Entrevista a Lizze James em 1967

 

Lizze James – Acho que os admiradores dos Doors o encaram como um salvador, um líder messiânico que os libertará. O que você acha? Essa não é uma imensa responsabilidade?

Jim Morrison – Isso é um absurdo. Como se pode libertar alguém que não tem coragem para levantar-se e proclamar sua própria liberdade? Acho que não é nada disso. As pessoas declaram que querem ser livres – todos afirmam categoricamente que a liberdade é o que mais almejam, e que é o bem mais precioso que alguém possa querer. Mas Merda! As pessoas temem a liberdade e conservam cuidadosamente suas próprias correntes. Pela segurança… Como podem esperar de mim ou de outro a liberdade?

Lizze James – Por que acha que as pessoas temem a liberdade?

Jim Morrison – Penso que as pessoas resistem à liberdade, pois têm medo do desconhecido. Mas aí está grande ironia… O desconhecido já foi certa vez bem conhecido. Nossas mentes já o detiveram… A única solução é confrontá-lo. Confronte-se você mesmo com o grande medo imaginário. Depois disso, o medo não terá mais poder, e o temor à liberdade se desvanecerá por completo.

Lizze James – O que entende por “liberdade”?

Jim Morrison – Existem diversos tipos de liberdade, como também milhares de abordagens sobre o assunto… A espécie mais importante de liberdade é aquela que lhe assegura o direito de ser o que realmente é. Seu desempenho na realidade sempre se efetua por meio de um papel a ser representado. Você descarta sua capacidade de sentir e, na verdade, coloca uma máscara. Não se pode efetuar uma revolução em larga escala se não houver primeiramente uma pessoal, individual. A revolução tem de eclodir primeiramente dentro… Você pode não abalar uma pessoa tirando sua liberdade política, mas coibindo sua liberdade de sentir, decerto a destruirá.

Lizze James – Como as pessoas podem ter forças para recuperar essa liberdade de sentir?

Jim Morrison – Muitas pessoas cerceiam voluntariamente sua liberdade, mas outras são forçadas a isso. O aprisionamento inicia-se com o nascimento. A sociedade e o país coíbem a liberdade que nasceu em você. Existem várias maneiras de punir uma pessoa para podar-lhe a sensibilidade. Você observa pessoas que destruíram sua verdadeira natureza. Você imita o que vê.

Lizze James – Segundo suas palavras, somos defensores e perpetuadores de uma sociedade que cerceia as pessoas de uma liberdade de sentir?

Jim Morrison – É claro… Professores, líderes religiosos e até amigos, aqueles que chamamos de “amigos”, levam o pouco que os pais deixaram. Eles nos impõem sentir apenas o que querem e apenas isso esperam de nós. Querem que desempenhemos o tempo todo para eles. Somos como atores – vagando por esse mundo como fantasmas… Uma busca sem fim para recuperarmos a imagem semi-esmaecida de nossa realidade perdida. Quando os outros nos obrigam a ser o que querem que sejamos, forçam-nos a destruir o que na verdade somos. É uma forma sutil de assassinato… Os pais mais adorados e parentes próximos cometem esse assassinato com sorrisos nos lábios.

Lizze James – Você acha que é possível uma pessoa libertar-se sozinha dessas forças repressivas?

Jim Morrison – Este tipo de libertação não pode ser concedida. Você deve buscá-la por si próprio. Se procurar alguém para fazê-lo (alguém que não seja você), estará ainda dependendo dos outros. Estará ainda vulnerável a essas forças repressivas e malignas.

Lizze James – Mas não seria possível a união das pessoas que almejam a liberdade? A comunhão de suas forças as tornaria muito mais poderosas. Creio que isso é bem viável.

Jim Morrison – Os amigos podem ajudar-se mutuamente. O verdadeiro amigo é aquele que lhe dá espaço para que possa ser aquilo que você é (ou melhor, aquilo que você sente). Ou não sente… O amor consiste justamente nisso: Deixar a pessoa ser o que realmente é … Muitos o amaram por aquilo que você pretende ser… Manter essa admiração é manter esse comportamento. Você terá de manter suas pretensões… Na verdade, estamos encalacrados dentro de uma imagem, de um comportamento. As pessoas crescem atadas a essas máscaras. Amam intensamente suas correntes. Esqueceram tudo a respeito daquilo que realmente são. E se você tenta alertá-las, odeiam-no por isso. Pensam que está assaltando seu tesouro mais precioso.

Lizze James – É lamentável e irônico. Eles não percebem que você está tentando mostrar-lhes o caminho para a liberdade?

Jim Morrison – Muita gente não sabe o que está perdendo. Nossa sociedade supervaloriza o controle, obrigando-nos a ocultar todo o tipo de sentimento. Nossa cultura denigre as culturas ditas “primitivas” e se orgulha de suprir todos os instintos naturais e impulsos.

Lizze James – Em sua obra poética, transparece sua admiração pelos povos primitivos, principalmente índios. Você acha que o caráter obtuso e destruidor não é inerente à humanidade, mas apenas a nossa sociedade?

Jim Morrison – Observe como essas culturas vivem: Pacificamente, harmonizando-se com a terra, floresta e animais. Não constroem poderosas engenhocas para atacar outros países que não concordam com seus ideais políticos, nem investem milhões nesse tipo de empresa.

Lizze James – Vivemos numa sociedade doente.

Jim Morrison – É verdade… E apesar de estar enferma, não nos damos conta disso. Nossa sociedade tem muito que aprender a valorizar. A liberdade é um item que está no final da lista.

Lizze James – Mas, como artista, você não pode fazer nada? Se você não se sente como um artista que pode transformar alguém, como continua a cantar?

Jim Morrison – Ofereço imagens, conjuro memórias da liberdade que podem ainda ser alcançadas. Como os Doors, certo? Mas apenas podemos abrir as portas – não podemos arrastar as pessoas por elas adentro – Somente libertarei se realmente quiserem – mais do que isso… Talvez os povos primitivos tenham menos merda para desvencilhar. Uma pessoa tem de voluntariamente abandonar tudo. Toda a merda que lhe foi ensinada – a sociedade é uma lavagem cerebral. Você deve abandonar tudo isso para tentar entrever o outro lado, mas a maioria das pessoas não está disposta.

Lizze James – No seu primeiro disco, existe uma visão apocalíptica bem definida – “rompendo através” – de uma transcendência. Você crê ainda nisso hoje em dia?

Jim Morrison – Agora é diferente (pausa). Parece que se torna possível gerar um movimento – pessoas levantando-se juntas num protesto em massa, recusando-se a ser reprimidas, unindo suas forças para romper aquilo que William Blake denominou “os grilhões que forjaram a nossa mente”… A época do amor nas ruas é finda. Com certeza, pode-se pensar numa transcendência para eles – mas não ao nível de massa, nem ao de uma rebelião geral. E chegada a hora da rebelião individual – cada um por si, como se diz. Salve-se quem puder. A violência nem sempre é má. Porque o mal é a paixão louca unida à violência.

Lizze James – Mas o que provoca isso?

Jim Morrison – A energia primal e os impulsos reprimidos por muito tempo transformam-se em violência. É normal uma pessoa que fique muito tempo sob pressão tornar-se violenta… Uma pessoa que tenha sido violentamente coibida, experimenta grande prazer agindo violentamente. Essas ações são eventuais e de curta duração, mas denotam uma paixão louca pela violência.

Lizze James – Mas, na verdade, a causa do mal não é a violência ou a paixão louca por ela, mas as forças repressivas.

Jim Morrison – Isto é verdade, mas em certos casos a pessoa apaixonada pela violência engendra uma cumplicidade secreta com seus opressores. As pessoas buscam tiranos. Colaboram com eles e os sustentam. Cooperam cumprindo as regras e restrições. Encantam-se com a violência através de suas breves rebeliões.

Lizze James – Mas por que acontece isto?

Jim Morrison – Talvez pela tradição. Os Estados Unidos foram forjados na violência. Os americanos são atraídos pela violência. Atacam-se entre si para engendrar violência. São hipnotizados pela TV – TV é um campo de força invisível que os protege da realidade. O grande mal do século XX é a incapacidade de sentir. As pessoas adoram TV, óperas pasteurizadas, cinema, teatro, ídolos da música pop, e possuem um forte contingente emocional projetado em símbolos. Mas, no que diz respeito a suas próprias vidas, estão mortos.

Lizze James – Mas por que fogem de seus próprios sentimentos?

Jim Morrison – Temem menos a violência que seus próprios sentimentos. A dor solitária, privada e pessoal, é mais assustadora do que qualquer ameaça exterior.

Lizze James – Realmente, não entendo.

Jim Morrison – A dor é uma forma de acordar-nos. As pessoas tendem a ocultar sua própria dor. Mas estão completamente erradas. A dor é algo que se carrega, como um rádio. Você sente sua força com a experiência da dor. Tudo depende da forma como você a carrega. Isto é o que importa (pausa). Dor é um sentimento, seus sentimentos fazem parte de você. De sua própria realidade. Se você envergonha-se deles, e os esconde, estará deixando que a sociedade o destrua. Deve lutar pelo direito de sentir sua própria dor.

Lizze James – Você considera-se um xamã? Acho que os fanáticos pelos Doors acreditam que você os levará à salvação. Aceita isso?

Jim Morrison – Não estou certo se é salvação que buscam, ou se é a mim que procuram para isso. O xamã é um curandeiro, um médico paranormal. Não sei se é isso que buscam em mim. Não me vejo como um salvador.

Lizze James – O que buscam em você então?

Jim Morrison – O xamã é como um canal de escape. Penso na atividade do artista ou do xamã como canal de escape. As pessoas projetam sobre ele suas fantasias e elas se tornam reais. As pessoas destroem suas fantasias destruindo-o. Obedeço aos impulsos, todos os têm, mas não permitirei isso. Atacando-me, punindo-me, liberam­se de seus impulsos.

Lizze James – É isso que você dizia há alguns momentos, que as pessoas projetam muitas emoções selvagens nos símbolos, principalmente nos astros da música pop?

Jim Morrison – Isso mesmo. As pessoas temem-se a si mesmas. Temem sua própria realidade e seus sentimentos, acima de tudo. Fazem verdadeiras apologias ao amor, mas é tudo conversa fiada. O amor fere. Os sentimentos incomodam. Ensina-se que a dor é má e perigosa. Como podem amar se têm medo de sentir?

Lizze James – Por isso você diz: “Único amigo, o Fim…”?

Jim Morrison – Às vezes, a dor é demasiada para ser analisada ou tolerada. Não engendra o mal, mas é encarada perigosamente. Temem mais a morte que a dor. É estranho, mas as pessoas têm medo da morte. A vida fere muito mais que a morte. Com a morte, finda-se a dor. Sim, penso-a como amiga.

Lizze James – As pessoas encaram o sexo como grande libertador, a suprema liberação. Em muitas canções você não aponta o sexo como um caminho libertário?

Jim Morrison – O sexo pode ser um libertador. Mas pode também ser um empecilho.

Lizze James – Onde está a diferença?

Jim Morrison – Depende de como as pessoas “escutam” seu corpo através de sua sensibilidade. Muita gente anda tão ocupada que não consegue mais sentir.

Lizze James – O sexo não é uma forma de amplificar os sentimentos?

Jim Morrison – O sexo está repleto de mentiras. O corpo tenta revelar a verdade. Mas está tão emaranhado em regras que dificilmente conseguimos escutá-lo. Ataram-nos fortemente com mentiras.

Lizze James – Como podemos romper com as regras e mentiras?

Jim Morrison – Escutando nosso corpo e abrindo nossos sentidos. Williarn Blake disse que o corpo é a prisão da mente até que os cinco sentidos estejam desenvolvidos e abertos. Considerava os sentidos como “janelas da mente”. “Quando o sexo envolve todos os sentidos, torna-se urna experiência mística…”.

Lizze James – Em muitas de suas músicas, você coloca o sexo como um meio de escape, um refúgio, um santuário, posso citar ‘Crystal Ship’, ‘Soft Parade’ e ‘Soul Kitchen’. Sempre fui fascinado por suas analogias entre sexo e morte, ‘Moonlight Drive’ é um ótimo exemplo. Mas isto não denota uma rejeição ao corpo?

Jim Morrison – Não é uma oposição. Se você rejeita seu corpo, ele torna-se uma prisão. É um paradoxo. Deve-se transcender as limitações do corpo, imergir totalmente nele abrindo-se todos os sentidos… É muito difícil aceitar o corpo totalmente. Nos ensinaram que o corpo deve ser controlado, dominado, um processo que classifica como sujo o ato de urinar e defecar… os comportamentos puritanos morrem muito lentamente. Como o sexo pode libertá-lo se você não quer tocar o corpo e tenta escapar dele?

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