por Silvio Ferraz

“O ponto que pretendo alcançar nesta leitura é aquele que diz respeito à forma musical. Para falar de forma tomarei por base a definição de Boulez – e Deleuze a partir de Boulez – para espaço e tempo liso ou estriado. A razão é simples, distingue-se de fato de um lado a noção de forma pressuposta ou forma a priori, de outro a forma enquanto poiesis. Uma distinção que não põe de um lado forma a priori  e de outro a forma a posteriori, mas sim distingue a forma enquanto predeterminada e de outro aquela que nasce. Paulo Klee falava de uma mise-en-forme (conformação) a forma que nasce com as forças que a definem”.

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Für Elise – Beethoven – Espaço Estriado

O espaço estriado pressupõe a operação de contar para preencher. Ou seja, tenho uma forma, contabilizo a forma, e então me ponho a preencher esta forma com elementos que tornem a forma clara. Tornar a forma clara, máxima do estruturalismo musical. Deste modo todo elemento incorporado à forma virá como marcador desta forma, ganhando significado sempre relacionado à forma. É isto que algumas leituras musicais compreendem por significado musical: a forma, ou a estrutura, é o significado.

Violin Phase – Steve Reich – Espaço Liso

O espaço liso é aquele que subentende a operação de preencher sem contar. Ou seja, o que se passa é sempre uma mise-en-forme, uma poiesis da forma. Neste jogo da poiesis da forma temos que a forma nasce da repetição, da repetição da própria poiesis, repetição do ato de invenção – conforme a definição de Gabriel Tarde em Les lois de l’imitation (Paris: LIbrairie Félix Alcan,1921), pensamento de onde Deleuze formulará, em seu Différence et Repetition (Paris: Minuit, 1968) sua “repetição do diferente”: repetir o diferente correspondendo assim a repetir a invenção.

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Boulez lembra ainda que liso e estriado não são absolutos, mas um converte-se facilmente no outro. Um espaço infinitamente estriado constitui-se em espaço liso. Um espaço liso de longa permanência é uma estria face a um outro espaço que lhe seja sucessivo.

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Fonte: http://sferraz.mus.br/palestra_deleuzeboulez/deleuze_boulez2.html

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