passagem do rio da morte, mas também com um debate que se desenvolve entre o filósofo e Caronte, o barqueiro que recebe o mesmo exemplar de Diferença e Repetição durante as quatro travessias e se põe a lê-lo (o livro aparece sobre a mesa da casinha nos quadros 4 das sequências 2, 3 e 4). Depois, em cada conversa com Deleuze, o barqueiro formula cada vez mais objeções aos argumentos do filósofo. Quando o barqueiro rejeita a quinta e última oferta do livro de Deleuze, ele diz ao filósofo: “Sua eternidade não tem nada a ver com a repetição. Sua eternidade sou eu… Eu sou o fim… A eternidade é o fim… O fim e a saída” (quadros 25-28, Salut, 47). Como já o anotei, é a Deleuze que revém a palavra do fim, mas ele a diz para satisfazer ao pedido (da primeira sequência) do barqueiro por uma “última frase”: “Mesmo que tenha nos agradado: a morte e a diferença não andam juntas” (quadro 32, Salut, 48). [N. do A.]

[5] A representação de Deleuze nesse livro não é isenta de uma certa malícia verdadeiramente doce, por exemplo, quando o filósofo promove o seu livro um tanto energicamente, e depois, quando explica sua filosofia pontuando diversas de suas frases com a questão professoral: “Endenteu?”. [N. do A.]

[6] Por exemplo, “Lacan já escreveu uma palavra. Mas a carta foi roubada” (sequência 3, Salut, 31). “É bom que você esteja aqui. Foucault se preparava para nos ler um pequeno poema, sobre o eu” (uma recitação de trechos de As Palavras e as Coisas “Como no limite do mar um rosto de areia [o homem desaparecerá]”, sequência 4, Salut, 37). E “Barthes nos mostra fotografias de sua mãe” (sequência 5, Salut, 48). Em uma entrevista disponível na Internet, Martin tom Dieck responde à objeção segundo a qual sua representação desses filósofos seria muito caricatural: “A questão de saber se eu simplifiquei demais seu personagem não me interessa. Eu o tomei não como filósofo, mas na medida em que ele tinha um lado engraçado enquanto humano [com seus óculos e suas unhas compridas], um aspecto que me serviu bem em minha revista em quadrinhos” (tom Dieck, s.p.). [N. do A.]

[7] O segundo volume ilustrado contém cinco episódios, “O retorno de Deleuze”, partes I e II, “As aventuras do incrível Orfeu”, partes I e II, e “As novas aventuras do incrível Orfeu” [grifo nosso]. [N. do A.].

[8] Ainda que outros autores tenham desenvolvido muito bem a conexão entre a poética de Mallarmé e a filosofia de Deleuze – notadamente Arnaud Villani (em Tombeau de Deleuze) e Jean-Luc Nancy e Haroldo de Campos (em Gilles Deleuze: une vie philosophique), nenhum colocou a questão de saber como esse entrecruzamento se liga à amizade, nem como ele compreende as formas poéticas como o túmulo [no sentido de réquiem poético. N. do T.], e algumas outras. [N. do A.]

[9] Seguindo o período relativamente curto de 1972 e 1990, sabemos que Conversações contem diversas cartas de Deleuze (por exemplo, a Michel Cressole, a Serge Daney e a Reda Bensmaïa), entrevistas (apenas Deleuze e com Guattari) sobre uma gama de assuntos, de O Anti-Édipo às “sociedades de controle” (com Toni Negri), e algumas peças de circunstância sobre o cinema e a política. Os volumes mais recentes, A Ilha Deserta e Dois regimes de loucos, correspondem respectivamente a textos, prefácios e relatórios da primeira parte da carreira de Deleuze (1953-1974), depois da última parte (1975-1995). Em cada volume, Deleuze saúda não apenas a força criativa de escritores, cineastas e músicos (como Raymond Roussel, Jarry, Jacques Rivette, Pierre Boulez, Daniel Schmidt), mas também de seus contemporâneos (como Jean Hyppolite, Gilbert Simondon, Michel Foucault, Kostas Axelos, Hélène Cixous, Guy Hocquenghem, Maurice de Gandillac e Antonio Negri).

[10] Aqui, textualmente, o esclarecimento de Michel Foucault: “Era 1970 – muito pouca gente conhece Deleuze, alguns iniciados conhecem sua importância, mas um dia virá em que talvez ‘o século será deleuzeano’, quer dizer, o ‘século’ no sentido cristão do termo, a opinião comum oposta à elite, e eu diria que isso não impedirá que Deleuze é [sic] um filósofo importante. Foi em seu sentido pejorativo que eu empreguei a palavra ‘século’”.  (Dits et écrits, Quatro-Gallimard, II, p. 589).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s