Stirner2De 1806 à 1856, ou seja, no curto espaço de cinqüenta anos, um raio anarquista atravessou a Alemanha e gritou à babel filosófica européia sons inauditos. Chamava-se Max Stirner, precursor daquilo que viria a ser conhecido como “anarquismo individualista”. Dentre as inúmeras frases afiadas de seu livro “O Único e Sua Propriedade” (clique aqui para baixar o e-book completo), destacamos as que seguem:

 

 “Nada é a causa de Deus e da humanidade, a não ser eles próprios. Do mesmo modo, Eu sou a minha causa, eu que, como Deus, sou o nada de tudo o resto, eu que sou o meu tudo, eu que sou Único. 

Se Deus e a humanidade, como vós assegurais, têm em si mesmos substância suficiente para serem, em si, tudo em tudo, então eu sinto que a mim me faltará muito menos, e que não terei de me lamentar pela minha “vacuidade”. O nada que eu sou não o é no sentido da vacuidade, mas antes o nada criador, o nada a partir do qual eu próprio, como criador, tudo crio.

Por isso: nada de causas que não sejam única e exclusivamente a minha causa! Vocês dirão que a minha causa deveria, então, ao menos ser a “boa causa”. Qual bom, qual mau! Eu próprio sou a minha causa, e eu não sou nem bom nem mau. Nem uma nem outra coisa fazem para mim qualquer sentido.

O divino é a causa de Deus, o humano a causa “do homem”. A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre, etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim… única, tal como eu. Para mim, nada está acima de mim!”

No que toca a Nietzsche, transcrevemos abaixo um trecho do livro de um de seus mais conhecidos biógrafos, Rüdiger Safranski (clique aqui para ler o livro “Friedrich Nietzsche: Biografia de uma Tragédia”):

“Nos anos 40 [1840] – em que Nietzsche, como admitiu a um amigo, gostaria de ter vivido – surgira um autor contra os maquinistas da lógica histórica e naturalista, que escrevera a respeito do espírito livre e vivo: “Ele sabe que não apenas com relação a Deus nos portamos de maneira religiosa ou crente, mas também com relação a outras ideias, como Direito, Estado, Lei etc… isto é, ele reconhece por toda parte a possessão. Dessa maneira, quer dissolver os pensamentos pelo pensar” (Stirner). Devemos lembrar aqui um provocador filosófico que já antes de Nietzsche fazia experimentos com o pensamento da inversão, e formulara seu protesto contra a suposta lógica férrea de Natureza, História e Sociedade. Sob o pseudônimo de Max Stirner, Johann Caspar Schmitdt, professor do “Educandário para Moças Nobres”, em Berlim, publicara em 1844 seu livro “O único e a sua propriedade”, que naquela ocasião causara grande alvoroço, e por sua radicalidade anarquista individualista  fora rejeitado oficialmente como escandaloso ou absurdo pelo meio filosófico acadêmico e também pelos dissidentes. (…) No que diz respeito a Nietzsche, também nele parece haver um estranho silêncio. Nem uma única vez ele menciona o nome de Stirner em sua obra, mas pouco depois de seu colapso desencadeou-se na Alemanha uma disputa acirrada sobre se Nietzsche teria conhecido Stirner, ou se deixara estimular por ele. A posição mais extrema nesse debate, em que, entre outros, tomaram parte Peter Gast, a irmã [de Nietzsche], o amigo de muitos anos Franz Overbeck e Eduard von Hartmann, foi assumida por aqueles que fizeram uma acusação de plágio. Hartmann, por exemplo, argumentou que Nietzsche conhecera a obra de Stirner, pois na sua “Segunda Extemporânea” criticara exatamente aquelas passagens da obra de Hartmann em que se tratava de uma rejeição explícita da filosofia de Stirner. Portanto, Nietzsche devia ter sabido de Stirner pelo menos por essa via. Hartmann indica ainda paralelos de pensamentos entre os dois, e então pergunta por que Nietzsche se deixaria estimular por Stirner, mas sistematicamente se calava sobre ele. A resposta evidente naquele tempo foi assim formulada por um contemporâneo: “Por toda parte no mundo das pessoas cultas ele (Nietzsche) teria ficado desacreditado para sempre se mostrasse qualquer simpatia por Stirner, o grosseiro, inescrupuloso Stirner que insistia em seu egoísmo e anarquismo crus; pois a rigorosa censura em Berlim apenas permitira que se imprimisse o livro de Stirner porque os pensamentos apresentados eram tão exagerados que ninguém concordaria com eles” (Rahden).

Com a má fama de Stirner, realmente podemos entender que Nietzsche não quisesse ser mencionado em relação a ele nem por um segundo. As pesquisas de Franz Overbeck mostraram que inegavelmente Nietzsche fizera seu aluno Baumgartner pegar emprestada a obra de Stirner na Biblioteca de Basiléia em 1874. Talvez fosse uma medida de precaução, fazer o aluno ir em seu lugar? Pelo menos foi assim que essa notícia foi recebida pelo público, interpretação que é apoiada nas memórias de Ida Overbeck, amiga de Nietzsche nos anos setenta. Ela relata: “Certa vez, quando meu marido saíra, ele (Nietzsche) conversou comigo um pouquinho e mencionou duas figuras esquisitas em particular com quem estava se ocupando naquele momento, e nas quais via um parentesco consigo próprio. Como sempre que detectava algum parentesco interior, ele ficava muito animado e feliz. Algum tempo depois viu Klinger em nossa casa (…) ‘Ah’, disse ele, ‘com Klinger eu me decepcionei lindamente. Era um filisteu; não, com esse não me sinto aparentado; mas Stirner, ah, esse sim!’ E no seu rosto havia uma expressão solene. Enquanto eu o contemplava atentamente, seus traços mudaram de novo, ele fez um gesto negativo e de recusa e disse num sussurro: ‘Bom, agora eu já lhe disse, e não queria falar nisso. Esqueça. Vão lhe falar em plágio, mas estou certo de que você não o fará, eu sei’ (Bernoulli)”. Ida Overbeck prossegue dizendo que, para seu aluno Baumgarter, Nietzsche dissera que a obra de Stirner era ‘a mais ousada e coerente desde Hobbes’. Sabemos que Nietzsche não era um leitor paciente, mas à sua maneira um leitor minucioso. Raramente lia livros até o fim, mas os lia com um instinto certeiro procurando aqueles aspectos reveladores e estimulantes. Ida Overbeck relata sobre isso: ‘Ele me disse que ao ler um autor sempre é atingido apenas por frases breves, que se liga a elas com suas próprias ideias, e sobre esses pilares que assim se oferecem constrói algo novo’ (Bernoulli)”.

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