Por Michel Onfray | Trad.: Rodrigo Lucheta

O TOTEM NÃO É TABU

Artaud, entre múltiplas invenções linguageiras que constituem um tanto de licenças poéticas, falou do “corpo-sem-órgãos”. Sob a pena de Gilles Deleuze, o escriba equilibrado do louco genial que era Félix Guattari, este conceito deu a volta no planeta. Tornou-se “CsO” (Concurso de salto de Obstáculos, dizem na Normandia os amantes de cavalos que não leram o Anti-Édipo…) e permite aos devotos dessa recente escolástica filosófica zombarem e embriagarem-se como dervixes giratórios, tal como na época abençoada de Tomás de Aquino…

Artaud escrevia: “Sem boca Sem língua Sem dentes Sem laringe Sem esôfago Sem estômago Sem barriga Sem ânus Eu reconstruirei o homem que sou” – sem pontuação na frase igualmente… De minha parte, penso que não há senão boca e língua, dentes e laringe, esôfago e estômago, barriga e ânus, inclusive e sobretudo, nos negadores da anatomia…

Deleuze era o filósofo do desejo e Foucault o filósofo do prazer – velha oposição entre o cristão que quer o desejo contido, insatisfeito, trabalhando o corpo (com órgãos…), vivido na carne como uma maldição entendida como falta (ah! divino Lacan, companheiro de estrada dessa aventura platônica e grande guru dessa escolástica pós-moderna…) e o prazer que é a resolução do desejo. O desejo não resolvido é a frustração, a somatização, a angústia, o sofrimento, a dor, a inquietação. O prazer, ao contrário, é serenidade reavida, paz construída, quietude, doçura, bem estar – todos anti-virtudes, ou vícios, para um cérebro formatado pelo cristianismo. Platão contra Epicuro, velho combate…

Eu luto há cinquenta livros contra todas as escolásticas, contra todas as formas capturadas pelo cristianismo, contra a filosofia dominante, mesmo quando ela parece minoritária, alternativa, contestadora como no caso de Deleuze. Vejamos por quais razões, com o passar do tempo, Deleuze junta-se à tropa dos clássicos da filosofia: seu “CsO” bem poderia se destacar, no museu dos horrores filosóficos, ao lado da “Ideia” de Platão, da “Substância Pensante” de Descartes, do “Númeno” de Kant, do “Conceito” de Hegel ou do “Em Si” de Sartre, todos eles grandes máquinas de colocar o real à distância para lhe preferir a ideia de que é feito, dito de outra maneira, o tecido dos sonhos…

O “CsO” de Deleuze é a resposta ao Corpo com órgãos de Deleuze. O desprezo da biografia, o ódio da vida concreta do filósofo sempre traem, àquele que clama alto e forte esta opção ideológica, a existência de um cadáver no armário. De um ou de vários… A santidade e a altura de visão do filósofo que despreza a colocação em perspectiva da obra e do autor teve seu momento de glória com o estruturalismo que fez uma religião desse auto-de-fé da biografia e mais geralmente do contexto. O texto, não o contexto: esta era a religião do momento nos anos 1970…

Compreendemos que o nazi Heidegger tome como lamentável e deplorável colocar em perspectiva uma obra e seu autor, um autor e seu tempo, seu tempo e sua inscrição concreta nele. A anedota é célebre: o autor de Ser e Tempo, antes de apresentar a  Metafísica de Aristóteles em seu curso de 1924, reduziu a biografia de Aristóteles a isto: “ele nasceu, pensou e morreu”. De fato, com semelhante concisão, evitamos nos demorar na vida filosófica do filósofo, a única prova, entretanto, de sua filosofia…

Cioran, do qual conhecemos doravante o engajamento intelectual ao lado da Guarda de Ferro Romena, as palavras ditirâmbicas publicadas em favor de Hitler, as páginas de um antissemitismo desvairado, os livros consagrados a celebrar a força e a saúde fascista, também ele teve interesse em teorizar a inutilidade da biografia para abordar uma obra e, sobretudo, para compreendê-la.

Imagino também por que razões ele me escreveu um dia, na ocasião em que eu queria lhe dedicar minha tese, dizendo que lhe repugnava esse exercício inútil. De fato, a lenda que ele havia escrito sobre si mesmo, a de um sábio recluso em seu quarto bem próximo do Jardim de Luxemburgo em Paris, não exigia que fôssemos efetuar um trabalho de historiador das ideias sobre a vida filosófica desse desesperado que amava tanto a conversação, a bicicleta, a escrita, a leitura, a amizade, a boa mesa, a música e que vivia de dia como hedonista o contrário do que teorizava, como pessimista, à noite…

Por conseguinte, o famoso “Corpo-sem-Órgãos” de Deleuze merece que aqui nos demoremos um pouco, justamente cotejando-o com a biografia do personagem.

Quando lia Deleuze na Universidade, eu travava diante desse conceito que eu não entendia. Abri-me com um professor que ostentava o figurino da modernidade em uma Universidade (a de Caen) que se parecia com uma corte dos milagres: uma múmia protestante, um hipócrita, um preguiçoso, dois ou três stalinistas, um místico…

Esse leitor de Sade e de Bataille  fora maoísta depois e, tendo descoberto Lacan durante as férias,  se converteu à seita e daí em diante psicanalisava os marxistas-leninistas enquanto via falos por toda parte. Atualmente, com a vida mansa como a maioria dos manifestantes de maio de 68, ele adora o apóstolo Paulo e escreve livros onde, reciclando o saber fenomenológico, prega a grandeza e a verdade universal do cristianismo… À questão “o que faz o CsO?”, respondeu que ele mesmo jamais havia compreendido verdadeiramente o que era preciso entender por isso. Anotado. Ele ao menos uma vez em sua vida foi um homem honesto.

Vamos proceder de outra maneira. Este conceito é problemático? Vejamos O Vocabulário de Gilles Deleuze, um livro que se propõe esclarecer (!) os conceitos maiores do filósofo. Aqui está o esclarecimento prometido e esperado: “Limite de desterritorialização do corpo esquizofrênico, concebido para se opor ao corpo despedaçado e aos maus objetos parciais, ele funciona mais geralmente como superfície virtual e lisa, indissociável dos fluxos que a percorrem e que nela se cruzam”. Ah, bom… Tudo se torna claro… Seguem-se cinco páginas explicativas com um desenvolvimento que aumenta esse tipo de luz.

Gosto muito do Deleuze intelectual, consciência crítica de seu tempo, militante de causas nobres – a esquerda não liberal, os prisioneiros, os homossexuais, os palestinos, a estética contemporânea, a crítica dos Novos Filósofos – e não estou longe de pensar, sacrilégio!, que o maior Deleuze se encontra à margem de Deleuze: O Abecedário ou os dois volumes que reúnem suas intervenções: A Ilha DesertaDois Regimes de Loucos.  Mas a escolástica bem dotada, brilhante, genial malabarista, que mastiga belos objetos ocos, como o “CsO”, hoje me faz sorrir. Chego na idade em que não nos embaraçamos mais com palavras para afirmar claramente que, aqui por exemplo, o rei está nu…

Entremos na obra do grande filósofo pela pequena porta da biografia. François Dosse, que assina a dos cúmplices Deleuze-Guattari, escreve: “De sua infância ele não pode suportar a simples evocação”. É preciso ver aí uma das razões de sua carga contra a triangulação edipiana em O Anti-Édipo? Provavelmente sim, se colocarmos a hipótese de que a verdadeira razão de sua recusa da biografia se enraíza em um traumatismo singular.

Georges, seu irmão mais velho, fez Saint-Cyr [uma escola militar] para tornar-se oficial. Depois ele entra na Resistência. Detido pelos alemães para ser deportado, ele morre durante o trajeto para o campo de concentração. Aos olhos dos pais, Georges torna-se o filho mártir, o herói. Em 1943, Gilles tem 18 anos, está no último ano escolar, em uma turma na qual se encontra um colega de classe que se tornará célebre: Guy Môquet… Gilles Deleuze, irmão de um mártir do nazismo, colega de um resistente fuzilado por balas alemãs, evita cuidadosamente juntar-se às filas da Resistência. Aplicado, ele prepara sua formatura…

Nesta mesma biografia, pode-se ler o testemunho de Claude Lemoine, que foi aluno de Deleuze no Liceu de Amiens em 1951. Ele conta que o filósofo lhe falou nestes termos sobre seu irmão mais velho, morto em um vagão para animais enquanto seguia para um capo nazi: “Aquele imbecil, quando de um trote para calouros, ele se furou com a própria espada de Saint-Cyrien”. E de pontuar esta infame profanação com uma grande risada… Compreende-se que Deleuze tenha cuidadosamente feito profissão de evitar o assunto infância, de afastar toda remissão à biografia, de recusar interrogar a relação edipiana, depois de avariar a empresa psicanalítica freudiana.

O corpo de Deleuze é, disse ele a Claire Parnet nos Diálogos, sem impressões digitais. O menor contato com as coisas, sobretudo o tecido, lhe é insuportável. De onde aquelas grandes unhas jamais cortadas, que se recurvam como garras e impedem tocar o mundo, o contato com as pessoas, a carícia com o amado, o aperto de mão com outrem e obrigam ao devir-animal do filósofo dotado de grifos como uma fera de presa que não sabe e não pode senão cortar, lacerar.

Sua fobia ao leite, dos laticínios e outros produtos derivados o fazia inquietar-se compulsivamente com a composição dos alimentos que lhe ofereciam. O menor gosto de leite lhe desagradava. Olá, Freud? No Abecedário, ele confidencia seus pratos de predileção: os miolos, os miúdos. Tuberculoso, operado desde 1969, vivendo com apenas um pulmão, com notória insuficiência respiratória e fumante compulsivo, compreende-se o desejo que Deleuze podia ter por esse famoso corpo sem órgãos

Podemos igualmente imaginar que, em eco à confidência feita por seu amigo Michel Tournier – “Gilles não perdoava a seus pais a admiração exclusiva deles por Georges”… -, o corpo morto de seu irmão herói, resistente e mártir, tão presente por sua ausência no coração dos pais privados de seu filho mais velho, possa fornecer um outro modelo que poderia ser esse corpo-sem-órgãos que tomava o espaço, todo o espaço, teria dito o caçula que se acreditava preterido, na alma de seus pais. Desejar tornar-se esse corpo sem órgãos do irmão morto para substituir esse corpo com muitos órgãos doentes do filósofo vivo, eis o que autoriza um fio de Ariadne para entrar no labirinto do autor de Crítica e Clínica… Entrar – e sair.

Para mim, eu que não sou nem platônico nem partidário da reativação do corpo glorioso do Cristo tal como é anatomizado por santo Agostinho e pelos cristãos, não acredito estupidamente, simplesmente, ingenuamente senão na existência de um corpo definido por seus órgãos… O Corpo-sem-Órgãos? O corpo de Jesus nos Evangelhos, o corpo do anjo monoteísta, o corpo pneumático dos gnósticos cristãos, o corpo numenal dos kantianos, o corpo glorioso do cristão salvo depois do Juízo Final, que é o mesmo que dizer um anti-corpo, o corpo psíquico dos espíritos que movem mesas, o corpo tagarela dos fenomenólogos que trabalham com um bisturi de papel, um corpo fabricado com todos os remendos por aqueles que não podem suportar o seu.

Eu gostaria que, para dinamitar Deleuze e a seriedade filosófica dos anos 1970 – vestida em trajes falsamente descontraídos -, pudéssemos invocar uma arte dita menor, a saber, a dos quadrinhos: a brutalidade simples dos HQs populares contra as glosas líricas sobre a pintura de Bacon, o soco artístico contra o floreado de rendas de citações legitimantes – Beckett e Melville, Lewis Carroll e Joyce, Proust e Kafka -, o salpico de cor contra o arabesco barroco preto-e-branco de conceitos infinitamente dobrados sobre si mesmos, o fluxo escorrido e espermático, cromático, transbordante e infestante contra a mineralidade de uma prosa absconsa.

E, sobretudo, a carne, o sangue, os órgãos, os músculos, a pele, os tendões, os pelos, os intestinos; depois os seios, as pernas, as bocas, os ventres, as línguas, o suor, as lágrimas, a linfa, a hemoglobina, a baba; enfim as cicatrizes, as próteses, as costuras, os piercings, as agulhas e outros momentos que frequentam o trabalho de Stéphane Blanquet, o artista que afirma pintando, desenhando, mostrando que: o Corpo-Sente-Órgão. Este corpo real é o antídoto, o remédio para o Corpo-sem-Órgãos dos platônicos que, malgrado seus esforços, não chegam verdadeiramente a derrubar seu inimigo…

E Jean Lambert-wild em tudo isso? Ele é o demiurgo que reúne os amigos desconhecidos que, todos, comungam no corpo, na carne, a verdade tangível do mundo real; ele é o traficante que reconduz dos além-mundos onde elas se perderam, as ovelhas desgarradas por vinte séculos de bobagens cristãs; ele é o apresentador pagão de monstros, enquanto outros mostram ursos: elfos felizes, duendes lúdicos e hedonistas, gnomos dionisíacos, daimons báquicos. Aliás, Jean se parece com eles, Jean vive em seu mundo. O Teatro de Caen tornou-se o palco (plateau) onde se divertem aqueles para quem o corpo é o que resta quando tudo desmoronou.

Michel Onfray

Maio de 2009

Clique aqui para ler o texto original em francês.

Gilles Deleuze

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s