por Maurice Blanchot | Trad.: Rodrigo Lucheta

O mistério é o seguinte: eu sou infeliz, eu me sento à minha mesa e escrevo “eu sou infeliz”. Como isso é possível? Vemos porquê essa possibilidade é estranha e, até certo ponto, escandalosa. Meu estado de infelicidade significa esgotamento de minhas forças; a expressão da minha infelicidade, aumento de forças. Do lado da dor, a impossibilidade de tudo, viver, ser, pensar. Do lado da escrita, possibilidade de tudo, palavras harmoniosas, desenvolvimentos justos, imagens felizes. Além disso, exprimindo minha dor, eu afirmo o que é negação e, entretanto, afirmando-a, eu não a transformo. Eu faço a grande sorte carregar a mais completa desgraça – e a desgraça não é atenuada. Quanto mais eu tenho sorte, ou seja, quanto mais eu tenho dons para tornar sensível a minha infelicidade por desenvolvimentos, embelezamentos, imagens, mais a má sorte que essa infelicidade significa é respeitada. É como se a possibilidade que significa minha escrita tivesse, por essência, que carregar sua própria impossibilidade –  a impossibilidade de escrever que é minha dor -, não somente de colocá-la entre parêntesis, ou de recebê-la em si sem destruí-la nem ser destruída por ela, mas de não ser verdadeiramente possível senão na e por causa de sua impossibilidade. Se a linguagem, e em particular a linguagem literária, não se lançasse constantemente, de antemão, para a sua morte, ela não seria possível, pois é esse movimento em direção à sua impossibilidade que é a sua condição e que a funda; é esse movimento que, antecipando-a sobre seu nada, determina sua possibilidade que é ser esse nada sem realizá-lo. Em outros termos, a linguagem é real porque ela pode se projetar sobre uma não-linguagem que ela é e não realiza.

No texto que acabamos de comentar, Kafka escreve: “Jamais pude compreender que fosse possível, a quem quer que queira escrever, objetivar a dor dentro da dor”. A palavra objetivar chama a atenção, porque a literatura tende precisamente a construir um objeto. Ela objetiva a dor constituindo-a como objeto. Ela não a exprime, ela a faz existir de um outro modo, ela lhe dá uma materialidade que não é mais aquela do corpo, mas a materialidade das palavras pelas quais é significado o transtorno do mundo que o sofrimento pretende ser. Um tal objeto não é necessariamente uma imitação das mudanças que a dor nos faz viver, ele se constitui por apresentar [presentar, oferecer] a dor, não por representá-la; é preciso em primeiro lugar que esse objeto exista, quer dizer, que ele seja sempre um total indeterminado de relações determinadas, dito de outro modo, que ele possua em si, como em toda coisa existente, sempre um excedente de que não pudéssemos nos dar conta. “Para escrever uma história, não tenho tempo para me estender em todas as direções, como seria necessário”. Esse lamento de Kafka indica a natureza da expressão literária, ela irradia em todas as direções; e ele indica também o caráter de movimento próprio de toda criação literária: não tornamo-la verdadeira senão buscando-a em todas as direções, [movimento] perseguido por ela mas precedendo-a, afastado em toda parte atraindo-a em toda parte. O “eu sou infeliz” não é infelicidade senão tornando-se espesso nesse mundo novo da linguagem onde ele toma forma, se afunda, se perde, se obscurece e se perpetua.

Parece impressionante a diversos comentadores, em particular a Claude-Edmonde Magny, que Kafka tenha sentido a fecundidade da literatura (para si mesmo, para sua vida e em vista de viver) no dia em que sentiu que a literatura era essa passagem do Ich ao Er, do Eu ao Ele. É a grande descoberta da primeira novela importante que ele tinha escrito, O Veredito, e sabemos que ele comentou esse acontecimento de duas maneiras: para dar testemunho de seu encontro perturbador com as possibilidades da literatura; para precisar para si mesmo as relações que esta obra lhe permitiu esclarecer. É, diz Madame Magny, retomando uma expressão de T. S. Eliot, que ele tinha conseguido reconstruir um “correlato objetivo” de suas emoções originalmente incomunicáveis, e ela acrescenta: trata-se de um tipo de aniquilamento de si, consentido pelo artista, não em vista de um progresso interior, mas para dar nascimento a uma obra independente e completa. Sem dúvida. E entretanto, parece que se passa algo de mais curioso ainda. Pois, evidentemente, quando Kafka escreve O Veredito ou O Processo ou A Metamorfose, ele escreve narrativas sobre seres dos quais a história não pertence senão a eles, mas, ao mesmo tempo, trata-se de Kafka e de sua própria história [e] que não pertence senão a ele. Tudo se passa como se, quanto mais ele se afastava de si mesmo, mais ele devinha presente. A narrativa de ficção põe, no interior daquele que escreve, uma distância, um intervalo (fictício ele mesmo), sem o qual ele não poderia se exprimir. Essa distância deve tanto mais se aprofundar quanto mais o escritor participa de sua narrativa. Ele se põe em causa, nos dois sentidos ambíguos do termo: é dele que se trata e é ele que está em questão – no limite, suprimido.

Não me basta então escrever: Eu sou infeliz. Na medida em que escrevo apenas isso, estou muito perto de mim, muito perto de minha infelicidade para que essa infelicidade torne-se verdadeiramente minha sob o modo da linguagem: eu não sou ainda verdadeiramente infeliz. É apenas a partir do momento em que eu chego nessa substituição estranha: “Ele é infeliz”, que a linguagem começa a se constituir em linguagem infeliz para mim, a esboçar e a projetar lentamente o mundo da infelicidade tal como ela se realiza nele. Então, talvez, eu me sentirei em causa, e minha dor se fará sobre esse mundo do qual ela é ausente, onde ela está perdida e eu com ela, onde ela não pode nem se consolar, nem se aliviar, nem se comprazer, onde, estrangeira de si mesma, ela nem permanece e nem desaparece, e dura sem possibilidade de durar. Poesia é libertação; mas essa libertação significa que não há mais nada a libertar, que eu me investi em outro onde entretanto eu não me reencontro mais (assim se explica em parte que as narrativas de Kafka sejam mitos, contos extraordinários, para além do verossímil e do realizável: é que ele se exprime por essa distância incomensurável, pela impossibilidade em que ele está de se reconhecer. Não é possível que esse conjunto de pequenos animais, parasitas seja ele: é por isso ele, em sua condição mais íntima e a mais irredutível).


Extraído de:

Blanchot Maurice, La Part du feu, Paris, Gallimard, 1949, p. 27 – 30.

2 comentários em “Transmutação da tristeza em Kafka, por Maurice Blanchot

  1. Prezado Rodrigo, Agradeço-lhe, muito sensibilizado, o envio da tradução que fezdo texto admirável de Blanchot sobre Kafka, que eu já conhecia no original.Vou cotejá-lo com o de sua tradução. Também muito me interessa saber queseu blog tem o signo de Deleuze. Ele, Blanchot e Foucault são, para mim,os mais importantes pensadores do século XX. Cordialmente,Valdomiro Santana 

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    1. Obrigado, Valdomiro! Fico feliz que o texto tenha te tocado. Fiz essa tradução para utilizá-la num debate, mas acabei não tendo tempo para lê-la, daí postei aqui para disponibilizar o link para o pessoal que participou do debate. Muito legal saber que ele transbordou o público do debate rs. Eu nem imaginava que alguém lia este blog. rs. Um abraço, querido! Depois se quiser comentar sobre a tradução, os comentários serão muito bem-vindos. Não sou tradutor profissional, esforço-me apenas para ter acesso a textos que não possuo em português. Volte sempre por aqui, amigo. Depois, se você tiver endereço na internet, envie-me seu link. Forte abraço!

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