Arte, Experimentação

Anaïs Nin: Retratos de Antonin Artaud

[Os textos que seguem foram retirados dos Diários de Anaïs Nin (Vol. 1, 1931-1933). Anaïs e Artaud se conheceram através de René Allendy, psicanalista destacado na época, com o qual Anaïs chegou a fazer terapia. Os textos dão a ver tanto a recepção da figura de Artaud pela sensibilidade de Anaïs Nin, como também, em sentido histórico, mostram-nos como a sociedade e os meios culturais parisienses dos anos 30 viam Artaud que, por esses anos, lutava para pôr em obra seu “Teatro da Crueldade”]

Retratos de Antonin Artaud, por Anaïs Nin.

Artaud. Magro, tenso. Um rosto escavado, olhos de visionário. Modos sarcásticos. Ora cansado, ora ardente e sardônico.

Ele falou dos antigos ritos de sangue. O poder do contágio. De como perdemos essa magia do contágio. A religião antiga sabia organizar ritos que tornavam contagiosos a fé e o êxtase. O poder dos ritos desapareceu. Ele quer devolver isso ao teatro. Hoje em dia ninguém é capaz de compartilhar uma sensação com o outro. E Antonin Artaud quer que o teatro realize isso, que esteja no centro, que seja um rito que nos desperte a todos. Ele quer gritar de tal forma que as pessoas sejam novamente reconduzidas ao fervor e ao êxtase. Nada de palavras. Nada de análise. O contágio pela representação dos estados de êxtase. Nada de encenação objetiva, mas um rito no meio do público.

Enquanto ele falava, eu me perguntava se ele tinha razão ao afirmar que eram os ritos o que havíamos perdido, ou se as pessoas não haviam perdido a capacidade de sentir até o ponto de rito algum poder recuperá-la.

Artaud é o surrealista que os surrealistas renegaram, a silhueta magra e fantasmagórica que assombra os cafés mas que nunca é visto no balcão, bebendo e rindo na companhia dos outros. É uma criatura drogada, contraída, que anda sempre sozinho e encena peças de teatro que parecem sessões de tortura.

Ele tem olhos azuis de langor, negros de sofrimento. É todo nervos. No entanto, estava tão bonito no papel de monge apaixonado por Joana D’Arc no filme de Carl Dreyer. Os olhos fundos de místico, como se brilhassem no fundo de uma caverna. Profundos, sombrios e misteriosos.

Para Artaud, escrever também é doloroso. Só o consegue de maneira espasmódica e com grande esforço. É pobre. Vive em conflito com um mundo que lhe parece ameaçador e zombeteiro. Sua intensidade é obscura, bastante apavorante.

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Uma sala na Sorbonne.

Allendy e Artaud sentados atrás de uma grande mesa. Allendy apresentou Artaud. A sala estava repleta. A cena formava um estranho pano de fundo. Gente de todas as idades. O público das palestras de Allendy sobre as Novas Ideias.

A luz era crua. Ela mergulhava na escuridão os olhos fundos de Artaud. Isso acentuava ainda mais intensamente seus gestos. Parecia atormentado. Seus cabelos muito longos às vezes caíam sobre a testa. Tinha a leveza e a vivacidade dos gestos do ator. Um rosto magro, como devastado pela febre. Um olhar que não parecia enxergar o público. Um olhar de visionário. Mãos longas com longos dedos.

Ao lado, Allendy parece prosaico, pesado, cinzento. Está sentado atrás da mesa, maciço, concentrado. Artaud sobe no estrado e começa a falar: “O Teatro e a Peste”.

Pediu-me que ficasse na primeira fila. Parece-me que ele quer apenas a intensidade, uma maneira mais elevada de sentir e de viver. Será que ele quer nos lembrar que foi durante a peste que surgiram tantas peças de teatro e obras de arte maravilhosas, pois o homem, fustigado pelo medo da morte, busca a imortalidade, a evasão, procura ultrapassar-se? Mas então, de uma maneira quase imperceptível, Artaud abandonou o fio que seguíamos e se pôs a representar alguém morrendo de peste. Ninguém reparou quando isso havia começado. Para ilustrar sua conferência, representava uma agonia. “Peste”, em francês, é uma palavra muito mais terrível do que “plague” em inglês. Mas não existem palavras para descrever o que Artaud representava no estrado da Sorbonne. Ele esqueceu sua conferência, o teatro, sua ideias, o Dr. Allendy a seu lado, o público, os jovens estudantes, a mulher de Allendy, os professores e os diretores de teatro.

Seu rosto estava convulsionado de angústia e seus cabelos, empapados de suor. Seus olhos dilatavam-se, seus músculos enrijeciam-se, seus dedos lutavam para conservar a agilidade. Fazia-nos sentir sua garganta seca e queimando, o sofrimento, a febre, o fogo de suas entranhas. Estava na tortura. Uivava. Delirava. Representava sua própria morte, sua crucificação.

As pessoas primeiro perderam o fôlego. Depois começaram a rir. Todos riam! Assobiavam. Depois, um a um, começaram a retirar-se ruidosamente, falando alto, protestando. Batiam a porta ao sair. Os únicos que não se mexeram foram Allendy, sua mulher, os Lalou, Marguerite. Mais protestos. Mais vaias. Mas Artaud continua, até seu último alento. E fica lá, por terra. Finalmente, com a sala vazia, só um pequeno grupo de amigos, levanta-se, vem diretamente na minha direção e me beija a mão. Pede-me que o acompanhe até um café.

Todos os demais tinham alguma coisa para fazer. Separamo-nos na porta da Sorbonne. Artaud e eu saímos sob uma garoa fina. Caminhamos, caminhamos ao longo de ruas escuras. Ele estava magoado, duramente atingido e desconcertado por causa das vaias. Espumava de cólera: “Eles sempre querem ouvir falar de; querem ouvir uma conferência objetiva sobre “O Teatro e a Peste” e eu quero lhes dar a própria experiência, a própria peste para que eles se aterrorizem e despertem. Não percebem que estão todos mortos. A morte deles é total, como uma surdez, uma cegueira. O que lhes mostrei foi a agonia. A minha, sim, e de todos os que vivem”.

A chuva caia no seu rosto, ele afastava os cabelos da testa. Tinha o ar tenso, obcecado, mas em seguida falou mais calmamente. Paramos no “La Coupole”. Esqueceu a conferência. “Nunca encontrei alguém que sinta como eu. Faz quinze anos que me drogo com ópio. Deram-me pela primeira vez quando eu era bem jovem, para acalmar as minhas terríveis dores de cabeça. Às vezes sinto que não escrevo, mas que descrevo meus esforços para escrever, meus esforços para nascer”.

Recitou-me poemas seus. Falamos da forma, do teatro, do seu trabalho.

“Você tem olhos verdes, às vezes violeta.”

Ele recuperou a calma e a doçura. Continuamos nossa caminhada sob a chuva.

Morrer de peste, para ele, não era mais terrível que morrer de mediocridade, de espírito mercantil, da corrupção que nos rodeia. Ele quer fazer com que as pessoas tomem consciência de que estão morrendo. Levá-las à força a um estado poético.

“Sua hostilidade só prova que você os perturbou”, disse-lhe.

Mas que choque ver um poeta sensível diante de um público hostil! Que brutalidade, que horror esse público!

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Sinto por Artaud uma imensa piedade, pois ele nunca para de sofrer. É a obscuridade, o amargor existentes nele que eu gostaria de curar. Fisicamente seria incapaz de tocá-lo, mas amo nele sua chama e seu gênio.

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“Doce, frágil e pérfida”, disse ele. “As pessoas pensam que sou louco. Você me acha louco? É isso que a amedronta?”

Nesse instante, diante dele, tive certeza de que era louco e de que eu amava sua loucura. Olhei sua boca de lábios enegrecidos pelo láudano, uma boca que eu não tinha vontade de beijar. Ser beijada por ele seria como sentir-me arrastada para a morte, para a loucura. Sabia que ele queria ser reconduzido à vida pelo amor de uma mulher, reencarnar-se, nascer de novo, ser aquecido, mas a irrealidade da sua vida tornava impossível todo amor humano. Tinha inventado, para não feri-lo, o mito de um amor dividido, no qual a carne e o espírito nunca estavam reunidos. Ele disse: “Nunca acreditaria encontrar em você a minha loucura”.

Artaud no “La Coupole”, derramando uma torrente de poesia, falando de magia: “Sou Heliogábalo, o imperador romano louco”, pois ele se transforma em tudo aquilo sobre o que escreve. No táxi, afasta os cabelos do rosto devastado. A beleza desse dia de verão não o tocava. Ergueu-se no táxi e estendeu o braço na direção das ruas apinhadas. “Logo virá a revolução. Tudo isso será destruído. É preciso destruir este mundo. Está corrompido, cheio de horror. Um mundo povoado de múmias, eu lhe digo. Decadência romana. A morte. Quero um teatro que seja um tratamento de choque, para galvanizar, jogar as pessoas na sensação”.

Percebi pela primeira vez que Artaud vivia num universo de tal modo fantástico que era para ele mesmo que desejava a violência do choque, para sentir a realidade ou encarnar a potência de uma grande paixão. Mas, como ele continuava gritando em pé no táxi, espumando de fúria, a multidão juntou-se para vê-lo e o motorista começou a ficar nervoso. Pensei que fosse esquecer onde estávamos, a caminho da estação Saint-Lazare, rumo ao trem que me levaria de volta, e que ele fosse tornar-se violento. Compreendi que ele queria uma revolução, uma catástrofe, um desastre que desse fim à sua existência insuportável.

Anaïs Nin

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