O cinema era novo e a literatura, antiga

Márcio Calafiori

A entrevista a seguir com o poeta Narciso de Andrade, jamais publicada, foi feita na sua casa, em 28 de novembro de 2000, uma tarde de terça-feira. A princípio, ele não queria conversar. Alegou por telefone que estava cansado, doente e com a memória e a visão fracas. Na época, eu estava pesquisando sobre o Clube de Cinema de Santos e havia lido uma crônica de Narciso, publicada em A Tribuna, em que ele dizia que os santistas deveriam se orgulhar de dois fatos culturais, o Clube de Cinema e o Festival de Música Nova. Referi-me à crônica. Ainda assim não consegui convencê-lo. Precisei apelar para o sobrinho dele, José Luiz Sampaio de Andrade, meu amigo e colega da faculdade de jornalismo. Só então o poeta topou o encontro. Embora fisicamente um pouco abatido, Narciso estava bem-humorado. Ao longo da conversa, riu de quase tudo. Em alguns momentos, a memória, de fato, não o ajudou, mas mesmo assim relembrou o dia em que o amigo, o também poeta Roldão Mendes Rosa, o convidou para participar da fundação do Clube de Cinema de Santos, em outubro de 1948. Em seguida, fez questão de celebrar a memória de Maurice Legeard, que dirigiu a entidade durante anos: “O Maurice era o Clube de Cinema!” Ao falar sobre o impacto que o clube provocou no panorama santista cultural de então, refletiu: “O cinema de arte era uma coisa nova e a literatura, antiga.” A conversa se estendeu também por outros temas, como o fato de Santos ter sido relegada por parte de sua inteligência e os efeitos do golpe militar na cidade. No final da entrevista, o poeta declarou: “Eu comecei com a poesia e estou morrendo perto da poesia.” Narciso de Andrade teve parte de sua obra reunida no livro Poesia sempre [Editora Unisanta, 2006]. Nascido em São Paulo em 20 de julho de 1925, faleceu em 29 de dezembro de 2007, às 18h40, na Casa de Saúde de Santos, onde estava internado desde o dia 24. Foi enterrado no Cemitério do Paquetá, dia 30, às 16h30.

Márcio Calafiori — Quero relembrar a crônica em que o senhor diz que os santistas deveriam se orgulhar de dois fatos culturais em Santos — o Clube de Cinema e o Festival de Música Nova. Qual é a importância do Clube de Cinema para a cidade?

Narciso de Andrade — Primeiro, vou tentar falar um pouco da cidade sobre o aspecto cultural. Não se impressione. Eu não tenho uma visão muito simpática sobre esse aspecto. Isso é uma coisa antiga. Tínhamos aqui em Santos um escritor chamado Albertino Moreira, que veio de Minas Gerais. Quando chegou o estavam esperando na estação da SPR, que era o ponto de embarque e desembarque de todo mundo que vinha ou saía de Santos. Assim que ele desceu, lhe disseram: “Se este trem for voltar para São Paulo, volte. Aqui é o fim do mundo”.

 

Quem disse isso?

Foi o [escritor] Paulo Gonçalves [2/4/1897—8/4/1927] e o Ribeiro Couto [12/3/1898—30/5/1963], grande poeta santista. Isso me foi contado pelo próprio Albertino Moreira. Isso é uma marca da cidade. Ainda há pouco, o Gilberto Mendes [1922], do Festival de Música Nova, contava que quando ele resolveu ficar em Santos, um primo dele, escritor em São Paulo, disse: “Mas Santos? Santos é o fim do mundo em matéria de cultura. Você vai se enterrar lá?”. Quer dizer, durante muito tempo Santos ficou com essa fama. Mas o verdadeiro sentido da cultura não é saber falar várias línguas, não é ter certa noção de que se aquele quadro é bonito ou não é. Não! Cultura é uma coisa muito mais profunda, enraizada no próprio local do cara — na época, nas atividades, na composição social. Tudo isso gera o conhecimento. Estou errado?

 

Não, eu concordo!

Não que Santos não tivesse bons escritores, não que não tivesse bons artistas. Não é isso. É que geralmente os bons escritores e os bons artistas saíam de Santos. E de mais a mais aquele sentido de atualização do real imediato, do autêntico real absoluto — como dizia o poeta alemão — não era muito comum aqui, nunca foi. Então, o Clube de Cinema representou uma coisa muito nova e muito autêntica aqui. Você conhece as origens dele, não conhece?

 

Sim, mas o senhor pode falar à vontade.

Eu não estou com as datas, não as tenho de cabeça. É a idade.

 

Não se preocupe com datas.

Mas há uma coincidência muito interessante no meu caso. Eu sempre frequentei muito o Café Paulista. Até ficar doente, há pouco tempo, eu ia lá toda tarde. E numa dessas tardes eu estava lá com o [poeta e jornalista] Roldão Mendes Rosa [25/2/1924—26/1/1988]. Conhece?

No café paulista
No café paulista

 

Foi meu professor [na Faculdade de Comunicação de Santos].

Foi seu professor? Eu o considero um grande poeta. Não quis publicar livro. O livro dele [Poemas do não e da noite], póstumo, fui eu quem organizou para publicação. Mas era realmente um grande poeta. E eu estava com o Roldão no Café Paulista quando ele disse: “Narciso, precisamos ir”. “Precisamos ir aonde?”, perguntei. “Vai ser inaugurado hoje o Clube de Cinema”, ele respondeu. “Onde?”, perguntei. “No Sindicato dos Jornalistas.” O sindicato ficava na esquina da Rua do Comércio com a Praça Aldo Barbosa. Era presidente na ocasião o Cândido Ernandes. E assim fomos para lá. Fui levado pelo Roldão, porque eu nem sabia disso. E confesso, para ser leal mesmo, que quem entendia de cinema, quem sabia mesmo de cinema e quem levou o Maurice Legeard [9/4/1925—25/5/1997] para o Clube de Cinema, e, depois a gostar, a estudar e a entender de cinema, foi o Roldão.

 

O Roldão, é?

O Roldão… A gente vivia às turras com o Maurice, mas a gente sabia que nele podíamos confiar.

 

O que o Maurice fazia na época?

Nada de especial. Ele trabalhava no Expresso Luxo, vendia passagem, sabe? E o Roldão achou que ele estava perdendo tempo ali, porque ele era um sujeito muito interessado.

Como se deu a aproximação entre o Roldão, o Maurice e o senhor?

A gente tomava café no Paulista, como eu falei, e o Expresso Luxo era ali pertinho. Duas ou três casas depois.

É sobre a Rua do Comércio que o senhor está falando?

Rua do Comércio, isso mesmo. Então, ele [o Maurice] se encontrava com a gente. O Roldão era uma pessoa muito interessada no próximo e eu era sempre muito interessado em ficar longe do próximo [risos]. Primeiro, sempre fui muito tímido; segundo, eu também tinha receio por causa do meu temperamento, um pouco esquentado, da coisa entornar porque o Maurice era esquentado também…

Mas eu queria saber, desculpe eu insistir…

Não… Eu gosto que perguntem.

Na época, o Maurice tinha interesses culturais?

Tinha, coisa muito rara na ocasião. Ele era bem interessado por tudo. Era uma figura diferente do contexto geral da rapaziada. Ele era da noite, gostava da noite, mas era trabalhador. E lia, lia, lia muito. Então, o Roldão viu que ali havia uma pessoa que podia ir em frente. Nessa assembleia [de fundação] do Clube de Cinema o Maurice não estava. Ele sempre disse que foi o fundador. Nem eu nem o Roldão nunca desmentimos isso. Nós nos dávamos bem com ele. Mas ele não era [fundador], porque não esteve nessa assembleia. Não pôde ir porque estava trabalhando. Mas se pudesse, ele estaria lá. Então, dali por diante ele foi tomando conta [do Clube de Cinema], foi se especializando. Tudo o que era de cinema ele ia procurar. Ia a São Paulo, gastava o que não tinha para arrumar a biblioteca, a filmoteca, enfim, ter o material necessário. Eu costumo dizer que o Maurice Legeard não era gente; ele era uma instituição chamada Clube de Cinema. Viveu para aquilo a vida inteira. E só para aquilo!

Mas quem idealizou o Clube de Cinema? Pelo que estou entendendo foi o Roldão.

Não posso jurar. O que eu sei eu sei. O que não sei, não posso dizer. Houve alguns antecedentes. O Roldão já escrevia sobre cinema, escreveu críticas de cinema em um jornal de São Paulo — não me lembro qual — e em Santos, quando ele tinha dezoito ou dezenove anos. Escrevia sério. Trabalhou como crítico de cinema. E aqui em Santos havia outras pessoas muito interessadas, como por exemplo, o Ney Guimarães, que era crítico de cinema também. Eu acho que essa gente toda, incluindo o Oscar Von Pfuhl [médico e dramaturgo], já estava interessada em cinema. E essa turma compareceu à assembleia de fundação.

Então, inicialmente o Clube de Cinema funcionou no Sindicato dos Jornalistas? Foi fundado lá…

Foi fundado lá. A assembleia inaugural foi ali. Infelizmente, eu não tenho a data. Como eu disse, datas eu não sei. Andamos procurando, Roldão e eu, andamos procurando a ata [de fundação] e não a encontramos. [O Clube de Cinema de Santos foi fundado em 16 de outubro de 1948.]

O Clube de Cinema representou o novo em termos culturais para Santos?

Representou o novo na cidade e uma coisa muito atualizada. Salvo erro ou omissão, ele deve ter sido o segundo clube de cinema do Brasil. Eu tinha essas coisas… Bem, hoje já não tenho mais, tô muito cansado… Mas deve ter sido o segundo clube de cinema em importância no país. Entre os primeiros eu sei que ele está, porque o Maurice ia muito a São Paulo, ao Clube de Cinema de São Paulo, com… oh, meu Deus do céu! Eu esqueci o nome dele. Era um bom escritor também…

O Paulo Emílio?

Isso! Paulo Emílio Salles Gomes [17/12/1916—9/9/1977]. O Maurice ia lá, eles conversavam. Eles vinham aqui, a gente se encontrava, se reunia. O Maurice foi de tal dedicação ao clube que ele passou a viver — não estou exagerando, é uma coisa muito rara… Não sei se isso é nobre, se isso é grande, se isso é, se isso não é… Não importa, é a realidade — ele era o Clube de Cinema! Isso eu posso jurar. Ele ia todo mês ao meu escritório, sentava lá, ficávamos conversando: “Você é um enganador!”, eu dizia. “Por que, por quê?” [Narciso imita a voz de Maurice]: “Porque você só vem aqui para receber a mensalidade do clube. [risos]. Ele levava aquela semana para pôr no bolso dele. Mas você precisava ver: o Clube de Cinema já tinha um acervo ótimo. Não sei como está agora. Não fui ver depois que ele morreu, não fui ver… Mas o Maurice era — outra qualidade dele — muito organizado. Ele mantinha tudo em ordem no Clube de Cinema, com data, com títulos, com nomes, enfim. Era um perfeito organizador e não deixava ninguém atrapalhar, pôr desordem nas coisas. Isso é que fez o clube se manter. Depois, ele era muito relacionado também com artistas plásticos. Por exemplo, eu tinha até pouco tempo atrás um dos programas do Clube de Cinema com ilustrações feitas pelo Nelson Penteado de Andrade [24/2/1927—1º/10/1966], meu irmão, que era pintor. Essas ilustrações foram para o filme Artigo 141.

Ilustração 2

Ilustração 1

O Maurice passou esse filme — inclusive acho que ele foi o primeiro ou um dos primeiros a exibir esse filme no Brasil. E exibiu aqui em Santos [em outubro de 1965.] Nota: Na verdade, Artigo 141 é um documentário de dez minutos, produzido por Moacyr Nilson em 1964 e dirigido por José Eduardo Marques de Oliveira, com a colaboração de Anna Maria Pimentel. Foi filmado sem roteiro, em duas manhãs, na favela de Vila Prudente, em São Paulo. A narração é Antero de Oliveira, Dina Sfat e Paulo José].

Eu queria voltar para o Clube de Cinema e a questão de por que o clube se tornou importante para Santos do ponto de vista cultural.

O Clube de Cinema trouxe para Santos os principais filmes de arte do mundo inteiro. Cinema italiano, cinema francês, cinema japonês, cinema sueco, todos aqueles filmes de arte: do Ingmar Bergman, do italiano… Como é que chamava mesmo?

O [Roberto] Rossellini?

O Rossellini! O neorrealismo italiano, perfeitamente. Tudo isso passava no Clube de Cinema. Eu me lembro, por exemplo, de um filme que me impressionou muito, que chama Les deux verités As duas verdades [direção de André Cayatte]. Desculpe, o meu francês é péssimo. Parece que eu o estou assistindo agora. Na última conversa que tive com o Maurice, poucos dias antes dele morrer, falei no filme, se podia trazê-lo de São Paulo de novo. Ele me disse: “Porra, Narciso!” [Narciso imitando Maurice]. “Esse aí não dá para trazer porque eu não tenho e eu acho que São Paulo também não tem. [Narciso ainda continua imitando Maurice]. É um filme muito interessante. É o julgamento de um cara que tinha praticado homicídio. E o promotor faz uma acusação terrível, perfeita. Quando ele acaba a acusação, você diz: “O sujeito matou mesmo, é criminoso”. E o acusado sentado na cadeira. De repente, levanta um senhor, no meio da audiência, alto, barbado, que era o Michael Simon, e diz: “Eu tenho uma declaração”. Aí o juiz olha para ele e diz: “Não foi você que se recusou a usar capa e por isso não está mais advogando?”. “É, sou eu mesmo”. “Pois, agora você vai advogar. Bote a capa que você vai falar”. O acusado calado, de cabeça baixa, o tempo todo. E então o Michael Simon faz justamente o contrário do que havia feito o promotor. Mostrou que ele [o acusado] não podia ter matado, e, portanto, era inocente. Aí fica todo mundo fica naquela. Nós, da plateia, idem.

Todos surpresos?

Sim. Foi ou não foi? Aí o juiz chama o réu. O réu não responde. Estava morto. Um filme notável, feito com aquela naturalidade, aquela humanidade que o francês tem. Esse foi um dos filmes que eu considero um dos melhores que o Maurice trouxe. E com muita dificuldade, pois não era fácil trazer os filmes. Mas o Maurice chateava todo mundo, era insistente, então acabava trazendo esses filmes.

A importância do Clube de Cinema se dá a partir do momento em que o clube começa…

[me interrompendo] …a discutir e a trazer para Santos uma coisa nova no cinema. Porque o cinema era considerado, principalmente pelos santistas, fruição. Nada mais do que isso. Mas no Clube de Cinema o cinema passou a ser uma linha de pensamento.

O que o senhor quer dizer com linha de pensamento?

[Respira fundo] — Eu tenho de ser franco. Linha de pensamento de esquerda, mas uma esquerda que não era preconceituosa. Tanto assim que a gente discutia depois, em debate público, qual a mensagem, qual o recado, o que era aquele filme. E daí você tinha aproximações necessárias, que você faria também com outras artes. Em arte, você sabe muito melhor do que eu, ninguém é exclusivista. Não é verdade? O cinema está sempre um pouco na música, um pouco nas artes plásticas e assim por diante.

Mas linha de esquerda por quê? Qual era o objetivo do Clube de Cinema em termos políticos, por exemplo?

Não, não. Ele não tinha termos políticos. Estou dizendo linha de esquerda porque todos nós éramos de esquerda. Roldão, eu, Oscar… [Von Pfuhl].

Por esquerda o senhor quer dizer o quê? Vocês eram comunistas? Pertenciam a algum partido?

Um ou outro pertencia. O Nilo [Rovai] e o Roldão pertenciam ao Partido Comunista. Eu nunca pertenci, mas era simpatizante. Para compreender bem, a gente tem que trazer um pedaço do tempo para cá. Não se esqueça de que tínhamos tido a ditadura do Getúlio Vargas. A direita sempre governando aqui, militares. Então, não era tanto no sentido de partido político. Era no sentido de luta, de amor à liberdade e à verdade humana. Isso é o que eu digo quando digo linha de pensamento de esquerda, é nesse sentido. Havia muitos comunistas no Clube de Cinema e havia católicos também. Mas é nesse sentido que me refiro: uma linha humana, de entendimento entre os seres humanos, era o que nós queríamos. A gente ficava muito preocupado com a diferença de classes que existia no Brasil. Isso não é novidade, me parece que ainda existe bastante, né? Então, ficávamos preocupados. Os nossos portuários aqui eram perseguidos. A cavalaria perseguia mesmo. O Roldão foi um que teve de correr da cavalaria.

Os filmes do Clube de Cinema eram exibidos onde?

No início, as primeiras sessões eram realizadas aos sábados à tarde, no Cine Bandeirantes. Era ali na Rua Lucas Fortunato. Depois do filme ocorriam os debates públicos. Então, muita gente se destacou nesses debates. Eu me lembro do De Rossi de Oliveira falando muito e muito bem sobre Les deux verités. Ele foi um dos que mais se destacaram ao falar. Enfim, os debates atraíam bastante gente. O Bandeirantes ficava cheio. Depois é que as sessões do Clube de Cinema passaram a ser em outro local, à noite, mas aí foi diminuindo a importância da entidade ao longo dos anos. Lembro de uma conversa entre eu, Roldão e Maurice. Ele, Maurice, estava muito preocupado porque estava com medo de que não desse mais para continuar com o clube porque havia videocassete… Então, sabe o que o Maurice fez? Ele não se desesperou. Comprou uma porrada de filmes em fitas VHS e botou tudo lá. Deve estar lá no Clube de Cinema até hoje. Viviam me dizendo: “Vai ver o videocassete”. “Não gosto disso. Não vou”. Mas não é que eu não gostasse. A minha vista já estava se corrompendo, eu tinha medo de ficar… Mas ele [Maurice] evoluía, sim. Em relação às coisas, evoluía muito. Ele não era um cara retrógrado, não.  Então, por isso é que eu digo e repito: o Maurice era uma instituição. A instituição Clube de Cinema.

Todo mundo o identificava com o cinema…

Era uma instituição mesmo, ele era o Clube de Cinema. Sem ele, o Clube de Cinema não teria existido como existiu. Eu posso falar isso, como eu já lhe falei, eu tive muitos debates, muitas rusgas com o Maurice, tanto eu quanto todos os amigos dele, a maioria. E ele não comia enrolado não, ele era malcriado. Mas eu sempre o respeitei muito, sempre… Sempre gostei do Maurice. Andávamos na noite. Eu casado, cheio de filhos, mas ia para a noite com ele e ficávamos conversando. Íamos para o Café Regina, um bar histórico sobre o aspecto cultural aqui de Santos. Depois, apareceu o Plínio [Marcos, dramaturgo —29/9/1935—19/11/1999]. Eu me lembro, ele disse: “Porra, Narciso! Quem é esse analfabeto aí? Além de mim tem mais outro?”. [risos]. O Plínio Marcos adorava o Maurice. Pouco antes do Maurice morrer, telefonei para  o Plínio e ele: “Ô, rapaz! Sabe o que me aconteceu?”. “Não”, eu disse. “Eu fui aí visitar o Maurice e levei um dinheirinho pra ele. Ele quase que me expulsa. Ficou bravo, nervoso”… O Plínio e eu éramos muito amigos.

É?

É, sem fantasia. Éramos amigos, mesmo! E era uma coisa difícil também, porque quando ele começou o pessoal também dizia que ele era uma besta. Eu dizia: “Não, esse, de nós todos, vai ser o único que vai se destacar”. E ali tinham escritores: Roldão; modéstia à parte, tinha eu; tinha o Geraldo [Ferraz, escritor e jornalista; 1905—1979]; tinha a Patrícia [Patrícia Galvão, a Pagu; 9/6/1910—12/12/1962]. Eu tinha uma visão do Plínio, eu dizia: “Esse menino não para, ele é audaz, ele é ousado, ele é criador. E ele é observador”. A boca de Santos ninguém a retratou como o Plínio Marcos. Bom, mas nós estamos falando de Maurice. [risos].

Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre por que o cinema deu certo aqui em Santos? Por que o Clube de Cinema pegou, enquanto a literatura não. Qual é a sua análise?

Porque o Clube de Cinema era uma coisa nova e tinha um grupo de dedicados. O cinema de arte era uma coisa nova e a literatura, antiga; era tão antiga que… Ah, sem vaidade nenhuma, eu já estou muito velho para ter vaidade… Os dois primeiros poetas modernistas de Santos foram o Roldão e eu. Está vendo? E nós já tínhamos o quê?… Nós não éramos moços. Nós fomos os primeiros. Até aí, o modernismo era… até hoje, a coisa moderna, a coisa atual, não é muito…

Se refere a que época em que o senhor e o Roldão foram os primeiros modernistas de Santos? Só para eu ter uma ideia, quando foi isso?

Metade dos anos 1940. O Roldão publicou antes, eu não. Eu publiquei a partir daí. E aí, nós já éramos amigos, mas aí é que nós ficamos juntos mesmo e sofrendo. O Roldão sofria mais do que eu porque ele era muito, muito… Como é que eu posso dizer? Muito consciente do que fazia; eu era meio inconsciente, não sabia que esse negócio exigia luta.  

 

E o Clube de Cinema?

Ah, sim. O Clube de Cinema tinha importância, o valor, a sinceridade, a autenticidade, a verdade do que está sendo feito. E o Clube de Cinema nunca se afastou disso. Queria trazer a verdade, queria trazer só filmes bons. Por isso, então, é muito raro uma cidade que não é capital ter uma entidade com o nível que tinha o Clube de Cinema. Depois, a entidade foi se desgastando um pouco, mas manteve o nível durante muitos anos. Vinha gente de São Paulo… Ah! Vou contar um negócio. Em 1900 e… sei lá… A revolução foi quando? Essa revolução aí…

Dos militares?

É.

 

1964.

Em 1962, nós fomos convidados para integrar a Comissão Municipal de Cultura, uma espécie de Conselho Cultural. Nós fomos convidados pelo Clóvis Pereira de Carvalho porque ele estava como chefe de gabinete do então prefeito José Gomes [26/10/1962—31/3/1964]. E o chefe de gabinete era o Juarez Bahia [1930—1998], o jornalista. Este fazia questão de que aquela turma meio doida, Roldão, eu e outros, integrássemos essa Comissão de Cultura para acabar com os velhos, a lixaria que estava lá ancorada. E nós recusamos. Aí fomos convidados para uma reunião, Roldão e eu fomos. O Geraldo Ferraz, secretário de redação de A Tribuna, presente. Ele disse: “Agora, eu vou pedir para que pensem um pouco mais porque é uma chance que vocês estão dando para que a parte mais avançada da cultura da cidade se integre à Prefeitura”. Roldão e eu dissemos a mesma coisa: “Desde que ninguém se intrometa e que seja considerado como arte, portanto como cultura. Nem política nós queremos, a não ser aquela que necessariamente vem. Se não houver interferência política, nós vamos tentar”. E foi assim que aceitamos e ficamos lá, nomes como Gilberto Mendes, Roldão Mendes Rosa, enfim…

E o que conseguiram fazer?

Nós fizemos muita coisa, mas conseguimos pouco. Fizemos teatro, bolsas de estudo para quem estudava na escola de arte dramática, representação, aqui em Santos, de peças lançadas em São Paulo, lançadas no Rio de Janeiro. Fizemos nas artes plásticas: nós trouxemos — a única cidade, não capital, e foram mais três ou quatro capitais — a exposição de arte contemporânea do México. Tivemos aqui Orosco, Diego Rivera, toda essa turma conseguimos trazer. Nós fizemos concertos bem sérios aqui em Santos. Enfim, procuramos realmente fazer alguma coisa e fizemos. Depois veio o golpe militar.

A comissão foi extinta com o golpe militar?

Pouco antes, mas foi por causa da revolução. Nós já estávamos prevendo que aquilo ia acontecer, então, em vez da gente ir para a cadeia sem razão, resolvemos fechar a comissão e ninguém foi preso. Eu fui, respondi a Inquérito Policial Militar. Como eu sou meio desajustado, eu não me assustei nada com aquilo. Mas um dia me aparece lá em casa um caminhão, soldado de metralhadora e um sargento de metralhadora. Em vez de tocar a campainha, entrou, bateu na porta e a minha sogra atendeu. “Eu tenho aqui uma ordem para o Dr. Narciso de Andrade Neto”. [Fala do sargento de metralhadora]. E a Amélia [mulher de Narciso] me disse: “Olha, Narciso, estão aí para te prender”. Eu digo: “Ih… caramba! Bota lá a pasta de dente e essas coisas. Nunca fui preso na vida”. Mas quando eu olhei, disse: “Não, esse cara não tem cara de quem prende ninguém” [Era o sargento]. Eu disse: “Pois não?”. “O senhor, amanhã, às 7 horas, esteja na Companhia Docas de Santos. O senhor é daqui?”. “Sou”. “Na Avenida Conselheiro Nébias. O senhor conhece?”. “Conheço e trabalhei lá”. [risos]. Ele olhou para mim e disse: “O que importa é que o senhor esteja amanhã lá às 7 horas”. Era na Rua Borges… A vizinhança ficou olhando e tal. Eu digo: “Amélia, que horas são”. Ela falou as horas. “Ah, eu vou descansar mais um pouco”. Não tomei nem conhecimento daquilo. No dia seguinte cheguei lá, eram mais ou menos oito e meia da manhã. Imagine, se fosse para levar a sério… Cheguei lá e aí veio um advogado e disse: “Olha, Narciso [sussurrando]. Não se preocupe”… “Ah, sei lá, do que eles podem me acusar?”. Depois, um tenentinho de merda. Nem todos os tenentes são de merda, né? Mas aquele era um merdinha deste tamanho: “Seu nome, idade, onde o senhor trabalha?”. “Sou advogado”. “Onde?”. “Na Companhia City”. “Companhia City?”. “É, sim senhor. Sou chefe do jurídico lá”. Ele já ficou meio assim porque a City era inglesa, né? “Bom, aqui existe isso, isso, isso, isso e isso. É sua responsabilidade”. “Por quê?” “Porque o senhor era o presidente da Comissão Municipal de Cultura e isso foi dinheiro para a Comissão Municipal de Cultura. Aliás, há outras coisas que eu direi depois”. “Bom, quanto a isso, o que eu posso dizer é que a responsabilidade não era minha. Porque lá trabalhávamos com consciência e qualidade. Isso aí foi uma verba para a comemoração do 150º ano de José Bonifácio. E quem respondia por ele era o Dr. Edgar Falcão, um homem de princípios e muito conhecido no Brasil inteiro como historiador”. “Isso não importa. A responsabilidade maior era sua”. Aí ele perguntou: “E a Prefeitura?”. “Nunca fui da Prefeitura”. “Então, o que o senhor está fazendo aqui?”. “Eu é que pergunto!”. Nessa hora vem vindo o coronel. O coronel quando me viu, eu como advogado da City, o pessoal pedia luz para isso, luz para aquilo, luz para o quartel… Nós temos a obrigação de dar luz para todo mundo. Então, o coronel fez boa relação comigo. Ele contava anedota e eu contava sacanagem. E ele ia lá e eu aturava, porque conversar com coronel é duro, viu? Ele acabou simpatizando comigo. Aí ele disse: “O que o senhor está fazendo aqui?”. “Coronel, me desculpe. Pela segunda vez me fazem essa pergunta. Eu que pergunto: o que eu estou fazendo aqui?”. “Um momento”. Entrou na sala, dali a dez minutos veio a ordem para ninguém mais ser interrogado. Estava suspenso o inquérito e o tenente me disse: “O coronel disse que se o senhor quiser assina, se não quiser não assina”. “Eu faço questão de assinar”. E disse: “Olha, esse meu autógrafo vai ser valioso! Porque vai ser o último IPM”. E foi. Eu respondi o IPM assim na gozação. Todo mundo se borrando e o Roldão disse: “Mas só você mesmo para desmoralizar o IPM, não é possível!”.

Quem falou isso? 

O Roldão [risos]. “Só você pra desmoralizar o IPM”. Puxa vida! E foi assim.

O senhor teve mais problemas?

Não posso mentir. Não tive nenhum problema. Nem o Roldão, que era comunista intransigente, nunca teve problema também.

O Clube de Cinema teve problema?

Não. Nem o Maurice.

E a programação do clube foi alterada?

Não. Mas essa revolução atrasou muito o aspecto cultural daqui de Santos. Até hoje o porto sofre consequências dos procedimentos da revolução.

O senhor disse que o Maurice é uma instituição. Eu vou mais longe. Acho que o Maurice — e aí eu queria ouvir a sua opinião também, sem cansá-lo — representava o que eu classificaria de resistência cultural aqui em Santos. O que o senhor acha?

Eu não afirmo tanto, não.

 

Por quê?

Porque… claro que ele não se entregava. Mas nenhum de nós se entregava. Só que a gente tinha que ficar meio no silêncio. Não tinha nem como falar…

Mas eu não estou mais me referindo ao período militar. Eu digo que ele representava a cultura em Santos. A gente olhava para o Maurice e lembrava de cinema, de cultura. Estou exagerando?

Como nós estávamos muito próximos, como nós éramos sempre muito próximos do Maurice, não notávamos isso. Procurávamos dar força para ele, até onde se podia. Mas eu acho que a grande — eu insisto — que a grande face do Maurice foi o Clube de Cinema. Ele não era outro. Ele era o Clube de Cinema. Isso é o que era. Então, ele lutava muito, queria que a cidade evoluísse. Nesse aspecto, se pode dizer isso que você está dizendo. Mas eu não tenho condições de afirmar com tanto entusiasmo.

Que filmes importantes o senhor viu no Clube de Cinema?

Eu destacaria Fellini 8 ½ [1963], pelo seu teor artístico.  Julieta dos Espíritos [também de Fellini, 1965] me agradou muito. Aquele que eu já falei do cinema francês, Les deux verités.  Os filmes italianos, os japoneses, Os sete samurais [direção de Akira Kurosawa, 1954], o cinema sueco do Ingmar Bergman, o cinema russo…

Tudo isso o Clube de Cinema de Santos projetou?

E pela primeira vez. E alguns até pela única vez, como A flor de pedra [filme russo dirigido por Aleksandr Ptushko, 1946]. Um filme extraordinário, lindo, um filme maravilhoso, colorido. Depois passou em todos os cinemas, mas o primeiro a apresentá-lo foi o Clube de Cinema de Santos.

oito e meio

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Eu queria falar rapidamente do Clube de Arte. A esquerda aqui em Santos teve muita influência no desenvolvimento da cultura, não é?

É verdade, é verdade.

E um dos aspectos, além do Clube de Cinema, além da Música Nova, foi o Clube de Arte. 

É verdade.

O que foi o Clube de Arte?

Quanto à Música Nova, eu acho que não houve tanta influência de esquerda, de política. Eu acho que ela se deve mesmo ao cérebro privilegiado do Gilberto Mendes. Soube ver a coisa. E vem um sistema político e vem outro e ele vai lá e defende, vai ao gabinete do prefeito, não quer saber se é de esquerda ou de direita. Ele é um lutador. Com aquele jeito de Santa Efigênia, ele é um lutador. Eu respeito e admiro muito o Gilberto Mendes. Alias, já escrevi isso sobre ele. E quanto ao Clube de Arte, sim, o pessoal de esquerda realmente é o que dominava ali. Mas isso é uma coisa natural. Se não fosse o pessoal de esquerda quem ia fazer aquilo? Eu fui católico, não sou mais, mas você não pode fazer uma coisa de arte, que tem que abordar certos aspectos, até de certa violência, apenas com Deus, que me perdoe a fita de congregado mariano. Você tem de partir para a ignorância às vezes. Então, no Clube de Arte era arte que se cogitava. Eles traziam artistas também, a gente discutia arte lá. Mas a direção era realmente esquerdista. Meu irmão, Nelson Penteado de Andrade, foi presidente.

O que era o Clube de Arte?

Era isso, um clube onde se discutia arte, se vivia a arte, se trazia arte como se trazia filmes para o Clube de Cinema.

O clube durou?

Durou. Santos era uma cidade que tinha muita ebulição de arte, de temas artísticos. Era toda noite. Toda a noite você tinha alguma coisa de teor artístico pra ver.

Acha que o golpe militar acabou com isso?

Acabou.

Arrasou a cidade?

Acabou, arrasou sob esse aspecto. Eu não sei se o golpe militar é isso ou aquilo, eu não tenho simpatia nenhuma, sou contra. Mas eu não sei, não quero discutir aspectos, por que teria sido feito, por que não teria. Mas o golpe não tinha nenhuma ideia boa, uma ideia nobre para fazer um movimento daquele que só causou mal a quem nada tinha ou pouco tinha. Inventou coisas… É simples, todo mundo dizia que no dia em que houvesse um movimento como aquele Santos iria virar um caldeirão. No dia em que aconteceu [o golpe] eu estava na Praça Mauá tomando um sorvete. Aí eu vi passar um carro, era um carro da polícia. Aí vi passar outro. Não havia uma arma dos famosos líderes, não havia uma arma, nem um revólver. Eles não tinham porque eram uns miseráveis, não iam gastar dinheiro em revólver. [risos]. Então, eu achei que a revolução foi muito equivocada. E esse alarde que fizeram em torno de Santos como cidade comunista… Eu diria que Santos é uma cidade libertária. Uma cidade que lutou pela liberdade e na história dela você vê isso: com homens que não tinham nada de comunista.

O senhor acha que o Clube de Cinema chegou a formar uma intelectualidade aqui em Santos? Ou é exagerado isso?

Eu não sei nem se existe intelectualidade aqui em Santos, aliás, é uma palavra com a qual eu tenho muito cuidado. Toda vez que me chamam de intelectual eu fico meio arredado… Se chamar de poeta, tá legal; escritor, tá legal. Agora intelectual é aquele que cultiva as coisas do intelecto, do espírito, né? É um pouco difícil dizer se formou uma intelectualidade em Santos… Não quero ofender ninguém…

O senhor prefere o cinema ou a literatura?

Ao cinema eu prefiro o teatro, foi uma coisa que sempre discuti muito com o Roldão. Eu sempre fui mais para o teatro do que para o cinema. E ao teatro e ao cinema eu prefiro a literatura.

Prefere a literatura?

E a poesia é o que eu prefiro. Eu comecei com a poesia e estou morrendo perto da poesia. Espero, viu?… [risos].

Quais são os seus poetas?

Ah, aí vai longe. Vamos ficar com os brasileiros, que fica mais perto. Drummond, Bandeira, Vinicius, os poetas modernos e de agora, o João Cabral de Melo Neto, grande poeta… Aquele feio pra burro, mas grande poeta…

…o Ferreira Goulart?

O Ferreira Goulart, é isso mesmo.

 

O século 20 é muito marcado pelo cinema, não é? Eu acho que o cinema, pelo menos depois dos anos 1950, tem uma influência muito grande na formação do pessoal. O que o senhor acha?

Olha, você está dizendo uma coisa que eu não posso debater porque não pensei sobre isso.

 

O senhor acredita… uma discussão que está havendo aí, que o livro pode morrer por causa da internet?

Eu já escrevi sobre isso. Não acredito que morra, não.

Não?

Não. Há muita gente do meu lado e muita gente contra. Eu acho que ainda tem muito caminho pela frente. Oh, se tem! O que o livro contém vai demorar muito tempo para a internet substituir. Não vai. Você vê, há um problema muito sério com esse negócio, é o tédio né? O tédio. Curiosamente você lê um conto, lê outro conto, lê mais, lê isso, lê aquilo, lê romance, está sempre lendo, está sempre gostando, está sempre com o livro na mão. Você não pode andar com o computador na mão do mesmo jeito, não é verdade?

Se bem que tem gente que já anda com o computador na mão, não é?

É verdade [risos].

 

É, mas o senhor tocou num ponto que é o tédio mesmo.

Então [o computador] enjoa, né? A única coisa que eu conheço que não enjoa é mulher, o resto… [risos]. É verdade que na idade em que eu estou já está meio em desuso, mas… [mais risos].

 

[Risos] Tá gravando, hein!

Tá gravando, é? Amélia! Eu tô falando de você, viu? [risos].

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