Por: Wanda Dunajew  |  Trad.: Rodrigo Lucheta

Léopold Sacher-Masoch, autor de “A Vênus das Peles”, adaptada para o cinema por Roman Polanski, é mais que o pai espiritual do masoquismo, pois ele viveu em si mesmo os gozos cruéis e infinitos. A seu pedido, sua mulher Aurora Rûmelin, que ele chamava Wanda de Dunajew, lhe enviou por carta um contrato de escravidão que ele assinará nestes termos: “Empenho minha palavra de honra em manter-me escravo de Madame Wanda de Dunajew sob suas condições e em submeter-me sem resistência a tudo o que ela me irá impor”. Com exclusividade, eis aqui uma das cartas originais do sadomasoquismo, que fará empalidecer todas as cópias ulteriores (como os 50 Tons de Cinza): almas sensíveis, abstenham-se!

Caro Mestre,

Se o senhor me ama como afirma, deve assinar o texto anexado acrescentando a ele algumas palavras confirmando que aceitará todas as minhas condições, dando vossa palavra de honra de que ficará meu escravo até seu último suspiro. Prove que terá coragem de tornar-se meu marido, meu amante e meu cão.

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Meu escravo,

As condições sob as quais lhe aceito como escravo e o suporto ao meu lado são as seguintes:

Renúncia total e absoluta de seu eu. Fora da minha, você não tem vontade.

Você é entre minhas mãos um instrumento cego, que cumpre todas as minhas ordens sem discuti-las. No caso de você esquecer que é meu escravo e no de não me obedecer em absolutamente todas as coisas, eu terei o direito de puni-lo e de corrigi-lo conforme meu bel prazer, sem que você possa ousar queixar-se.

Tudo o que eu lhe conceder de agradável e de feliz será uma graça de minha parte, e, assim, você não deverá recebê-la senão me agradecendo. Aos seus olhos eu agirei sempre sem falta e não terei qualquer dever.

Você não será nem um filho, nem um irmão, nem um amigo; você assim não será nada mais que meu escravo deitado na poeira.

Do mesmo modo que seu corpo, sua alma me pertence e, mesmo quando estiver sofrendo muito, você deverá submeter à minha autoridade suas sensações e seus sentimentos.

A maior crueldade me é permitida e, se eu lhe mutilar, será necessário que suporte sem queixumes. Você deverá trabalhar para mim como um escravo e, seu eu nadar no supérfluo lhe deixando em privações e lhe pisoteando, você deverá beijar sem murmurar o pé que lhe terá pisado.

Eu poderei lhe despachar a qualquer hora, mas você não terá o direito de me deixar contra a minha vontade, e se você vier a fugir, você me reconhecerá o poder e o direito de lhe torturar até a morte através de todos os tormentos imagináveis. Fora eu, você não tem nada; para você eu sou tudo: sua vida, seu futuro, sua desgraça, seu tormento e sua alegria.

Você deverá cumprir tudo o que eu lhe mandar, quer seja bem ou mal, e se eu lhe exigir um crime, será necessário que você se torne criminoso para obedecer à minha vontade.

Sua honra me pertence, como seu sangue, seu espírito, sua força de trabalho. Eu sou sua soberana, mestra da sua vida e da sua morte.

Se você chegar a não poder suportar minha dominação, e suas cadeias se tornarem muito pesadas, será preciso que você se mate: eu jamais lhe darei a liberdade.

Wanda Dunajew

 Fonte: http://www.deslettres.fr/lettre-de-wanda-dunajew-leopold-von-sacher-masoch-prouvez-que-vous-aurez-le-courage-de-devenir-mon-mari-mon-amant-et-mon-chien/

 

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