por Gilles Deleuze | Trad.: Guilherme Ivo

São apenas duas questões. Vê-se muito bem que não se sabe o que fazer com as drogas (mesmo os drogados), mas também não se sabe como falar delas. Ora se invocam prazeres, difíceis de descrever e que já supõem a droga. Ora, ao contrário, invocam-se, causalidades demasiadamente gerais, extrínsecas (considerações sociológicas, problemas de comunicação e de incomunicabilidade, situação dos jovens, etc.). A primeira questão seria: Será que há uma causalidade específica da droga, e será possível procurá-la por esse lado?

Causalidade específica não quer dizer “metafísica”, tampouco exclusivamente científica (por exemplo, química). Não é uma infraestrutura cujo resto dependeria como de uma causa. Antes seria traçar um território, ou o contorno de um conjunto-droga, que estaria entrelaçado, por um lado, ao interior, com as diversas espécies de drogas e, por outro, ao exterior, com as causalidades mais gerais. Pego um exemplo de um domínio totalmente outro, o da psicanálise. Tudo o que pode ser dito contra a psicanálise não anula o seguinte fato: que ela buscou estabelecer a causalidade específica de um domínio, não apenas o domínio das neuroses, mas de formações e produções psicossociais de toda sorte (sonhos, mitos…). Pode-se dizer, de maneira bastante sumária, que ela traçou a causalidade específica como sendo o seguinte: mostrar a maneira pela qual o desejo investe um sistema de vestígios mnésicos e de afetos. A questão não é saber se essa causalidade específica era justa; seja como for, a busca por tal causalidade existia, e com ela a psicanálise fez com que abandonássemos as considerações demasiadamente gerais, mesmo que caíssemos em outras mistificações. O fracasso da psicanálise, relativamente aos fenômenos da droga, mostra muito bem que, na droga, trata-se de toda uma outra causalidade. Minha questão, porém, é esta: será possível conceber uma causalidade específica da droga, e em que direções? Por exemplo, na droga haveria algo de muito particular, nela o desejo investiria diretamente o sistema-percepção. Logo, seria totalmente diferente. Por percepção é preciso entender as percepções internas tanto quanto externas e, especialmente, as percepções de espaço-tempo. As distinções entre espécies de drogas são secundárias, interiores a esse sistema. Parece-me que as pesquisas, num certo momento, iam neste sentido: as de Michaux, na França, e, de um outro jeito, as da geração beat, na América, também as de Castañeda etc. Como todas as drogas primeiramente concernem às velocidades, às modificações de velocidade, aos limiares de percepção, às formas e aos movimentos, às micropercepções, à percepção devindo molecular, aos tempos sobre-humanos ou sub-humanos etc. Sim, como o desejo entra diretamente na percepção, investe diretamente a percepção (daí o fenômeno da dessexualização na droga). Tal ponto de vista permitiria achar o liame com as causalidades exteriores mais gerais, todavia sem perder-se nelas: assim, o papel da percepção, a solicitação da percepção nos sistemas sociais atuais, que faz com que Phil Glass diga que, de todo jeito, a droga mudou o problema da percepção, mesmo para os não-drogados. Mas tal ponto de vista também permitiria dar maior importância às pesquisas químicas, sem o risco, no entanto, de cair numa concepção “cientificista”. Ora, se é verdade que se esteve nessa direção, de um sistema autônomo Desejo-Percepção, por que hoje em dia parece que ela foi abandonada, ao menos parcialmente? Especialmente na França? Os discursos sobre a droga, dos drogados e dos não-drogados, dos médicos e dos usuários, recaíram numa confusão enorme. Ou seria então uma falsa impressão e não há como buscar uma causalidade específica? O que me parece importante na ideia de uma causalidade específica é que ela é neutra e vale tanto para o uso das drogas quanto para uma terapêutica.

A segunda questão seria dar conta do “revertério” da droga, em qual momento esse revertério sobrevém. Será que ele sobrevém tão rapidamente e de tal maneira que o fracasso ou a catástrofe façam necessariamente parte do plano-droga? É como um movimento “acotovelado”. O drogado fabrica suas linhas de fuga ativas. Essas linhas, porém, enrolam-se, põem-se a rodopiar em buracos negros, cada drogado em seu buraco, grupo ou indivíduo, como um caramujo. Mais afundado que chapado. Guattari falou disso. As micropercepções são recobertas de antemão, segundo a droga considerada, por alucinações, delírios, falsas percepções, fantasias, acessos paranoicos. Artaud, Michaux, Burroughs – que sabiam do que falavam – odiavam essas “percepções errôneas”, esses “sentimentos ruins”, que de uma só vez lhes pareciam ser uma traição e, no entanto, uma consequência inevitável. É também aí que todos os controles estão perdidos e que se instaura o sistema da dependência abjeta, dependência a respeito do produto, da dose, das produções fantasmáticas, dependência a respeito do traficante etc. Seria preciso, abstratamente, distinguir duas coisas: todo o domínio das experimentações vitais, e o das empreitadas mortíferas. A experimentação vital é quando uma tentativa qualquer lhe pega, se apodera de você, instaurando cada vez mais conexões, abrindo-lhe a conexões: tal experimentação pode comportar um tipo de autodestruição, ela pode passar por produtos de acompanhamento ou de arrebatamento, tabaco, álcool, drogas. Ela não é suicida, porquanto o fluxo destruidor não se assenta sobre si mesmo, mas serve à conjugação de outros fluxos, sejam quais forem os riscos. Porém, a empreitada suicida, pelo contrário, é quando tudo está assentado sobre este único fluxo: “meu” tiro, “minha” sessão, “meu” copo. É o contrário das conexões, é a desconexão organizada. Em vez de um “motivo”, que serve aos verdadeiros temas, às atividades, um único e raso desenvolvimento, como numa intriga estereotipada, onde a droga existe pela droga e suscita um suicídio estúpido. Há somente uma linha única, ritmada pelos segmentos “paro de beber – recomeço a beber”, “não estou mais drogado – logo, posso retomar a coisa”. Bateson mostrou como o “não bebo mais” faz rigorosamente parte do alcoólatra, pois é a prova efetiva de que agora ele pode voltar a beber. Assim é com o drogado, que está sempre parando, pois é a prova de que é capaz de retomar. O drogado, nesse sentido, é o perpétuo desintoxicado. Tudo é assentado sobre uma linha morna suicida, com dois segmentos alternativos: é o contrário das conexões, das linhas múltiplas entremisturadas. Narcisismo, autoritarismo dos drogados, chantagem e veneno: eles se juntam aos neuróticos, em sua empreitada para aborrecer o mundo, para espalhar seu contágio e impor os seus casos (de pronto, mesma empreitada da psicanálise como pequena droga). Ora, por que, como se faz essa transformação de uma experiência, mesmo que autodestrutiva, porém viva, em empreitada mortífera de dependência generalizada, unilinear? Será ela inevitável? Se há um ponto preciso de terapêutica, é aqui que ele deveria intervir.

Talvez meus dois problemas se juntem. Talvez seja no nível de uma causalidade específica da droga que se poderia compreender por que as drogas acabam tão mal e desviam sua própria causalidade. Uma vez mais, que o desejo invista diretamente a percepção é algo muito surpreendente, muito belo, uma espécie de terra ainda desconhecida. Mas as alucinações, as falsas percepções, os acessos paranoicos, a longa lista das dependências, isso é por demais conhecido, mesmo que seja renovado pelos drogados, que se arvoram de experimentadores, cavaleiros do mundo moderno, ou doadores universais da má consciência. De um ao outro, o que ocorre? Será que os drogados não se serviriam da ascensão de um novo sistema desejo-percepção para tirar disso o seu proveito e fazer a sua chantagem? Como os dois problemas se entremeiam? Tenho a impressão de que, atualmente, não se avança, não se está fazendo um bom trabalho. O trabalho. O trabalho certamente está em outro lugar que não nessas duas questões, porém, atualmente, nem mesmo se compreende onde poderia estar. Os que conhecem o problema, drogados ou médicos, parecem ter abandonado as pesquisas, para si próprios e para os outros.

Gilles Deleuze


Notas

  1. Texto extraído do livro Dois Regimes de Loucos: textos e entrevistas (1975 – 1995). (São Paulo: Editora 34, 2016, pp. 158-62.)
  2. Título do editor francês para o original “Deux questions”, in François Châtelet, Gilles Deleuze, Erik Genovois, Félix Guattari, Rudolf Ingold, Numa Musard e Claude Olievenstein,… Où il est question de la toxicomanie, Alençon, Bibliothèque des Mots Perdus, 1978.
  3. Este texto servirá a Deleuze e Guattari posteriormente, no platô Devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível de Mil Platôs, mais especificamente nas “Lembranças de uma molécula” (Paris, Éditions de Minuit, 1982, pp. 333-51). Edição brasileira, Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia (São Paulo, Editora 34, 1997, vol. 4, pp. 63-81).
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